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quarta-feira, 28 de julho de 2021

Inocência

Imagem: arte de Daria Petrilli Tutt'Art@

🦋A inocência é a voz íntima sublime que nos faz companhia e nos abraça em parceria. É a suavidade de quem soltou o mundo e abraçou o seu próprio mundo para além da palavra ou qualquer entendimento. É o frescor de quem vive a coragem de encarar suas próprias esquinas e retas diluindo-se pouco a pouco e ainda assim, ouvir a confiança de sua própria voz. E ainda, talvez, seja o "não-saber" e ainda assim confiar.

🦋A inocência não possui referência alguma, a não ser aquilo que não se define, mas se permite sentir, dentro. Não é rotulável ou traz na mala o conhecimento de nada, além dos sons que emite o tom de seus passos ou sua existência, para se fazer presente. E estes sons, são tão únicos; vem deixam-se ecoar e vão, quase no mesmo segundo. Não, não fazem questão de perpetuar. São sempre novos, primeiros ou inícios. E até por isso, se confundem com o canto das sereias; aquele que ingênuo não viu que é apenas uma malha fina de uma única intensão: diluir os incautos, junto às águas daquele oceano, em tuas ondas desdenhar de suas forças e os levar para lá e para cá numa dança hipnótica. É assim que aprendemos de nossas próprias faces, em cada solavanco. É da ingenuidade, nos fazer reconhecer os perigos do mundo, até que chegue a inocência.

🦋A inocência vai junto às mesmas águas portando seu leme e mesmo que sem direção, ali está ele, o leme nas mãos, repartindo o fluxo, discernindo as profundidades, reconhecendo até mesmo, sua própria extensão. E quando em mar revolto, abraça-o junto ao peito e deixa-se sobre as ondas, flutuar. E faz de cada momento, inspiração e aos céus se lança, ganha asas, se põe a voar.

🦋A inocência, é estar em si, é viver o que não se pode ver ou ouvir, mas no simples silencia para ser e é. E em cada ser a mesma se apresenta, sem cópias, sem diretrizes e que cabe a cada um em si mesmo, calar. Na inocência não há palavras, falas e se há alguma coisa, talvez seja, compreensão.


🌹Kátia de Souza - 25/07/2021___✍
🔎Texto protegido em seus direitos autorais
T7309285 - Lei 6.910 (direitos autorais)

domingo, 25 de julho de 2021

Entrega

 

Imagem via Pinterest

🦋Entrega-te ou apenas reconhece, aquele que diz mais alto, mas com tanta sutileza que desbota sob nossa razão, seu passar.

🦋São mãos sagradas, estas, que te afagam por dentro e faz desabrochar o que o silêncio em continente espaço, entoa de sua alma.

🦋É por esses caminhos confidentes que escorre aquela canção, acariciando e preenchendo, feito lua adornando a noite; quieta e misteriosa a espiar os amantes. E ela em seu manto escuro reflete nossa própria quietude, a noite; craveja o céu de estrelas para fazer jus ao momento e em nós, desperta o olhar, silenciando o tempo de dentro.

🦋É por aí que nos mistérios das palavras a vida também propõe sua dança e solfeja passos em gestos de palavras aos poetas acordados.

🦋E não poupará espaços; corpo e alma se transfiguram e entregues, manifestam a espontânea causa de tudo.

🦋E nisso, só nos cabe dizer: "divino é o ser que sabe ler teus solfejos, reconhece o tom e dança em tua casa, sabendo que em cada nota ou passo, jamais houve ensaio, pois, por ele tua voz, mesmo que desfeita em sua integralidade, reverbera sempre, o sabor das primeiras vezes."

🌹Kátia de Souza - 25/07/2021___✍
🔎Texto protegido em seus direitos autorais
T7306848 - Lei 6.910 - (direitos autorais)

domingo, 18 de julho de 2021

Imagem caprichosa

Na imagem: arte de Eli Chang

🦋Capricho mesmo, é pensar que aquilo que é da gente tá ali na exposição do nome que foi dado: "é da gente".

Agora, caprichoso é esse caminho de desvanecimento que dilui tudo que passa pelas mãos sem deixar rastro... e na boca, o gosto do "não mais", passou.

