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sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Deixa-me

Imgem de ®evenliu
Deixa-me tocar a tua face entre as brechas deste solo 
Permita-me ser mais do que o toque de tuas mãos 
Não sou mais do que esta gota que te abre os caminhos 
Mas, permito que me tenhas oceano 
Sabes das grandezas que se encerra em meio às formas 
Desenhadas em tela plana, teu olhar, a mim contorna

É toda planície um meio de coragem, estou lá, a te falar 
Caminhas quando asas te aprofundam em toda trama 
Se não sabes ...eis que meu rastro deixo a ti, guiar 
Como eco ou uma canção a embalar 
Nesse passo em compasso o verso clama:

- Sê clareira, lume entre as folhas que deformam, 
dissipa toda névoa em teu olhar
que em centelhas pelo céu à nós virá 
como és, e em verdade que proclama; 

És ninho que se deita e à nós ... amar!

(Kátia de Souza)
31-01-2020

É preciso


Imagem de Ruslan Kadiev

sim, é preciso retirar-se
e vigia a certa distância,
assim não devoras, 
pois, tamanha é a voracidade
na tua língua de setas
então, aqueles, não lhe cabe
o sabor e o sorver

raquíticas de você
são as palavras
que requer substâncias
esquecidas feito nada 
em colchões do depois

sim, retira-se ... é preciso
e preciso é todo o teu saber
na instância que subsiste
além do seu querer
retira-se ... sim, é preciso!

(Kátia de Souza)
31-01-2020

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

O CAMINHO PARA O SI-MESMO (Trecho da Introdução de "O Livro Vermelho de Carl Gustav Jung por Sonu Shamdasani)

Imagem via Google
O CAMINHO PARA O SI-MESMO 

Em 1918, Jung escreveu um ensaio intitulado "Sobre o inconsciente", no qual observava que todos nós estamos entre dois mundos: o mundo da percepção externa e o mundo da percepção do inconsciente. Essa distinção descreve sua experiência nessa época. Ele escreveu que Friedrich Schiller afirmara que a experiência destes dois mundos se fazia por meio da arte. Em contraposição argumentava Jung "a meu ver, a união da verdade racional com a verdade irracional deve ser encontrada não tanto na arte, mas muito mais no símbolo, pois é da essência do símbolo conter ambos os lados, o racional e o irracional." Os símbolos, afirmava ele, provinham do inconsciente, e a criação de símbolos era a função mais importante do inconsciente. Enquanto a função compensatória do inconsciente sempre esteve presente, a função de criação de símbolos só esteve presente quando estivemos dispostos a reconhecê-la. Aqui, vemos que Jung continua evitando considerar suas produções como arte. Não foi a arte, mas os símbolos que tiveram aqui importância primordial O reconhecimento e a recuperação desta força de criação de símbolos são descritos no Liber Novus. O livro retrata a tentativa de Jung de entender a natureza psicológica do simbolismo e de considerar suas fantasias de um ponto de vista simbólico. Ele concluiu que o que foi inconsciente em qualquer época determinada foi apenas relativo e mutante. O que se fazia necessário agora era a "reformulação de nossa visão do mundo, em consonância com os conteúdos ativos do inconsciente." Assim a tarefa que o confrontava era a de traduzir as concepções adquiridas através de seu confronto com o inconsciente, e expressas de forma literária e simbólica no Liber Novus, numa linguagem que fosse compatível com a perspectiva contemporânea.


No ano seguinte, Jung apresentou um ensaio na Inglaterra perante a Sociedade de Pesquisa Psíquica, da qual era membro honorário, sobre " Os fundamentos psicológicos da crença nos espíritos". Distinguiu duas situações em que o inconsciente coletivo se tornava atuante. Na primeira, era ativado por uma crise na vida do indivíduo e pelo colapso das esperanças e expectativas. Na segunda, era ativado em tempos de grande convulsão social, política e religiosa. Nesses momentos, os fatores reprimidos pelas atitudes predominantes acumulam-se no inconsciente coletivo. Indivíduos fortemente intuitivos tornam-se conscientes deles e procuram traduzi-los em ideias comunicáveis. Se eram bem-sucedidos em traduzir o inconsciente numa linguagem comunicável, isto tinha um efeito redentor. Os conteúdos do inconsciente tinham um efeito perturbador. Na primeira situação, o inconsciente coletivo poderia substituir a realidade, o que é patológico. Na segunda situação, o indivíduo pode se sentir desorientado, mas o estado não é patológico. Essa diferenciação dá a entender que, na opinião de Jung, sua própria experiência enquadrava-se na segunda categoria - ou seja, a ativação do inconsciente coletivo devido à convulsão geral. Portanto, seu temor inicial de iminente insanidade em 1913 estava em sua incapacidade de perceber essa distinção.


