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domingo, 16 de fevereiro de 2020

Mistério revelado

imagem, créditos na mesma

          É tão estranha a consumação dos dias, consumação no sentido de se ver; ver com os olhos da alma, ver com os sentidos a frente sem os conceitos que nos definem e definimos tudo; sim, não é possível nos desvencilharmos deles todos e quando assim pensamos, estamos a mercê dos mesmos. Contudo, é ver, ver com a largura do corpo ou mais, ter-se em si olhos tão grandes que ultrapasse os limites do real e concreto estado de ser humano coerente e chegue a loucura daqueles ditos doentes. Bem, não é adoecer no sentido da cabeça que nos ensinaram por aí, mas é conceder esse olhar agigantado até mesmo para o que se entende sobre loucura. Já tentou ir além da doença que te ensinaram evitar? E aqui não tem como não se lembrar de minha mãe dizendo: “Coisas de Deus não se questiona.”

          Em sua sabedoria rasa, minha mãe sabia das coisas e somente conseguia trazer aquilo que lhe era pertinente e coerente, sem dar vazão as vozes loucas que nos invadem. Então, ela dizia isso sempre: “Não se questiona as coisas de Deus.” Mas, era algo inevitável, pois, do ventre dessa terra já nascia os rebentos que quebrariam todas as barreiras desta sábia incoerência, para retornarmos ao já sabido, mas era preciso o trajeto e então, como não questionar o maior de todos os mistério à uma menina de nove anos?

          Era imprecisa a loucura naquela época, mas adoeceu de jeito os cabelos e as ideias da menina saltitante entre patins, bicicleta e corda e em tudo que pousava seus olhos, lá estava ela, dizendo: “Deus, você está aí?” Calava-se... silêncios infindáveis a tomavam pra si...  e nada ouvia porque em si já tinha encrustado a fala materna, então, como pecar perante o amor mais amor que ela conhecia? Mas, desobedecia em partes porque era de sua natureza e cumpria com seu destino; nada de especial, pois, sempre presenciou outros tantos olhares, entre uma rua e outra, de certas crianças; olhares longínquos e corpos agitados, perscrutando vielas, recantos e como uma sonda espacial, vigiava todos os passos do universo para saber daquele mistério dos mistérios.

          E foi assim que nos limites da sanidade e o que lhe diziam ser loucura, todas as vestes ou roupas concedidas a mesma, foram sendo tiradas, uma a uma, até que nua, sem saber-se mais por onde resguardar-se, presenteou-se com respostas recolhidas entre tantos jardins e seus detalhes. Jardins estes, vistos nítida e claramente, naqueles olhares todos e estes, por sua vez, viram também os seus olhos e neles, sorriam risadas altas e intermináveis, confirmando uma procura que se encontrava ali, naquele reencontro. 

          Transpor os limiares da loucura, não é algo muito tranquilo num mundo muito normal, pois, tudo o que é a partir desse rótulo já lhe concedido há tempos, nada lhe gera credibilidade ou elos/vínculos muitos seguros, sempre são frágeis, sempre; como a certeza materna pronunciada há tanto tempo, mas nunca, nunca mesmo são irreais, possuem todas,  uma verdade datada e caracterizada pela soma de certos fatores invisíveis aos olhos comuns.  Porém, para sabermos das verdades, eis que temos que ultrapassar os limites das mesmas e invadir as insanas mentiras que contamos a nós todos e até certo ponto, contar a nós mesmos que estas, são verdades. E  passando esse impasse, certamente ciente de que na verdade, a verdade é indiferente a tudo isso, certamente, encontrar-se-á todos os jardins, todos os olhares – o seu olhando para eles e eles olhando para você. É, é louco mesmo, mas é tão bom enlouquecer assim, porque nisto, percebe-se a verdadeira estada no mundo e um mistério além de todas as certezas a ser respeitado e compreendido, através, de uma voz companheira que sussurrada, lhe acompanha uma vida toda. Sempre, sempre esteve ali. E era esta a voz que calava diante do insondável mistério, revelando-se em meio a todo aquele silêncio.