É... caprichoso é esse jeito pequeno de pegar e largar, brincar de soltar para imaginar ser solto, mas repetindo gestos. Quando na boca o silêncio contido dizendo o que realmente, é.

Ah! Capricho das ordens e lições em quartéis sem guarda, vê se fala p'ro caminho deixar de querer ser seta e dar as caras, pular feito menino que volteia desenhando a beleza da vida em multiplicidade. E ainda tem o capricho de ser a paisagem e o sabor de todos. Diz também para ambos pular em coro, além desse horizonte, ali bem dentro da gente.

Caprichoso mesmo é soprar aromas das mãos que sabem acariciar a alma quando em prosa sai das retas e ouve sua própria valsa!
🦋

🌹Kátia de Souza em 2018 (reeditado em 18/07/2021)___✍
🔎Texto protegido em seus direitos autorais
ⒸT7301939 - Lei 6.910 (direitos autorais)

sexta-feira, 16 de julho de 2021

PRIMEIRO A "FALA, DAR, CATARSE", DEPOIS A "ESCUTA, RECEBER, CONSCIÊNCIA"


Imagem via Claudia Dantas


🦋As relações humanas é uma ponte para o nosso amadurecimento e ampliação de consciência, apesar de todos os pesares que enfrentamos ao nos relacionarmos, ainda é assim. Digo que é uma forma de expressão da abundância da vida, tamanha a riqueza que é analisar as relações humanas ou presencia-las em nós. Quanto, as mesmas, nos faz reagir e dessa forma nos possibilita ao reconhecimento de nós mesmos, se estivermos disponíveis a isso. E sabemos que essa disponibilidade para as relações ou vermo-nos nas mesmas, nem sempre é algo fácil porque entra em jogo tantas coisas. Contudo, gostaria de abordar isso, falando sobre "o dar e o receber" e nossas reações frente aquilo que recebemos do outro ou da experiência.

🦋Não é difícil no momento atual, principalmente com o advento das redes sociais, nos colocarmos disponíveis a "dar" - falar sobre o que pensamos, sobre o que sentimos, sobre nossos conhecimentos, algumas experiências, entre outros. Porém, quando o assunto é receber, a coisa muda e torna-se diferente para a maioria de nós. E quando falo em receber, é receber mesmo - estar aberto, disponível a uma opinião, pensamento ou conhecimento diferentes do nosso. É como diz Rubem Alves, estamos mais disponíveis a um "curso de oratória", mas precisamos mesmos é de um de "escutatória". E escutar, no sentido de receber o outro, sem a ânsia de já ter pronto alguma resposta, sem as tais reações impulsivas. Quando alguém fala, já estamos pensando no que vamos responder e não estamos escutando o que o outro está realmente, dizendo.

🦋O outro fala por diversas vias, não apenas pela palavra. Escutar, receber é também, poder se sintonizar com o que "se quer dizer" e quando possível com aquilo que está sendo dito sem dizer, mas ouvindo, verdadeiramente. E não é ouvir para ter que dizer algo, não se preparando ou se "armando" como se tivesse que se defender de algo. E isso nos acontece com frequência e, normalmente, por questões inconscientes em nós, ou seja, não é algo que fazemos de propósito, mas é importante que saibamos disso para compreendermos melhor a nós mesmos e melhorar nossas relações - amadurecermos.

🦋É importante, entendermos que um encontro legítimo, verdadeiro onde um e outro se compreende PLENAMENTE, isso não existe, pelo menos até o momento, não consigo ver que exista. Um relacionamento que prova de uma intimidade profunda onde a compreensão é presente, é possível e acontece, mas nem esses relacionamentos, podem nos mostrar uma PLENITUDE de compreensão e entendimento - digo que nossas relações estão a caminho dessa plenitude, mas não sinto que seja assim, ainda. E digo mais, estou falando de plenitude que para mim, está relacionado a liberdade e não PERFEIÇÃO.