(Trecho da Introdução de "O Livro Vermelho de Carl Gustav Jung por Sonu Shamdasani)

Ensaios de um novo tempo (2)

Imagem de LIBRA SOF

          Faz tempo que deixei de frequentar, trafegar ou ir a certos nichos e estar em contato com certas normalidades; foi uma necessidade de ilha, mesmo. E não importa, agora, o que tudo isso quis ou quer dizer.

          Ficar ali, rodeada pelas águas e sem binóculo, foi estranho no começo. Mas, de areia, folhas e galhos cobriram-se meus pés e então, me agradei de todas aquelas texturas e explorei cada sentido afiando o ouvido em especial, pois, demorou, até que o mesmo, ficasse mudo. Sim, eram muitas as bocas ao pé do ouvido. Calar uma a uma, demorou-se quase uma volta inteira contemplando o oceano - sua vontade de mar, seu ar de sal e suas espumas de estrelas. Mas, antes de completar a volta, deitei-me ao chão e coberta de pássaros em noite de estrelas, lua imensa e riscos cadentes no céu, me chamou a visão.

          Já viram o silêncio? Pois é, não é corpo morto, vazio pendurado numa esquina qualquer. É parque de infantes dançantes que beira a loucura para quem vê, é adulteza imprevista saída do forno sem forma espalhando-se entre todos os corpos celestes e claro, é também anciã dos tempos sem volta a ditar suas rezas e unguentos entre a magia dos cânticos.

          E foi assim em meio ao silêncio, adormecendo instantes que esqueci e retornei para o templo em ruínas; esquecido entre palmeiras, musgos e criaturas piedosas que se alojaram em certos recantos decretando, ali, seu lar. É bom ter, povoado esses espaços; a vida por si, toma conta de tudo que é sagrado.

          Não, não as expulsei, já são partes vivas daquilo tudo, apenas ergui pedra a pedra, as que pude, junto aos escombros; deixei sempre por perto, o cálice cheio, afinal, sede é coisa sem aviso; reorganizei as folhas, frutos caídos e certas coisas tão próprias daquele lugar e naquele momento. É bom não esquecer que sempre, sempre haverá vento e nisso, você, ali, a rever cada espaço se refazendo e redescoberto.

          Ah esquecimentos é coisa boa porque nos faz lembrar!

          E agora, parto por aí novamente, às normais aventuras para colher objetos, coisa pouca que adorne e marque os trajetos. Pois é, mas não, não vi coisa alguma a datar de um tempo novo e no aguardo, por enquanto... no barco, em cada onda e em mãos, lente que alcança visões externas;  fico ali,  a marear sorrindo com cada palavra, gesto e pensamento, tão inteiramente igual ao de antes da necessidade de ilha.

          Se me entristeço diante da falta de estreia? Não, de jeito nenhum! Sorrio por saber que os caminhos são tão previsíveis, isso nos dá uma estranha sensação de um poder guardado em algum lugar, feito tesouro escondido e marcado com um “X”, no mapa desenhado por nossas próprias mãos. 

(Kátia de Souza em ®Ensaios de um novo tempo)
28-01-2020

Ensaios de um novo tempo (1)

Imagem de Kátia de Souza
           Entre céus, terras (raízes nossas), o farfalhar de asas de uma borboleta; conhecedora de mil caminhos, alma indelével, cumpria seu percurso e natureza, planando por entre as golfadas de vento e carícias de caules e folhas. 