          Consumar seus dias além das certezas, nem sempre é confortável, mas é justamente, junto a todos os olhares que você entende o porquê e então, acolhido em si tudo isso, nada mais em falta lhe incomoda e tudo lhe é passível de ser vivido. Sim, até mesmo a loucura dita e consumada/vivida por alguns é tão, tão compreensível. Nada é para sempre e tudo é ao mesmo tempo eterno, esse “tudo” que não cabe numa só razão para expressar-se em meras explicações e apenas nos cabe recolher entre os olhares, jardins da vida espalhados por aí. E não se preocupe, reconhecerá sempre, os mesmos, eles vagam sempre como os seus, pois, não vivem pousados apenas, eles voam. Sim, eles voam!

(Kátia de Souza em Ensaios de um Novo Tempo)
(16-02-2020)


domingo, 9 de fevereiro de 2020

Caminhos (Ensaios de um Novo Tempo)

desconheço a autoria da imagem
          É interessante o quanto cabe de nós quando há espaço. Mas, fico me perguntando se estes espaços todos, não são, em muitos momentos, fita isolante. Sim, pois a corrente não passa, após adesão consentida. Aderir-se aos espaços que nos são concedidos, deixando-nos claros, feito luminária incandescente, é como abrir as portas de um templo, daqueles bem antigos, conhecem? Sim, como é bom ter olhos claros na incandescência da noite; propagam-se as luzes e as sombras e todo o resto de nós. É um mar de quinquilharias aquilo tudo e no meio do tintilar das peças, diante do toque, preciosas raridades. E no chão, a cada passo... o ranger do assoalho, nem sempre ajustado a segura crença de que estamos firmes, mas estamos lá, feito crianças que nem sabe direito como funciona aquilo tudo e desmonta o brinquedo e mesmo sem saber, diverte-se em cada manejo dos dedos a reinventar–se. E enquanto isso, nos bastidores dos espaços nossos, ouve-se rumores, vozes distantes, lembrando-nos que sempre podemos voltar, deixar que a corrente passe e a energia volte. Enquanto lá dentro, magnetizados às formas e cenários, sem precisão alguma, vamos deixando que as paredes se desfaçam e as rotas se confundam, é dessa forma que retornamos; atravessando a fita isolante e permitindo ativa condução de novos caminhos. E como se o quebra-cabeça faltasse uma peça, permanecemos ali, não mais cativos de nós, mas estranhos tão comuns em meio a tantos iguais. É, é muito espaço a caminhar por aí e cabe, cabe muito, muito mais. Ir e vir, é o movimento que também nos cabe, através, daquele par de asas que a nós todos, é inerente. 


(Kátia de Souza em ®Ensaios de um Novo Tempo)
09-02-2020

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Sombra ... (Ensaios de um Novo Tempo)

Imagem via Pinterest (desconheço a autoria)
          Quando não tememos a nossa própria escuridão ou pelo menos começamos admitindo-a em nós, podemos, encarar o mundo com mais coragem. Afinal, sei dos ideais, agora, sei da efemeridade das palavras e comportamentos, e nisto, estou ali, mesmo que calada ou apenas observando, mas estou, nenhuma grade é corrente, estou livre em mim... aclarada, lúcida, sendo quem sou... 

          Mesmo que todas as palavras me falte, mesmo que não tenha rosto, corpo, marca alguma que me denuncie a existência, mesmo que tudo desapareça e somente meus olhos, além de qualquer outra perspectiva, se estes veem, então eu vivo e estou ali, sendo... e isso, ninguém, ninguém há de ser... somente eu posso ser o que sou...

          Quando negligenciamos a nós mesmos, isto cega, e nos põe no pódio mais baixo da vida e nos faz sentir como se jamais fôssemos qualquer coisa, tudo é efêmero, perde o gosto, em algum momento... nada satisfaz, e ser este humano íntegro, completo toma uma distância inconcebível e somente aos outros, é concedido tal direito, assim pensa a cegueira; isto e muito mais que não cabe em palavra alguma ou que eu possa descrever... estive cega de mim, mas pude, em tempo acordar, por isso sei ...