🦋Voltando ao tema do "dar e receber", quando se doa um ponto de vista, este fala de quem o expressa e não de quem ou o quê esse olhar está se referindo. Então, quando recebemos esse ponto de vista, estamos recebendo o outro em nós. Mas, como o recebemos, diz de nós e não do outro. Se ao receber, detectamos algo que não concordamos, seja na fala explícita ou implícita, isso ainda diz de nós e talvez, também do outro. E para saber o quanto isso diz de nós mesmos e do outro, isto vai depender da intimidade, da disponibilidade e da consciência que temos sobre nós mesmos, principalmente. E em relação ao outro, minimamente, saberemos se tivermos um pouco de intimidade com ele, caso contrário, nada saberemos e supor, não necessariamente, diz quem o outro é. Pode-se ter uma ideia, sentir, intuir, mas saber realmente, só dependerá do quanto de intimidade se tem com essa pessoa. E claro que isso, não quer dizer que você não possa responder ou mesmo reagir frente a qualquer ponto de vista. Porém, essa reação nos revela sempre, diz de nossa maturidade e/ou nossa ampliação de consciência, quanto menos consciente mais a reação é primária ou primitiva/instintiva, podendo ser destrutiva.

🦋E vejam, não estamos falando aqui, de uma atitude equilibrada, no sentido ideal que se prega por aí, isso também não existe. Estamos falando de reconhecimento sobre si mesmo, de consciência, de olhar para si enquanto ser integral e responsável por uma realidade e/ou coletivo menos infantilizados. Nossas imaturidades, existem, fazem parte do processo e nos chamam sempre para serem acolhidas e isso não é feito uma única vez e pronto, como se vendo uma única vez, não houvesse mais nada a se ver ou cuidar. Ou quem sabe apenas vendo uma única vez, adotar uma postura sempre, como se esta fosse a única possível e para todas as experiências. Isto, no mínimo, é nos subjugar, nos menosprezar ou menosprezar todo o potencial que somos, enquanto alma. Temos ou somos em nós mesmos, um potencializador de forças a serem empregues em nossas relações que nos permite a criação de uma realidade mais madura. Esse cuidado é em nossa jornada, constante e continuamente, e talvez, devamos manter essa dedicação, atenção e cuidado a nós mesmos, sempre. E nossos impulsos são as energias mais puras em nós, nos sentido de primordial, por isso, não são polidas mesmo, porém, requer de nós a consciência para sabermos o quanto dessa energia podemos usufruir, sendo às vezes, mais assertivos ou menos assertivos, mas é preciso que a dominemos sim, senão, eles nos dominam.

🦋E quando percebemos que o que foi dito, expresso ou mostrado sob um ponto de vista, tem em suas entrelinhas algum aspectos destrutivo? Como lidar com isso?

🦋Sabemos que há situações assim, onde a pessoa fala uma coisa, mas está dizendo outra, completamente oposta, implicitamente. E muitas vezes, quer agredir, quer invadir, quer provocar, desvalorizar a quem ou o quê se refere. Sentimos isso pela via da intuição, farejamos isso e ficamos atentos a situação para agir, diante da mesma. E veja, agir... que é diferente de reagir. Reagir implica em estar sob domínio de algo que nos afetou, externamente - afeto, portanto nos afetamos, foi ativado em nós algo, internamente. Agir é estar sob o nosso próprio domínio ou domínio de nossos impulsos. É de dentro para fora e não de fora para dentro, a ação que diz sobre você. E como você lida com a sua agressividade, sua possibilidade de invasão, provocação, menosprezo, enfim. Como tudo isso dentro de você é, é como você age ou reage. Quanto mais consciente você é sobre tudo isso dentro de você, menos reação você está submetido. Porém, se não está consciente disso dentro de você mesmo, você fica subjugado ao outro/externo ou o que esse externo quer de você; ou ainda ao intuito do outro porque são complementares - o outro talvez não saiba desse aspecto destrutivo dentro de si e se sabe, não lida bem porque está colocando o mesmo para fora de forma destrutiva. Assim como você; se não lida bem ou não está consciente disso, vai reagir e na maioria das vezes, cumpre pelo outro o que era uma intenção dele ou ainda, estava somente velado.

🦋E o que acho mais interessante é que a vida é tão sábia que traz para nós, justamente, aquilo que precisamos aprender ou amadurecer. E quando intuo algo em alguém, nesse nível, fico muito atenta a mim mesma - minhas emoções - como estas emergem e o que elas me dizem. E sim, nem sempre foi assim e nem sempre é assim com todas as experiências, mas em algumas, já me é possível dominar o impulso primário e permitir que dele eu retire a energia necessária para lidar de forma mais ampliada.