           Ouvia-se distante, tudo aquilo, no jardim – eram pousos entre flores, pétala a pétala... volitava, ela e seu perfume em cor e brilho, e a cada voo, as lonjuras ou proximidades, eram o menor dos seus problemas. Afinal, no ar, captam-se “imagens-formas”, expressões palpáveis da sua etérea presença. E sob o olhar atento (desses que se abrem para dentro e nesse íntimo abraça todo o resto) a atrair-lhe, como num chamado, a Musa, entoando seu canto em versos – partes tuas a florir cada alçar e pouso, daquela que seria sua mensageira ou ela, sua fantasia mais inebriante. Tudo isso para falar de um tempo e um lugar inexistente, mas tão real quanto às efemeridades dos pensamentos.

           E foi assim que nasceu, “Ensaios de um Novo Tempo”.

(Kátia de Souza em esboços de "Ensaios de um Novo Tempo") 
28-01-2020

domingo, 26 de janeiro de 2020

Pelo gosto da experiência

Imagem via Google
Pelo gosto da experiência 

Não queira ler o "gosto da experiência"... para sabê-la, sinta, com cada personagem em si aquietado e não busque coerências na veia dos teus pensamentos, pois, eles são linhas que enredam teu saber. Caminhe devagar e sorva cada gota, dessa nossa vivência!
............

Estamos em nós 
e o que é “estar”, sequer nasceu, só há “nós”, 
sem pronome algum, só “é”... 

Eis que surge, do nada, uma chispa inconveniente acendendo os olhos para os lados: direita e esquerda. E lá estão os dois, nascidos do um, em lados que se completam, na oposição que veio depois. E agora sim, estão; 

nasce o espaço porque é preciso caber na divisão, as partes; 
e aquilo que sem divisas é, permanece em silêncio, e como semente sopra apenas seus brotos. 

Vê-se mãos, braços, tronco, pernas e movimentos; 
o deslocar do vento, agora fora, a tocar a pele – brinca a criação com suas partes 
reconhece os espaços: dentro, fora, aqui e acolá; 

lá adiante e tão próximo – cumprimenta as distâncias, colaboradoras fiéis e condição dessa dança que necessita da forma, das sensações, dos movimentos em lugares e por tempo, agora, marcado em antes e depois. 

Inconveniências do ser, são sementes fecundantes que promove o gérmen do nascer e então, se rompe a casca e dela outro ser. E, a saber, eis aí todas as inconveniências risonhas a se chocarem uma a outra; 

Ser a ser se olham, se reconhecem tão iguais, se não fosse a voz, a palavra que corta as igualdades, nascidas daquele latente e misterioso espaço, não visto, compondo todas as lateralidades; duais conceitos em “formas-reflexos”, aos seres agora, distribuídos, para que nesse duo, formem toda a coreografia inovadora e estreia em novo mundo, nascido sob cada par de pés. 

Eis as crias da Criação, e esta por sua vez, permanece semente, silenciada soprando seus brotos e galhos ao vento. 

Todo movimento é dança, mesmo sem compasso ou sincronia, pois, a música é única em cada par de orelhas e por dentro, no ouvido, assume seu próprio ritmo. Como não saber disso? E não sabem, pois, na língua ainda há o gosto das semelhanças lembrando-lhes a igualdade e o mar sem divisa. 

Conta-lhes a pele tênue, sobre o sabor da saudade entregue em nostalgias; 

Um fechar de olhos e os polos desaparecem e também, todo o resto – aquieta-se a música, os gestos, os lugares e já não são mais, as partes, distantes. Eis o caminho de volta e o nascer, parido na escuridão, o desejo de retorno; tudo é ainda tão rígido e pesado, mas belo em ação e arte. 

Bendito seja o seu autor! Eis a palavra ou o verso que despedaça as partes, as moem em ínfimas criaturas; poeira invisível sendo absorvidas, atraídas agora, em asas leves; voláteis criaturas, todas elas desde os lugares, espaços, tempos, corpos e movimentos e até mesmo, os espaços não vistos e latentes dos seres, no silêncio aquietado... 