          Ser-se, requer coragem de saber-se e saber-se, requer coragem de abrir mão daquilo que não te pertence e te convenceram que é seu, e só nisto te pensas humano, grande, forte, vivo e existindo... sem isso, o que és, realmente? Nada te preenche, o silêncio e o vazio te toma e encolhido fica em meio a escura percepção que te enlaça e ao mesmo tempo te chama, mas não te reconheces ali, não é mesmo? Pois, tens que brilhar e ser o que te disseram para ser. Sinto, pelos teus olhos, mas meus pés e mãos possuem ardor, fogo que queima e chama por vida, então, já fui, mas nunca me despedi tão claramente, por isso, se puder acorde, porque já não estou mais, minha voz, é para os meus próprios ouvidos em pretensa expressão de um Amor, inconcebível!

(Kátia de Souza em Ensaios de um Novo Tempo)
08/02/2020

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Naquele lugar ...

Créditos da imagem, na mesma
Há um “descontexto” naquele lugar; tudo se desloca tão preciso e organizadamente, calculável; dito como vozes que sabem lá vem ele (aquele lugar) novamente, a ditar seus caminhos. E no vácuo que se sente além nas palavras, interroga-se: “ - onde estou, pra onde vou e o que é este lugar?” 

Silêncio .... Vazio.... Oco momento, tão próprio, tão lindo a nos dizer... 

Mas, onde estão os ouvidos, para onde foi o vaso que sustenta as colocações benditas daquela língua? Foi-se, não há escuta, é só palavrório e falácia incontida. É bem assim, tudo a se entender sem saber-se nada, e nisto, a rígida proporção de todo conhecer, sem vida!

(Kátia de Souza)
03-02-2020

Obra caleidoscópica (Ensaios de um Novo Tempo por Kátia de Souza)

Imagem de Mariola Glajcar
            Quanto mais me espanto com os descobrimentos, mais nua fico diante da obra caleidoscópica que se converge, diverge e se agiganta para todas as direções. Não é coisa de sã consciência tudo isso; é mágica encontrada em pura sensação de arte que se entorta toda para sair das longínquas estações onde se encontra; deforma-se em tantas coisas, mas se apresenta de acordo com sua ponte animada e na voz do autor. Diga-se de passagem, Criador. E não tem jeito, destapou-se a laje do porão, lá vem ela desinibida sem medida ou proporção; deságua leitosa, abundante e vaza a quem quiser sua grata presença. E antes de se destampar qualquer coisa ali, pode-se sentir as batidas na porta e cabe-nos sim, a decisão de abrir ou não. Contudo, sou das loucuras humanas, decidida e inacabada, permito e sempre destampo, abro onde ouço a sua canção. E depois de aberta, não há medida que lhe contenha, ganha vida além das estradas, contextos ou direções. Tudo é somente ela, somente seu existir, importa. Então, cabe-nos apenas sorver suas cores e deixar que o mundo se perfume de seus odores. Não, não tenho mais pudor diante dela, somente ele(o pudor) vem quando encobre-se novamente sua saída, mas tudo bem, são compostos necessários para o alimento de toda a substância que nua e desavergonhada, ela, se sobrepõe a qualquer entendimento. 

(Kátia de Souza em esboços para "Ensaios de um Novo Tempo")
03-02-2020

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Ensaios de um novo tempo (2)

Imagem de LIBRA SOF

          Faz tempo que deixei de frequentar, trafegar ou ir a certos nichos e estar em contato com certas normalidades; foi uma necessidade de ilha, mesmo. E não importa, agora, o que tudo isso quis ou quer dizer.