🦋E é isso, através desse acolhimento do que emerge dentro de nós, de nossas emoções, podemos tirar disso o necessário para agir diante da situação. Não é se tornar passivo, mas é agir de forma mais genuína, construtiva e criativa; se possibilitando - usufruindo do seu poder, da sua força e assim possibilitando as experiências, relações ou realidade. Explorando assim recursos internos inimagináveis dentro de nós. Isto, claro, para quem em si mesmo reconhece essa possibilidade. Porém, posso afirmar, em todos nós há essa possibilidade. Em nenhum de nós falta algo que não possamos lidar de forma mais ampliada.

🦋Aproveitando o que diz a imagem e sinto estar em sintonia com a proposta da reflexão desse artigo, a fala é catarse é "a expulsão ou purgação" de certos afetos em nós, é colocar para fora algo que dentro parece já não ter mais espaço e por isso foi ativado por algo fora, precisa vir a tona, ser visto, cuidado, olhado. E a escuta é consciência, pois, é como abrir espaço para receber, é silenciar, dar espaço para caber algo que ainda não é presente, vamos dizer assim. E sim, às vezes, precisamos expurgar para abrir espaço dentro de nós, e este expurgo pode acontecer de diversas formas e certamente, dependerá da consciência inerente. Portanto, vejam o quanto fala e escuta, dar e receber estão ligados ou interligados. O quanto em nós há certos aspectos numa dança que pode ser harmônica e não conflituada, se assim o permitirmos. Não necessariamente os "opostos" precisam ser contrários, gerando conflito, eles sempre serão opostos porque é da nossa natureza que assim o seja, mas podem ser harmônicos, dançarem juntos. Não é um jogo de opostos é uma dança. Portanto, falar e escutar é algo que é possível, harmonicamente, mas isso precisa nascer, primeiramente, dentro de cada um de nós. Fora, apenas refletimos o que somos ou como lidamos com nós mesmos.

🦋Contudo, é importante lembrar que a criação, sempre trará sementes novas a todos nós, à nossa jornada. Portanto, sempre haverá aspectos primitivos/primordiais a serem absorvidos ou acolhidos por nós. E é natural que diante do desconhecido, de algo que é realmente novo, para nós, mais reagimos do que agimos, propriamente. É natural, nesses casos que sejamos, primeiramente, dominados por esse "impulso primevo", então, certamente agiremos instintivamente, num primeiro momento. Passado essas primeiras experiências com esses aspectos, cabe a nós a tomada de consciência que também é da nossa natureza. Veja, primeiro a "fala, dar, catarse", depois a "escuta, receber, consciência" - uma dança em nós, internamente. E considerando os níveis de consciência em cada singularidade ou personalidade que são, infinitamente, diversas na humanidade, isto toma uma proporção bastante complexa em se abordar. Porém, já nos é possível aqui compreender um pouco o porquê cada um reage ou age da forma que "consegue" ou "pode" agir ou reagir. Para cada um há aspectos nascendo ou sendo apresentados de formas diferentes e os serão, por diversas vezes, em diversas experiências, até que sejamos nós a nascer para um novo nível de consciência. Sintamos!


🌹Kátia de Souza - 16/07/2021___✍
🔎🔎Texto protegido em seus direitos autorais
T7300687 - Lei 6.910 (direitos autorais)

quinta-feira, 15 de julho de 2021

É incrivelmente belo

Imagem via Google - desconheço o autor

🦋É incrivelmente belo aquilo que nos permite ir em sobreposição aos lugares predeterminados. É vivo o seu compor à nós. É incessante o seu bailar em dança inédita e é preciso o seu entoar em tons diversos. Ele, não se aninha em ritmo único, é dele toda a diversidade que se multiplica ao infinito e isto, diz de atributos que está além da nossa compreensão.


Falar dele é apenas ensejo ou desejo de recantos íntimos que se comunicam para não esquecer ou preencher-se de sentido. E até se deseja outras palavras que lhe descreva a face em meio as letras. Mas, elas se calam em algum ponto e nos pedem distância - para compor a proximidade é preciso saber deter-se. Então, cala-se, distancia-se e permite-se ir, nos braços desse que sustém a nós, dito mistério.