Lá se vão eles seguindo o que permaneceu silente, todo o tempo - se ali, este, existisse... 

desde o princípio era só quietude e como semente, soprava seus brotos, galhos, flores e frutos; agora, todos eles, em seus leitos, não mais repartidos, sucumbem ao que jamais era previsto. Perdidos nos vãos de si mesmos acham-se encontrados de toda espécie de letra que mata a vida em pura essência e apenas se confirma, tanto e após, o velho e perfeito gosto, da experiência.
 (Kátia de Souza em 26-01-2020)

Vestes próprias

fotografia de ®Artizan
cubra o seu vazio com vestes próprias 
ou o deixe nu, luzindo em noite sem estrelas 
seja, ele todo, o lume a arder feito clareira 
às trevas dos seus olhos fechados 
abrir-se-ão, sempre, por qual abertura for, mas sua
 como fadas em bosques mágicos 
feito clarim do verso que lhe falta 
suas vestes são aquelas entre os vagos espaços 
desses passos calados e gestos contundentes 
mas, não... não vista-se sem saber-se oco 
antes, beba-se sem medida e cale 
a boca do vazio, fala por si... 
... tua palavra... única! 

(Kátia de Souza) 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Naquele quarto

Crédito da imagem, na mesma
Queres o segredo entre as pétalas
nas folhas, em desenho riscado
desejas o sabor da cor em perfume
exalado pelos poros dos teus gestos
e a dança do som cantado
nos passos trilhados desse coro
em vozes outras que ganham teu olhar
que bebem dos teus pensamentos
e saboreiam das emoções
até se depurar no frescor e na língua
sentido nas palavras proferidas
daqueles sonhos em lâminas e mitos
deuses caídos do sono sobre a cama
na mesa da alma e teus pesadelos
sentidos um a um
curvados em reverência cada qual
perfilados em instância tantas
para saber mais, além dos lábios, a pele
além da voz, o canto em oração
vestida de flor, ressurgindo dos quereres
e dos desejos já não mais em si
nua em chuva mansa
ascende tua face segredada ... ouve-se
naquele quarto... só o silêncio!

(Kátia de Souza)
23-01-2020

Onde está?

Arte de Michael Whelan
Onde está aquilo que lhe toca 
e traz você para fora para que possas ver? 

Onde está o que silencia 
e desabrocha em seu rosto o sorrir sem porquês? 

Onde está a lúcida presença 
do seu olhar a lhe dizer do leve voar de suas asas 

Na íntegra presença você é as discordâncias 
que nos acordam para ser 
E na similaridade concordas para deixar de ser 
as divisas ...e assim, honrar-se no vasto 

grandeza infinita, você 
no sempre que nos coroa... 

onde está ...vê? 

(Kátia de Souza) 
23-01-2020 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Dentro

Imagem via Google
Quando "dentro" 
perde-se o lugar
tudo é tudo a toda hora 
sem espaço

limite, gerando cansaço
é pausa sussurrada,
sopro de asas ...

é clara visão que não contorna

sem pressa, fisga 
no largo da escolha
e sem querer, se expressa,
pois, não há outra coisa

só, só o que há
ali ... "você" e todas as outras
que cabem sem se ver
mas é perfeita, nossa 
e no plural

 silencia-se...
...a primeira, pessoa!

(Kátia de Souza)
20-01-2020

domingo, 19 de janeiro de 2020

*O viajante mochileiro*(por Graziela Giraldi)

desconheço a autoria da imagem
*O viajante mochileiro*

Quem aqui sente que não existe morada fixa? Que está sempre em constante mudança, com a necessidade de levar consigo somente o que cabe na mochila? O caminho é longo, portanto uma mala grande e pesada iria dificultar sua jornada, você logo pensa!

Você não pode se preocupar em estar ostentando uma vestimenta que lhe cause qualquer desconforto, é preciso estar vestido para confortavelmente caber em si mesmo...

Um viajante mochileiro não consegue manter por muito tempo o mesmo costume de crenças e costumes das regiões onde lhe hospedam...

Visto que ele passa por muitos lugares e culturas, sempre se surpreende quando apreende algo novo, se sente grato, mas precisa seguir sua jornada, e nem sempre poderá manter os costumes ou aquela única verdade defendida dos lugares onde esteve...

Está em constante mudança e adaptação... Consigo mesmo e com o modo com que se relaciona com o todo, para isso foi necessário muito jogo de cintura, flexibilidade e acolhimento de si mesmo e dos outros...

