quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Perdão (você é o caminho)


"Perdão" é um termo utilizado há 2000 anos, mas a maioria das pessoas tem uma ideia muito limitada do seu significado. Você não poderá perdoar realmente, nem a si nem aos outros, enquanto basear a sua identidade no passado. Só através do acesso ao poder do Agora, que é o seu próprio poder, poderá haver verdadeiro perdão.

Isso retira poder ao passado, e você compreende profundamente que nada do que algum dia fez, ou do que algum dia lhe foi feito a si, poderia tocar, nem sequer ligeiramente, a essência radiosa de quem você é. Todo o conceito de perdão se torna então desnecessário.

E como chego eu a esse ponto da compreensão?

Ao render-se ao que é, tornando-se assim plenamente presente, o passado deixa de ter qualquer poder. Você deixa de precisar dele. A presença é a chave. O Agora é a chave.

Eckhart Tolle (O Poder do Agora, pág. 227)
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A nossa atenção àquilo que acreditamos que precisa de perdão, é que concede o poder, não porque não devamos olhar para aquilo que, supostamente, se fez de errado ou fizemos de errado. Mas, na verdade, é a forma como se olha para "o erro". Quando se tem o olhar do perdão, de que precisa perdoar algo, alguém ou a si mesmo, implicitamente, está o olhar da culpa também. Sempre que há o "perdão" em jogo, há culpado e vítima e esse olhar não possui muita saída porque o que está feito está feito e o que foi eliciado em termos de ação e reação, foi, já foi e não há como refazer, está feito e pronto. Por isso, o olhar do perdão, sempre leva para o passado, sempre passeia pelo pensamento linear e não multidimensional ou integral, da situação em si.

Se olharmos bem, toda situação pode ter um olhar mais integral, compreendendo-a como um todo e não apenas em dois polos apenas: culpado e inocente, vítima e algoz, certo e errado - o humano, assim como toda a sua experiência, é mais do que isso, então, fixar-se no perdão, é fixar-se apenas em polos, potencializando certo olhar que não nos levará a nada.

Lidar com esse olhar linear, para mim, também não é fácil, não é simples para nós, estarmos sempre no agora, por mais que Eckhart fale que é simples. Não, não é tão simples assim, para quem está viciado em lidar apenas com a sua mente, seus pensamentos e crenças e este, somos todos nós, humanos. Mas, o fato de não ser fácil não quer dizer que ele esteja errado. Não, ele está certo. Se mantivermos nossa atenção no agora, perceberemos que aquilo que consideramos algo a ser perdoado, não existe, o que existe é apenas aquilo que se manifesta e se expressa naquele momento. O que te leva a manter a emoção de culpa ou de vítima, é apenas os teus pensamentos grudados em algum evento que já não existe mais ou ainda, a nossa emoção revivendo esse passado e colocando mais e mais emoção em cima disso e isso, já sabemos, chama-se ressentimento, mágoa.

Viver no agora, é aceitar que aquele evento aconteceu e ponto, acabou. Agora se não é possível largar o evento, se isso ainda está aí te tirando a energia, é porque talvez haja a necessidade de olhar para isso de uma forma mais profunda e ampla, e não apenas linear. Cabe a nós sentirmos o que o nosso coração está pedindo.

Há feridas que precisam, muitas vezes, serem vistas, para algumas pessoas, para que assim estas, consigam soltar esse evento e deixa-los, definitivamente no passado, e só assim, passarem a viver no agora. Não sinto que viver no agora, seja algo fácil, reafirmo, e o olhar para si, curar certas feridas, talvez, faça parte desse ser que o Eckhart fala - é preciso soltar o passado e para isso, talvez seja importante, olhar para ele com maior profundidade e amplitude, sair do pensamento linear e aí sim, soltar. E aí sim, viver no agora.

Muitas vezes, negligenciamos as nossas emoções ou emersões de certas coisas aos nossos corações, em detrimento de uma imagem ideal de "perfeição" irreal" - o Eckhart é o Eckhart e você é você, o Dalai Lama é Dalai Lama, você é você, o mestre, guru e todos os papeis que enxergamos por aí de ideal e perfeição, são papeis e não cabe a mim julgar se é assim ou não, se o que eles vivem é verdadeiro ou não. Sinto que Eckhart fala com verdade, do coração dele, mas como eu disse: o Eckhart é o Eckhart e eu sou eu. Então, cabe a mim saber de mim e conhecer a mim, onde, quando e como irei cuidar de mim para que esse "viver no agora" seja benéfico ou quem sabe "eu sequer viva" e tudo bem. E mais, será que não vivemos em tantos e tantos momentos, nesse agora que o Eckhart fala? Será que não estamos negligenciando e subestimando demais a nós mesmos e idealizando o outro, sempre? Será que já não fazemos e vivemos certas coisas que muitos dizem por aí, porém, não temos a consciência sobre nós porque estamos preocupados demais em olhar para aquilo que o outro fala e não para sentir a nós mesmos? Será que não estamos nos percebendo em algumas experiências e já fazendo algumas coisas que nos são valiosas e significativas para nós? Será que não estamos subestimando a nossa força em detrimento de lições que talvez sejam importantes sim, mas para quem fala ou escreve sobre ela? O viver no agora do Eckhart é o viver no agora dele, mas não necessariamente, é meu viver no agora e para mim, é esse último que mais importa, sinceramente.

Demorei muito para escrever sobre o Eckhart porque sinto que ele fala algo que ele vive e sente, mas sinto também que é propaganda demais para um coletivo que não tem consciência de coisas tão pequenas sobre si mesmos, que dirá ter consciência de algo que é apenas vivido pelo outro. Acho que a propaganda, somos nós mesmos que estamos fazendo ou pelo menos, somos cúmplices disso - eu mesma já publiquei e publico muito sobre certas condutas ideais(preciso repensar isso). E acho sim, que acaba virando um ideal propagado por aí que ao invés de ajudar só alimenta ideias e crenças ilusórias, isso sim, é que acho que é ilusão.

Ao invés de tentar chegar num ponto que alguém disse que é bom e proveitoso, que tal vivenciarmos a nós com maior amorosidade, menos exigências, sentindo-nos e cuidando do que em nós é presente? E esse cuidado é você com você mesmo, é conversando com amigos que partilham das suas ideias, conversando coisas mais íntimas com amigos mais íntimos e procurando sim, terapeutas e especialistas da área para cuidar de si, eles sabem e eles entendem do assunto, estudaram para isso e estudam muito, enfim. E esse é o meu jeito de ver e sentir as coisas. Qual é o seu, como você sente e vê? É o que você sente e vê? Ou é aquilo que você ouviu dizer em algum lugar e de alguém? Você é você e por ser assim é especial e único.

Viver e usar daquilo que a vida nos oferece como recurso para sermos mais o que realmente somos ou permanecermos nos enganando achando que somos o que não somos; bem, isso de fato, somos nós que escolhemos.

Eu, bem, eu estou a caminho de mim e em mim mesma, como sempre e para variar (risos), e sinto por todos os sinais que recebo (inclusive esse texto) que este é o caminho, eu sou o caminho, sempre. E para você, você é o caminho. (Kátia de Souza)