Mas, como não ver a chama em tanta dança? Não permitir que a magia nos leve e fale por si? Como não se deitar aconchegada em meio as brasas que antes nos fez te repelir?

Como não aquietar-se junto ao coro de aquecidas concordâncias? Que discordam e é nisso que fazem par. Par de parceria esquecida num silêncio qualquer. Porque é nesta voz que entoa tua letra.

E como que querendo perder-se ao longe e distanciar-me de ti, retorno, só para reafirmar suas próprias palavras de dizer que não há lugar nenhum e como voo, não pega, apenas voa.

Por isso, talvez, seja incrivelmente belo, o seu sobrepor-se à nós e amoroso demais em nos deixar disso provar; o ar em vento brando que teima em refrescar a face.

Das tuas mãos recebo o cálice e sem diretrizes que me apontam gestos, permito desde a pele o teu toque em abraço e o vinho que me dessedenta a alma, em preenchimento!🦋

🌹Kátia de Souza -09/07/2021___✍
Texto protegido em seus direitos autorais
T7300278 - Lei 6910 (direitos autorais)

terça-feira, 13 de julho de 2021

Apenas um ensaio

Na imagem: arte de Amanda Clark

🦋A humanidade reflete em suas palavras a "divisão ou cisão" em que se encontra, internamente. Ou talvez poder-se-ia dizer que a psicologia humana tem a natureza de dividir os atributos inteiros da alma. Ou como diria Jung em "O Espírito da Arte e da Ciência" - "reduz" para encontrar sentido.

🦋A inteireza da alma é algo inerente. Não é um jogo de opostos ou contrários, mas uma comunhão de aspectos tão harmônicos que talvez, por isso, seja imensurável. E cabe-nos, desta forma, a árdua tarefa da vivência. Sim, árdua porque não é mensurável e sem isso, o homem passa a viver ou é "levado" a fazê-lo,onde as descrições ou definições, afirmações ou confirmações não traduzem ou mesmo faz sentido. E sinto que é isso que ele chama de silêncio ou nada - apenas é, se expressa, se manifesta. Mas, o homem se apraz com suas "cantorias" ou verdades cantadas, é assim que encontramos sentido. O homem tem dificuldade em só, apenas viver, ser.

🦋Ele traz em si um paradoxo básico eu diria, pois, por ser inteiro e pleno por natureza, a criação traz a ele também nessa inteireza, o vazio. O que seria do inteiro e plenamente preenchido se nele, não coubesse também o vazio? Não seria inteiro. Contudo, a ciência/conhecimento, mesmo que sutil desse vazio, faz do homem esse "buscador" inclemente, esse herói que vai em busca de si mesmo, ou seja, é a partir dessa "energia" que possui o sentido de vazio que o homem, enquanto personalidade, sente-se imprimido à criar, a ser algo que está por nascer, constantemente. E como a criação é perfeita, põe o mesmo em movimento, a partir disso. E nisso, nasce em continuidade e constância, a consciência que o homem ou a humanidade é ou tem por natureza. O renascido sempre é presente, cabe-nos sabê-lo. E nisto, lá estará a dança harmônica que é compreendida por oposição ou contrários, sendo sempre um em luz e outro à sombra, um dito e expresso e outro calado, em silêncio. É assim que se entende, mas não necessariamente, é assim que é - porque é imensurável, indescritível e só se pode dizer do que somos, através da experiência do ser.

🦋E aí vem outra questão que é a vivência única do ser, as singularidades. Ah! essas singularidades como uma expressão do todo e talvez de toda a criação, são apenas compreendidas como uma parte e aparte da outra singularidade. Quando, talvez em realidade, não seja assim. Toda a ambiguidade cabe em um único ser, o todo já é e se expressa em cada singularidade, mas diante da nossa psicologia apenas conseguimos vê-la como parte.