O viajante mochileiro precisou aprender a ser Gentil, sempre precisa de hospedagem e acolhimento, ele não pode simplesmente chegar como fogo, que acende na grama verde, mas logo está sem combustível...

Por onde ele passa, leva sua chama suavemente, acende em harmonia com todos os elementos, sem consumir com fome exagerada os recursos disponíveis a ele durante a viagem...

Aprendeu que durante seus passos, o quanto ele puder deixar de sua fragrância perfumada, mesma simples e singela, ele estará contribuindo com todos que precisarão permanecer ali! (Graziela Giraldi)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Dedica-te ao teu sagrado …

desconheço a autoria da imagem
Dedica-te ao teu sagrado …

… ajusta as velas do teu foco e firme no leme, caminha na direção daquilo que te abraça e te faz vibrar, além das formas e cores nesse jardim. Estas belezas todas que vês, se encontram escondidas debaixo de algum móvel nesse porão, pois, consegues vê-las fora, as reconhece, portanto, há referência em ti, você sabe como encontrá-las, mas é preciso saber que a fonte não está no jardim, mas dentro, na vida que compõe a flor que tu és. Se não, eu te digo, toda vez que te aproximares dessas belezas todas, crendo que não há, esta mesma beleza em ti, ou melhor, não confiando que a fonte é sim, teu olhar, vendo-te como árido espaço sem belezas, junto ao abandono desse altar, essas belezas todas que vês fora, se tornarão cinzas, efêmeras e passageiras, pois, o que é eterno, se encontra dentro, em si mesmo e está esquecido e então, nas frustrações, compõe sintonia com o ambiente que as recebe. 

O sagrado está naquilo que te alça aos céus num sorriso espontâneo e sem limites e te preenche de paz, na alegria de apenas se perceber vida, nada mais. Desejos, sonhos e prazeres passageiros, são apenas vagos espaços te auxiliando a acordar, até pelas frustrações que também fazem parte desse trilhar, nessa vida que todos somos, elas, são apenas manifestações do divino que és, usufruindo de seu poder em criar, mesmo que inconsciente.

Semeia clareiras de alegrias, aparentemente, bobas neste campo sagrado, pequenas frestas de uma janela aberta, farão com que teus olhos se acostumem com a claridade de um sol que jamais pensou existir. Sinta-se na simplicidade que te agiganta.

A cada objeto antigo, retirado desse espaço sagrado, seja grato, ele cumpriu sua missão, porém há instantes que o vazio, é pedra preciosa para adornar certos ambientes. Não se detenha diante do mesmo e sequer pense que a morte que te assola os pensamentos, é prenúncio de algo que te destrói; é, apenas, o novo em palavras outras, distorcidas na estreiteza da razão, te sinalizando a amplitude que te encontras. Despeça-se do abandono e preencha-te de paz. Preencha-te de ti e seja você, viva!!!
(Kátia de Souza em 2017)
reedição em 2020

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Tragam seus chapéus (no mundo de Alice)

Imagem via pinterest
Tragam-me os seus chapéus 
tenho pra mim que não serão cartolas 
e nem mesmo coelhos moram lá 
e quem sabe sejam tocas ocas 
com bocas escuras a se explorar 
tocas que ao se unirem às abas tão redondas 
vertem-se em ser outra coisa qualquer 
querendo em sinuosa volta, nos dizer: 

“Expira espiralando o que vem desse soprar 
e retorna contornando essa descida 
com todo o seu olhar; 
recolha o que inspira e junto com o que há 
dentro, não fica, caminha, vá... 
... há, há sim de se alargar 

Tragam-me, tragam sim 
os seus chapéus 
não dará outra, pois sei, 
... já estive por lá
contudo, já estou de saída
não sou de me aportar!!!"