          Ficar ali, rodeada pelas águas e sem binóculo, foi estranho no começo. Mas, de areia, folhas e galhos cobriram-se meus pés e então, me agradei de todas aquelas texturas e explorei cada sentido afiando o ouvido em especial, pois, demorou, até que o mesmo, ficasse mudo. Sim, eram muitas as bocas ao pé do ouvido. Calar uma a uma, demorou-se quase uma volta inteira contemplando o oceano - sua vontade de mar, seu ar de sal e suas espumas de estrelas. Mas, antes de completar a volta, deitei-me ao chão e coberta de pássaros em noite de estrelas, lua imensa e riscos cadentes no céu, me chamou a visão.

          Já viram o silêncio? Pois é, não é corpo morto, vazio pendurado numa esquina qualquer. É parque de infantes dançantes que beira a loucura para quem vê, é adulteza imprevista saída do forno sem forma espalhando-se entre todos os corpos celestes e claro, é também anciã dos tempos sem volta a ditar suas rezas e unguentos entre a magia dos cânticos.

          E foi assim em meio ao silêncio, adormecendo instantes que esqueci e retornei para o templo em ruínas; esquecido entre palmeiras, musgos e criaturas piedosas que se alojaram em certos recantos decretando, ali, seu lar. É bom ter, povoado esses espaços; a vida por si, toma conta de tudo que é sagrado.

          Não, não as expulsei, já são partes vivas daquilo tudo, apenas ergui pedra a pedra, as que pude, junto aos escombros; deixei sempre por perto, o cálice cheio, afinal, sede é coisa sem aviso; reorganizei as folhas, frutos caídos e certas coisas tão próprias daquele lugar e naquele momento. É bom não esquecer que sempre, sempre haverá vento e nisso, você, ali, a rever cada espaço se refazendo e redescoberto.

          Ah esquecimentos é coisa boa porque nos faz lembrar!

          E agora, parto por aí novamente, às normais aventuras para colher objetos, coisa pouca que adorne e marque os trajetos. Pois é, mas não, não vi coisa alguma a datar de um tempo novo e no aguardo, por enquanto... no barco, em cada onda e em mãos, lente que alcança visões externas;  fico ali,  a marear sorrindo com cada palavra, gesto e pensamento, tão inteiramente igual ao de antes da necessidade de ilha.

          Se me entristeço diante da falta de estreia? Não, de jeito nenhum! Sorrio por saber que os caminhos são tão previsíveis, isso nos dá uma estranha sensação de um poder guardado em algum lugar, feito tesouro escondido e marcado com um “X”, no mapa desenhado por nossas próprias mãos. 

(Kátia de Souza em ®Ensaios de um novo tempo)
28-01-2020

Ensaios de um novo tempo (1)

Imagem de Kátia de Souza
           Entre céus, terras (raízes nossas), o farfalhar de asas de uma borboleta; conhecedora de mil caminhos, alma indelével, cumpria seu percurso e natureza, planando por entre as golfadas de vento e carícias de caules e folhas. 

           Ouvia-se distante, tudo aquilo, no jardim – eram pousos entre flores, pétala a pétala... volitava, ela e seu perfume em cor e brilho, e a cada voo, as lonjuras ou proximidades, eram o menor dos seus problemas. Afinal, no ar, captam-se “imagens-formas”, expressões palpáveis da sua etérea presença. E sob o olhar atento (desses que se abrem para dentro e nesse íntimo abraça todo o resto) a atrair-lhe, como num chamado, a Musa, entoando seu canto em versos – partes tuas a florir cada alçar e pouso, daquela que seria sua mensageira ou ela, sua fantasia mais inebriante. Tudo isso para falar de um tempo e um lugar inexistente, mas tão real quanto às efemeridades dos pensamentos.

           E foi assim que nasceu, “Ensaios de um Novo Tempo”.

(Kátia de Souza em esboços de "Ensaios de um Novo Tempo") 
28-01-2020

domingo, 26 de janeiro de 2020

Pelo gosto da experiência

Imagem via Google
Pelo gosto da experiência 

Não queira ler o "gosto da experiência"... para sabê-la, sinta, com cada personagem em si aquietado e não busque coerências na veia dos teus pensamentos, pois, eles são linhas que enredam teu saber. Caminhe devagar e sorva cada gota, dessa nossa vivência!
............