Separa-se homem de mulher, pequeno de grande, pai de mãe, enfim, doa-se a existência papeis e funcionalidade sobre cada expressão e toda a ambiguidade da alma fica a mercê de outro espaço, em nós. E de certo que essas separações acabam por unilateralizar sempre, certas instâncias e por estarem mais próximos, todos esses papeis, do que é aparente ou externo, isto, fica subjugado ao que rege as aparências ou externalidades - racional, ego, mente. Contudo, não quer dizer que os outros aspectos complementares a essas externalidades, não estejam presentes. Estão, porém, não aparentes ou expressos racionalmente. Estão lá, mas em silêncio ou como alguns diriam, inconscientes. E racionalmente, compreendemos que tudo que é inconsciente, deixa de existir ou tem pouco valor, não se deve levar em conta. Valorizamos ou concedemos maior validação apenas àquilo que está a luz da consciência ou é concretamente explícito, como a única realidade. Acreditamos que estamos firmes em nossos papeis, nosso conhecimento, títulos, rótulos, nomes, palavras. Mas, na verdade estamos suspensos em certas instâncias da vida que não acessamos e nisso, a insegurança grita dentro, mas também nos move. Por isso, alguns dizem que a vida é um risco ou insegura. E eu diria que são apenas meios que a vida encontra de mostrar à nós, sua mutabilidade ou movimento.

🦋Sinto que para uma grande maioria e talvez isto também não possa ser mensurado as vivências dos campos mais sutis da alma, ainda é de desvalor, de descrédito porque a vivência não alcançou os mesmos e tudo que apenas acreditamos ou apenas passa pelo crivo do entendimento, sempre guardará em si uma dúvida sobre sua realidade. Obedecendo assim a dança harmônica dos opostos, mencionada acima - crenças, entendimento X dúvida, questionamentos. E nisso, também há a implicação da ampliação de consciência - mesmo reconhecendo os campos sutis da alma ou essa possibilidade chamada inconsciente, isto também estará subjugado ao quanto em si consegue apreender em luz e sombra, individual e coletivo.

🦋Quando nos aprofundamos em nós mesmos, entramos em contato com certas instâncias ou campos mais sutis. Ou seja, não são da ordem do racional, do concreto ou dos sentidos comuns. E nesses espaços toda a lógica cai por terra, o tempo se dissolve em apenas um constructo necessário para nossa referência racional. Enfim, e é nesse terreno que vislumbramos uma realidade que é imensurável. E por mais que tentamos e se tenta descrever, sempre haverá ali algo que não é possível, considerando que sempre haverá algo que não alcançamos, considerando ainda as singularidades, considerando a imensurabilidade da natureza ou da criação. E por guardar em si todo esse mistério, chamamos isso de sagrado, espiritual ou mesmo divino.

🦋E considerando tudo isso e esse terreno imensurável, profundo em nós, todas as suas ambiguidades, paradoxos e opostos, como não compreender a natureza do que é divino, na mesma medida ou segundo os mesmos preceitos? Sendo assim, considero a divindade ou aquilo que compreendemos Deus por algo ambíguo, paradoxal, guardando a dança harmônica dos opostos em continuidade e constância para a plena criação sempre em movimento, sempre criando. Portanto, doar a essa divindade um gênero, seja ele masculino ou feminino, é para mim, muito ingênuo. No mínimo, em nós há a "androgenia divina"(simbólico), é algo que, para mim, diz um pouco mais sobre tudo isso, dentro de nós - visto que tendemos a antropomorfizar o que não é objetivo. Mas, certamente, não é tudo porque sempre haverá algo a ser visto, descoberto ou que jamais poderá ser mensurado - imensurável, não esqueçamos.

🦋Bem, por enquanto, acredito que seja o suficiente. E este talvez, seja um ensaio dessas instâncias racionais que dançam harmonicamente, com aquelas outras que inconscientemente, também se encontram aqui, entrelinhas. E talvez, tudo o que foi escrito, não seja novidade alguma ou não esteja tão, evidentemente, claro - objetivado em sua clareza racional. Contudo não esqueçamos que é na vivência que se pode de alguma forma realizar algo que está intimamente calado. E escrever ou falar sobre o tema, nos permite a realização de alguma forma. Por isso, escreva, fale, converse nem que seja consigo mesmo sobre o tema. E mesmo que ainda assim permaneça obscuro, estará lá, o "ensaio" de um novo momento, em renascimento. Sintamos!