Kátia de Souza 
14-01-2020

domingo, 12 de janeiro de 2020

Soltando o verbo

Imagem via Tumblr - desconheço a autoria
Só pra avisar , 
eu não nasci calada, 
trouxe comigo um berro 
e num tom preciso; 
conciso, de fato; 
os corpos são pequenos demais pra caber tanta “gente” 
e o grito precisava ser audível 
então, nisto, 
sintetiza-se o humano, em humano; 
e o berro, por mais que seja grito
nunca, jamais é do seu tamanho
mas, é berro
que escorre no ouvido ou nas curvas das orelhas 
para ser reconhecido
apenas os tons ressonantes 
e na recusa das dissonâncias, ficam 
o que chamam-no de “restos” 
todos os silêncios responsáveis por acolhê-las 
e nisso, um convite: 
permitir-se ir mais longe, ouvir mais fundo 
os “restos- ruídos” que silenciam 
e no silêncio, o quanto falam 

Ouve o silêncio! 

Do berro, o ouvir do inevitável 
retornar já não é escolha 
e junto, é respiração do “com-junto” 
que “co-artificia” a arte de unir-se 

E assim, só assim ...soltamos o verbo! 

(Kátia de Souza) 
11/01/2020 

sábado, 11 de janeiro de 2020

“MEU EXPERIMENTO MAIS DIFÍCIL” (Trecho da introdução - "O livro vermelho" - Carl Gustav Jung)

Nos anos imediatamente precedentes ao início da guerra, um imaginário apocalíptico estava disseminado nas artes e na literatura europeias. Por exemplo, em 1912, Wassily Kandisky escreveu sobre uma catástrofe universal iminente. De 1912 a 1914, Edwig Meidner pintou uma série conhecida como paisagens apocalípticas, com cenas de cidades destruídas, cadáveres e tumulto. A profecia estava no ar. Em 1899, Leonora Piper a famosa médium americana previu que no século que chegava haveria uma terrível guerra em partes diferentes do mundo que o limparia revelando as verdades do espiritualismo. Em 1918, Arthur Conan Doyle o espiritualista e autor de “Sherlock Holmes”, encarava isso como profético. 

Na narração de Jung sobre a fantasia do trem no Liber Novus, a voz interna disse que o que a fantasia mostrava tornar-se-ia completamente real. Inicialmente, ele interpretou isso subjetiva e prospectivamente, ou seja, como a mostrar uma investigação psicológica de si mesmo. Nessa época, a autoexperimentação era habitual na medicina e na psicologia. A introspecção foi uma das principais ferramentas da pesquisa psicológica. 

Jung veio a perceber que Transformações e símbolos da libido “poderia ser tomado como eu mesmo e que sua análise leva inevitavelmente a uma análise de meus próprios processos inconscientes”. Ele havia projetado seu material naquele da Srta. Frank Miller que ele nunca conheceu. Até este ponto, Jung havia sido um pensador ativo, avesso à fantasia: “como uma forma de pensamento tenho para mim que seja uma forma totalmente impura, um tipo de intercurso incestuoso, completamente imoral de um ponto de vista intelectual”. Ele agora voltava-se para a análise de suas fantasias, anotando cuidadosamente tudo e tinha que superar uma resistência enorme para fazê-lo. “Permitir-se a fantasia em mim mesmo teve o mesmo efeito que o produzido em um homem que chegasse à sua oficina e encontrasse todas as suas ferramentas voando por toda parte, fazendo coisas independentemente de sua vontade”. Ao estudar suas fantasias, Jung percebeu que estudava a função criadora de mitos da mente. 

Sonu Shamdasani na introdução em “O livro vermelho – Liber Novus – Carl Gustav Jung
.........................
Reflexão: A vida nos proporciona infinitas possibilidades onde "abrir mão" das certezas, é algo que nos abre portas para descobertas imensuráveis. As crenças, nos sustentam sem dúvida, porém, até certo ponto e a partir desse ponto, no limite das mesmas, para avançar, é preciso abandona-las. Eis um grande desafio a nós mesmos e que certamente, nos trará uma infinidade de descobertas, inimagináveis. E sinto nesse trecho a coragem e determinação de Jung, se possibilitando a algo que ele mesmo não acreditava ser possível e como ele mesmo disse: " (...)era imoral de um ponto de vista intelectual". Mas, se permitiu e seguiu adiante, nos possibilitando, hoje, adentrar as mesmas portas com maior segurança e descobrir, em nós, caminhos únicos que nos faz provar da vida com mais vida. (Kátia de Souza)
(®Psiquê - Alma e Conhecimento)