Estamos em nós 
e o que é “estar”, sequer nasceu, só há “nós”, 
sem pronome algum, só “é”... 

Eis que surge, do nada, uma chispa inconveniente acendendo os olhos para os lados: direita e esquerda. E lá estão os dois, nascidos do um, em lados que se completam, na oposição que veio depois. E agora sim, estão; 

nasce o espaço porque é preciso caber na divisão, as partes; 
e aquilo que sem divisas é, permanece em silêncio, e como semente sopra apenas seus brotos. 

Vê-se mãos, braços, tronco, pernas e movimentos; 
o deslocar do vento, agora fora, a tocar a pele – brinca a criação com suas partes 
reconhece os espaços: dentro, fora, aqui e acolá; 

lá adiante e tão próximo – cumprimenta as distâncias, colaboradoras fiéis e condição dessa dança que necessita da forma, das sensações, dos movimentos em lugares e por tempo, agora, marcado em antes e depois. 

Inconveniências do ser, são sementes fecundantes que promove o gérmen do nascer e então, se rompe a casca e dela outro ser. E, a saber, eis aí todas as inconveniências risonhas a se chocarem uma a outra; 

Ser a ser se olham, se reconhecem tão iguais, se não fosse a voz, a palavra que corta as igualdades, nascidas daquele latente e misterioso espaço, não visto, compondo todas as lateralidades; duais conceitos em “formas-reflexos”, aos seres agora, distribuídos, para que nesse duo, formem toda a coreografia inovadora e estreia em novo mundo, nascido sob cada par de pés. 

Eis as crias da Criação, e esta por sua vez, permanece semente, silenciada soprando seus brotos e galhos ao vento. 

Todo movimento é dança, mesmo sem compasso ou sincronia, pois, a música é única em cada par de orelhas e por dentro, no ouvido, assume seu próprio ritmo. Como não saber disso? E não sabem, pois, na língua ainda há o gosto das semelhanças lembrando-lhes a igualdade e o mar sem divisa. 

Conta-lhes a pele tênue, sobre o sabor da saudade entregue em nostalgias; 

Um fechar de olhos e os polos desaparecem e também, todo o resto – aquieta-se a música, os gestos, os lugares e já não são mais, as partes, distantes. Eis o caminho de volta e o nascer, parido na escuridão, o desejo de retorno; tudo é ainda tão rígido e pesado, mas belo em ação e arte. 

Bendito seja o seu autor! Eis a palavra ou o verso que despedaça as partes, as moem em ínfimas criaturas; poeira invisível sendo absorvidas, atraídas agora, em asas leves; voláteis criaturas, todas elas desde os lugares, espaços, tempos, corpos e movimentos e até mesmo, os espaços não vistos e latentes dos seres, no silêncio aquietado... 

Lá se vão eles seguindo o que permaneceu silente, todo o tempo - se ali, este, existisse... 

desde o princípio era só quietude e como semente, soprava seus brotos, galhos, flores e frutos; agora, todos eles, em seus leitos, não mais repartidos, sucumbem ao que jamais era previsto. Perdidos nos vãos de si mesmos acham-se encontrados de toda espécie de letra que mata a vida em pura essência e apenas se confirma, tanto e após, o velho e perfeito gosto, da experiência.
 (Kátia de Souza em 26-01-2020)

sábado, 4 de janeiro de 2020

Onde estamos?


Imagem via Google
É cansaço puro estes tempos modernos, por isso, estou retornando. 