🌹Kátia de Souza - 03/07/2021___✍
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T7298506 - Lei 6.910 (direitos autorais)

domingo, 11 de julho de 2021

Um coração aberto

 

Na imagem: arte de Michael Parkes


🦋Um coração aberto ou disponível, está longe de ser ou representar um "ser" passivo, é um coração "vivo".

Um coração aberto, é um coração que "é" vida e reflete essa ação primária do ser, com tudo o que isso representa. Apenas se expressa, apesar de todas as "perfeitas imperfeições" da condição humana que, tantas vezes, são rechaçadas por nossa persistência em controlá-las.

Controlar é boicotar nossa integralidade, é não permitir-se a conscientização do que a experiência viva traz por si mesma. Isto pois, quando se sente e vive-se o que sente, a conexão consigo mesmo é real, mesmo que aparentemente, não pareça única, é única por ser sentida (conectada com o coração ou junto ao silêncio em si mesmo). Por isso, há sentido em vivê-la e com ela aprender ou autoconscientizar-se. 
Conscientizar-se é permitir-se à vida, é saber-se criativo, mas também destrutivo em muitos momentos e então, lidar com isso dentro e naturalmente, refletir essa consciência, fora. Controlar é tolher-se, é morte em vida - é rejeitar, negar e esconder a nós mesmos.

E ainda, conscientizar-se também é adentrar às possibilidades de expressar a força que há nessa vida acolhida por inteiro (luz e sombra) e trazê-la a tona, verdadeiramente, única - o realmente novo. Por isso, sinto que toda experiência é válida em essência, cabe a nós somente a disponibilidade de ampliar-se com a mesma ao nos dispor a ela, a partir do coração, sentindo e reconhecendo a si mesmo.
🦋


🌹Kátia de Souza (julho de 2019) reeditado em 11/07/2021___✍
Texto protegido em seus direitos autorais
T7297324 - Lei 6.910 (direitos autorais)

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Entrega

Na imagem: arte digital de Fredo Lima

🦋Só pude dizer que fui, sou ou serei, naquele instante não marcado pelas mãos que delineiam meus passos;

quando me entreguei no colo da experiência e te vi sorrir, brincar com nossos percalços, atropelar todas as nossas certezas e beber juntos do vazio que nos perde;

foi naquela entrega sem intenção, fluindo com a natureza do que somos que peguei uma porção de nuvens com meus olhos e antes que dissolvesse, pude sentir o que desesperadamente, tantos buscam, sem saberem que se encontram já aconchegados em seu colo;

e para não me deixar existente novamente, tão certa e tão inteiramente desenhada pela inteireza, soltei-a feito pássaro; e como é de ser, evaporou-se aquilo tudo, no meio do sorriso de um par de entrelaçadas mãos;

e num suspiro caímos em meio as palavras metades e vestindo-nos de asas, despencaram ambos, naquele chão onde não se precisa mais nada e onde o "ter que" nunca mais nos fez sentido!
🦋

🌹Kátia de Souza - 09/07/2021___✍
🔎Texto protegido em seus direitos autorais
ⒸT7296339 - Lei 6.910 (direitos autorais)

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Anúncio

Na imagem: arte de Vladimir Kush

 

🦋Falaremos por meias palavras
ou palavras inteiras que na cisma
se originou

afinal,

toda palavra é parte
de um inteiro que se calou

por isso, entenda que a cisma
não é aquilo que você, desconfiou

e cala-se não por imposição
contrárias opiniões
cala-se porque o que era se findou!🦋

🌹Kátia de Souza - 08/07/2021___✍

🔎Texto protegido em seus direitos autorais
ⒸT7295468 - Lei 5910 (diritos autorais)

sábado, 3 de julho de 2021

Cara a cara

 

Na imagem: arte de Tomasz Alen Kopera

🦋Aqueles olhos que vejo a minha frente, não são olhos de compêndios, não há registros que sustente aquele olhar


🦋E naquele tom mora uma voz. Um voz que me toca, corta e me fala em cada vibração: estou vivo!

🦋Aqueles desejos recheados de passos, mãos, lidas, sorrisos, lágrimas; não vi palavra alguma decifrar-lhe os enigmas das suas existências.