domingo, 5 de janeiro de 2020

Sintamos

Via Google 
Nesses últimos dias recebi alguns “recados” em sincronicidades, sobre alguns eventos que vem acontecendo em minha vida pessoal. E apenas fui recolhendo os recados, sem pensar muito sobre o assunto ou querer juntar as peças, apenas fui recebendo conforme o “universo, a vida”, foi me enviando. Bem, o que posso dizer sobre o que, parcialmente, concluo disso? É exatamente, aquilo que todos nós já sabemos, de uma forma ou de outra, mas vale, mais uma vez dizer aqui. 

O nosso “coração” a voz da alma que somos, é sábia; temos essa sabedoria interior sim, e esta, nos fala, nos mostra, nos indica, nos coloca frente a determinadas situações ou experiências que deixa nítido o que, muitas vezes, é dúvida dentro de nós, pontos ainda imaturos, aspectos ainda poucos ampliados, explorados ou elaborados ou ainda imaturos. Ou seja, “nós” temos as respostas, está aí, dentro de cada um de nós, e trazemos essas respostas quando nos colocamos disponíveis a ouvir sem as ideias já preconcebidas e indiscriminadas da mente “comum e egoica”. E, a partir dessa escuta íntima, é que esta condição humana, mental e egoica, vai também se ampliando e sentimos isso, perfeitamente, diante da compreensão dos fatos (quando o quebra-cabeças junta as suas peças, naturalmente); aflora, desperta, “eureca”, insigths, enfim. Não quero me prender a nomes e rótulos, sinta aí porque é assim (risos). 

E aqui, só queria deixar esse recado, mais uma vez (risos); quanto mais nos fechamos à nós mesmos em determinadas ideias, nos limitamos, na verdade e diante dessa limitação, não nos possibilitamos a ampliação e o reconhecimento desse “Universo” em sabedoria que é, em todos nós. Há muitos enganos ainda em nós, nos norteamos demais pelo aparente e externo e nisso, acabamos cegos. Enfim, vou parar por aqui, pois, há certas experiências que são únicas mesmo e é preciso viver para saber, é preciso experienciar, sem dúvida. Mas antes, gostaria de encerrar dizendo sobre nossas experiências, quanto de respeito devemos a elas (qualquer experiência entendida boa ou ruim), pois, elas não vêm, apenas, com esta casca que enxergamos fora, ela vem com todo o resto em sabedoria. Porém, precisamos dos olhos da alma para ver. Que possamos sentir isso, ver isso e nos permitir a nós, muito mais do que pensamos, neste agora, ser. E lembremos, o pouco, às vezes é imenso; o simples, às vezes, o mais complexo. Nos permitamos sentir! 
(Kátia de Souza)
05-01-2019

Desilusão

Imagem via Google - desconheço o autor
O artista desiludiu, seu admirador 
na boca pequena das entrelinhas 
lia-se não, não há cor ... 

enquanto passeavam nas matizes das letras 
o arco-íris do céu da sua arte 
e era tão intensa aquela paleta em curvos sentidos 
mas, não era o que dizia a certeza admirada 
era toda dúvida agora, boquiaberta aclarada 
desobedecendo a lei da beleza 
enfeava teus sentidos em cores distorcidas 
embaçando o olhar acolhedor 

Doeu aquela realidade, crueza em arte desbotada 
plano de fundo a tanta cor... 

Onde será mesmo que mora a beleza que se vê? 

Talvez na doída planilha do artista 
que admira a inteireza com espinhos, para ser flor! 

Kátia de Souza 
05-01-2020

Criador ou Criatura

Imagem: Dan Lester

O que nos vale,
a cria que se põe em auto-camaradagem para ser vista,
apreciada em suas investidas
ou aquela que nos beija em silêncio, sobremaneira?

Sem dúvida o espaço por onde se vê, a cria
é onde se põe o criador a criar
e mesmo na própria criatura se sente
ambos, a se expressar ... um amostra o outro... latente
por isso, há que se sair da longínqua ideia de "não ser"
ou de ser apenas um,  sem mais nada, só apartar
para se ver, sendo tudo, em seu devido lugar

Criador e criatura – a cria que se avista ou somente se sente
contidas ali, na fonte que avia, de aviar
essa trama de manifestas personagens em si, sempre inerentes
... teu coração, sim, há de te contar!