Revoltou-se contra o que se toca, para beijar as faces de vidro; que mesmo prestimosas trazem na tez, o gélido imóvel gesto, imperceptível a tantos corações. Enquanto isso, vamos esquecendo de nós... 
... das roupas que deixamos de vestir e nos caiam tão bem; sim, isso mesmo, as roupas... porque a nudez, é algo que se partilha na intimidade e esta, é certo pra todos. Ela, e sua vergonha por não corresponder ao perfeito status, essa raridade, só pra quem mora por dentro. Mas, em toda casa há espelhos ou ao menos reflexo, mesmo em vidro sujo, está lá toda a disforme nudez se apresentando. Sem falar na sombra atrevida, a nos perseguir por toda parte; torta, nada esbelta, mesmo ao meio do dia onde aparentes projeções se desfazem. Lembremos ainda do incômodo nos olhos, obscurecidos, após um banho de sol bem feito, ao entrar em casa. Sim, todas as vezes, ficamos surpreendidos, com aquele incômodo de não nos deixarem ver, após, tanta claridade. 

É, estamos todos esquecidos do que realmente importa e será que importa? Talvez o montante disso tudo, seja importante; cada movimento, mas o “não saber” é gritante... e nisso, há um risco que não se risca e um medo que deve todo o nosso respeito. 

Esquecemo-nos em coisas preciosas; das velhas avós nos ditando regras do mato, recusando-se às visitas inesperadas com as vassouras atrás da porta e em dia de chuva, vento fresco, lá estava ela com as ervas na mão e a nos ditar o que fazer. Esquecemo-nos de nós, nossas manias ao avesso importunando o marido, o marido emburrando feito criança, o cachorro latindo para os pássaros no céu e a passeata na avenida, o vozerio, o cortejo do último velório, anunciado pelo dobrar dos sinos, dos silêncios aprendidos e nos dizendo quietos, das manhas, todas, mas nossas no outro que amamos e até de nós singularmente falando, deixamos ali ganhando pó, tudo isso; os olhos da mulher que não quer palavras, só ouvidos; sem falar da pele que como flor pede a rega do afago... onde estamos todos nós? 

Na boca do político que esbraveja a sua consciência de “não poder”? Ou talvez seria melhor dizer da inconsciência de “não saber”? Na impertinência de todos nós, espelhada na boca de tantos “nós” que não vemos? Mas, enfim, talvez nada disso importa ou tudo isso, naquilo, é significativo, agregando mais a tantos de nós, desconhecidos.

Kátia de Souza
18/12/2019

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Crônica por Rubem Alves

"A vida é como a vela: para iluminar é preciso queimar. A vela que ilumina é uma vela alegre. A luz é alegre. Mas a vela que ilumina é uma vela que morre. É preciso morrer para iluminar. Há uma tristeza na luz da vela. Razão porque ela, a vela, ao iluminar, chora. Chora lágrimas quentes que escorrem da sua chama. Há velas felizes cuja chama só se apaga quando toda a cera foi derretida. Mas há velas cuja chama é subitamente apagada por um golpe de vento… " (Rubem Alves em "Quarto de Badulaques" - A vela)
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O Natal está chegando. Fico com medo. Medo da loucura.

Natal é o tempo em que as pessoas ficam perturbadas. Cantam Noite de Paz. Mas seus corpos e almas estão em guerra, possuídos pela agitação e pela pressa. Quando o Deus-Menino nasce, o Diabo se põe a correr.

Valho-me das minhas velas para exorcizar a loucura. Por um ano inteiro eu as deixei esquecidas no escuro de um armário. Um sopro meu as fizera adormecer. E assim ficaram, como a Bela Adormecida, à espera da chama que as faria acordar. Parecem mortas. Mas sei que o toque do fogo as fará viver de novo. Aguardam a ressurreição. Como são humanas! Parecem-se conosco. Também os nossos corpos endurecidos podem arder de novo. Para isto basta que sejam tocados pela magia do fogo!

Preciso delas, das minhas velas. Suas chamas fiéis me tranqüilizam.

“Quer ficar calmo?”, perguntava o velho Bachelard. “Respira suavemente diante da chama leve que faz sossegadamente seu trabalho de luz.”

Tão diferentes das lâmpadas! Seria possível, por acaso, amar uma lâmpada? Que emoções mansas podem nascer de sua luz forte e indiferente? Quem as chamaria de minha lâmpada? Todas as lâmpadas são iguais. Ao morrerem queimadas nenhuma tristeza provocam. Só o incômodo de terem de ser trocadas por outras. 

