sábado, 4 de janeiro de 2020

Onde estamos?


Imagem via Google
É cansaço puro estes tempos modernos, por isso, estou retornando. 

Revoltou-se contra o que se toca, para beijar as faces de vidro; que mesmo prestimosas trazem na tez, o gélido imóvel gesto, imperceptível a tantos corações. Enquanto isso, vamos esquecendo de nós... 
... das roupas que deixamos de vestir e nos caiam tão bem; sim, isso mesmo, as roupas... porque a nudez, é algo que se partilha na intimidade e esta, é certo pra todos. Ela, e sua vergonha por não corresponder ao perfeito status, essa raridade, só pra quem mora por dentro. Mas, em toda casa há espelhos ou ao menos reflexo, mesmo em vidro sujo, está lá toda a disforme nudez se apresentando. Sem falar na sombra atrevida, a nos perseguir por toda parte; torta, nada esbelta, mesmo ao meio do dia onde aparentes projeções se desfazem. Lembremos ainda do incômodo nos olhos, obscurecidos, após um banho de sol bem feito, ao entrar em casa. Sim, todas as vezes, ficamos surpreendidos, com aquele incômodo de não nos deixarem ver, após, tanta claridade. 

É, estamos todos esquecidos do que realmente importa e será que importa? Talvez o montante disso tudo, seja importante; cada movimento, mas o “não saber” é gritante... e nisso, há um risco que não se risca e um medo que deve todo o nosso respeito. 

Esquecemo-nos em coisas preciosas; das velhas avós nos ditando regras do mato, recusando-se às visitas inesperadas com as vassouras atrás da porta e em dia de chuva, vento fresco, lá estava ela com as ervas na mão e a nos ditar o que fazer. Esquecemo-nos de nós, nossas manias ao avesso importunando o marido, o marido emburrando feito criança, o cachorro latindo para os pássaros no céu e a passeata na avenida, o vozerio, o cortejo do último velório, anunciado pelo dobrar dos sinos, dos silêncios aprendidos e nos dizendo quietos, das manhas, todas, mas nossas no outro que amamos e até de nós singularmente falando, deixamos ali ganhando pó, tudo isso; os olhos da mulher que não quer palavras, só ouvidos; sem falar da pele que como flor pede a rega do afago... onde estamos todos nós? 

Na boca do político que esbraveja a sua consciência de “não poder”? Ou talvez seria melhor dizer da inconsciência de “não saber”? Na impertinência de todos nós, espelhada na boca de tantos “nós” que não vemos? Mas, enfim, talvez nada disso importa ou tudo isso, naquilo, é significativo, agregando mais a tantos de nós, desconhecidos.

Kátia de Souza
18/12/2019