🦋E aquele segredo encoberto por certas posturas contraditórias, gerando tanta impaciência nos iguais em esforço por serem diferentes. Ah tão lindo o desejo puro de não querer atender a premissa alguma e continuar a manter-se no lugar onde se vive o que se pode viver!

🦋E aquelas páginas todas sobrepostas, revirando-se como se soubessem de onde vem tanto pulsar. Apagou-se em meio a página em branco diante de mim, mas tão viva, viva naquele olhar!

🦋E aquela confiança perdida em suas inseguranças, espalhadas em minhas mãos. Como não permitir que esta, em singular existência falasse o que de si transborda, mas no silêncio ainda de suas palavras?

🦋E foi impossível não sorrir quando se fez o encontro do que se assemelha. Toda vontade discordante caiu no colo das diversidades e entendeu-se dos caminhos, falou-se da abundância e supriu-se, todo o espaço ou distâncias, daquelas singulares, humanidades.

🦋E foi assim que se disse: vá! E ele disse sim, vou e sei que fico em algum lugar. Sei que aquele que fica ou vai; retorna ou jamais volta, este, sempre permanece em cada um de nós.

🦋Criou-se, floresceu sem que ninguém presenciasse, mas todos em algum espaço em si mesmos, tornou-se livre do provar ou comprovar alguma coisa. Foi assim que os caminhos riscados por tantos dedos e ditados por tantas vozes, retornaram aos seus lugares de direito e sussurrando a si mesmos: "Tarefa cumprida. Eis que mais alguns se colocam a nos transcender!"

🦋Viver nos coloca cara a cara com a vida e fica impossível não respeita-la no outro, mesmo diante das contrariedades e discordâncias. E talvez seja assim que nos tornamos eternos, nos aproximamos ou ficamos, jamais partimos quando se mora por dentro!

🌹Kátia de Souza - 03/07/2021___✍
🔎Texto protegido em seus direitos autorais
ⒸT7292001 - Lei 6.910 (direitos autorais)

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Eu não sei ...

Imagem, via Canvas

🦋Eu não sei da liberdade a não ser quando esta vem, me sopra seus segredos e depois vai aos seus refúgios distantes.

🦋Eu não sei nem mesmo das correntes que do avesso daquelas outras, se impuseram a nós feito elos, feito glamour de quem sabe por onde ir.

🦋Não, não sei da minha voz que em sua rouquidão vai desarmonizando o tempo e o espaço da música e compondo outra canção.

🦋E quem poderia dizer o que seria, se eu pudesse ouvir a música inteira nesse espaço tão pequeno de um só. Seria de certo uma aventura, teria eu que ser um polvo onde seus tentáculos segurariam, cada porção oferecida.

🦋Mas, não sou. Sou este que peca e aproxima-se do incerto e obscuro momento da entrega, do descabido ou impensável. Sou quem te dita os caminhos e se cala diante da incerteza que apenas se aclara a cada passo. E nem por isso, sou mais ou menos. Nem por isso, deixo a minha existência em outras mãos. Sigo os caminhos dos meus olhos que se deitam ao chão e voam ao céu sem precisar ou querer medir, a real dimensão.

🦋Sopram-me, sempre, sobre os descaminhos e as incertezas, falam-me das asas e dos elos, ditam-me coisas que não alcanço e nem sequer presencio o desejo em mim de sabê-las. E ouço silente e tão atento que abre-se sobre meus pés outro universo e nem sequer me perco ou me acho, estou ali... mas quando nesses braços continentes me coloco, me aconchegam e vive-se o que é apenas sopro e sentiu-se em algumas esquinas, por quais viramos, quando não queríamos ver.

🦋É muito preciso o seu existir, é "uninuclear" a sua aventura, é tão clara a dimensão que nossos pés alcançam que chega ser simples o nosso passar e tão complexo de atender ao que disso tudo, irradia-se. Nossa visão particular nos singulariza na simples presença da continuidade, sem mais outroras ou advires.

🦋Talvez seja isso a palavra solta ou inexistente que desaparece todos os dias em cada por do sol. E diante dos crepúsculos, somente essa voz, em nós, fala... o silêncio. E não há outra voz que tenha o poder de me fazer nascer tantas vezes e por isso, existir!


🌹Kátia de Souza - 01/07/2021___

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