(Kátia de Souza)
05-01-2020

sábado, 4 de janeiro de 2020

Onde estamos?


Imagem via Google
É cansaço puro estes tempos modernos, por isso, estou retornando. 

Revoltou-se contra o que se toca, para beijar as faces de vidro; que mesmo prestimosas trazem na tez, o gélido imóvel gesto, imperceptível a tantos corações. Enquanto isso, vamos esquecendo de nós... 
... das roupas que deixamos de vestir e nos caiam tão bem; sim, isso mesmo, as roupas... porque a nudez, é algo que se partilha na intimidade e esta, é certo pra todos. Ela, e sua vergonha por não corresponder ao perfeito status, essa raridade, só pra quem mora por dentro. Mas, em toda casa há espelhos ou ao menos reflexo, mesmo em vidro sujo, está lá toda a disforme nudez se apresentando. Sem falar na sombra atrevida, a nos perseguir por toda parte; torta, nada esbelta, mesmo ao meio do dia onde aparentes projeções se desfazem. Lembremos ainda do incômodo nos olhos, obscurecidos, após um banho de sol bem feito, ao entrar em casa. Sim, todas as vezes, ficamos surpreendidos, com aquele incômodo de não nos deixarem ver, após, tanta claridade. 

É, estamos todos esquecidos do que realmente importa e será que importa? Talvez o montante disso tudo, seja importante; cada movimento, mas o “não saber” é gritante... e nisso, há um risco que não se risca e um medo que deve todo o nosso respeito. 

Esquecemo-nos em coisas preciosas; das velhas avós nos ditando regras do mato, recusando-se às visitas inesperadas com as vassouras atrás da porta e em dia de chuva, vento fresco, lá estava ela com as ervas na mão e a nos ditar o que fazer. Esquecemo-nos de nós, nossas manias ao avesso importunando o marido, o marido emburrando feito criança, o cachorro latindo para os pássaros no céu e a passeata na avenida, o vozerio, o cortejo do último velório, anunciado pelo dobrar dos sinos, dos silêncios aprendidos e nos dizendo quietos, das manhas, todas, mas nossas no outro que amamos e até de nós singularmente falando, deixamos ali ganhando pó, tudo isso; os olhos da mulher que não quer palavras, só ouvidos; sem falar da pele que como flor pede a rega do afago... onde estamos todos nós? 

Na boca do político que esbraveja a sua consciência de “não poder”? Ou talvez seria melhor dizer da inconsciência de “não saber”? Na impertinência de todos nós, espelhada na boca de tantos “nós” que não vemos? Mas, enfim, talvez nada disso importa ou tudo isso, naquilo, é significativo, agregando mais a tantos de nós, desconhecidos.

Kátia de Souza
18/12/2019

Pássaro de asas claras ...

Imagem via Walpaper
Sei da tua presença 
da fala, movimentos, forças inerentes 
e todos os medos 

Sei... 

Me vesti da tua pele, desci as escadas e flagrei teu rosto 
deixei minhas linhas e mãos ao ar entrepostas, ao teu olhar 
e nesse gesto, toda nudez do teu corpo 
e dos olhos, vestidos de véus, transbordaram nuvens líquidas 
embaçando a face e lavando a pele, 
dissolvendo o outro, absorvendo-me, em mim 
o único e consistente sentir ... 

Aportei as mãos e abortei o gesto, 
sorri do perfume exalado dos teus cabelos, 
agora, nítidos, derramados sobre os ombros, 
costas eretas, pés firmes, 
chão aderente concedendo-te as dimensões ... 

Retorno ao chamado logo acima 
e em cada degrau apalpado por olhos, pés e o sentido não visto 
digo-te até logo, no adeus que proferes 
e conforto-te o peito no afago em ti 

apenas, naquilo que lhe é concebível 
que teus olhos vejam e os ouvidos, saibam sentir ... 

Voa pássaro de asas claras, nos veremos por aí! 

(Kátia de Souza) 
30/12/2019