As velas são diferentes. Choram enquanto iluminam. Suas lágrimas nascidas do fogo transbordam e escorrem pelo seu corpo. Choram por saber que para brilhar é preciso morrer. 

Não é possível contemplar uma vela no seu trabalho de luz sem sentir um pouco de tristeza. Sua chama modesta, modulada por indecisões e tremores, faz-me voltar sobre mim mesmo. Também sou assim. Minha chama vacila ao ser tocada pelo vento. Por isto posso chamá-la de minha vela. Somos feitos de uma mesma substância. Temos um destino comum.

As velas contam estórias diferentes. Cada uma tem um nome que é só seu. Uma delas, eu a coloquei no gargalo de uma garrafa de vinho vazia. Suas lágrimas coloridas escorreram pelo vidro e se endureceram. Não há lenço que as enxugue. Ficaram ali como lembranças de momentos passados que aconteceram à sua luz e à sua intimidade. Presenças de uma ausência, um tempo perdido cristalizado… Meu olhar atento passeia sobre as suas rugas. Noto que há cores diferentes. Aquela garrafa vazia já segurou muitas velas que se foram. Há lágrimas verdes, vermelhas e amarelas que se misturam e se recobrem num mesmo tecido de cera. Gerações que se consumiram no mesmo destino de brilhar mansamente. Procuro a vela que deveria estar ali para ser acordada. Percebo que ela não mais existe. Foi se consumindo, consumindo, até que seu último pedaço se derreteu. Não derramou nenhuma lágrima. Simplesmente caiu dentro da garrafa e desapareceu. Percebo o formato feminino da garrafa: é um útero, com sua abertura vaginal apontando o alto, como torre de uma catedral.

Pensei que talvez a vela me estivesse dizendo que morrer é como um nascer às avessas: voltar ao ventre materno. Fiquei comovido, porque, de fato, uma luz que luzia em momentos passados deixou de luzir. Mergulhou no vazio. Aquela vela não mais se acenderá. Resta apenas a memória dos seus momentos de luz. Penso no que deverei fazer. Deixarei a garrafa assim como está, com suas lágrimas coloridas, e o vazio? Ou colocarei ali uma outra vela? Não. A beleza daquela garrafa se deve justamente ao testemunho das sucessivas gerações que deixaram suas vidas gravadas no vidro. É preciso que a chama continue a brilhar. Quando uma vela se acaba outra deve tomar o seu lugar. 

Outra vela tem vergonha de chorar. Escondeu-se dentro de um copo metálico que não deixa transbordar as suas lágrimas. Chora silenciosamente, sem alarde. Impedidas de transbordar, as lágrimas se transformam num lago interior plano e luminoso de cera derretida, onde a chama se reflete. O choro tem este poder:pode tornar a luz ainda mais luminosa. A vela se recusa a abrir mão da sua dor: guarda as suas lágrimas, mantém-nas presas ao seu corpo, abraça-as, reconhece-as como parte de si mesma. Assim fazem os poetas… Sua luz é modesta: escondida pelo metal, furta-se ao olhar. Mas a sua carne de cera está cheia de um delicioso perfume de canela. Quando ela chora, o ar se enche de beleza. Penso que esta vela, talvez, tenha sido feita para os que não podem ver. Sua luz perfumada tranqüiliza até mesmo aqueles que têm os seus olhos fechados.

Tomo nas mãos uma outra vela. É quase tão grossa como uma garrafa. Em sua cera ocre um artista gravou, em alto relevo, folhas e flores. Mesmo apagada ela é bela. Mãos sensíveis que a toquem podem sentir os seus desenhos. A chama fraca foi derretendo o seu corpo, bebendo a sua carne. A chama brilha de dentro do vazio que o fogo abriu. A pele esculpida, longe demais do calor, sobreviveu intacta. Contemplada de longe, dá uma impressão de solidez e permanência. Mas basta que se acenda a chama para que se perceba a sua fragilidade. De tão gasta pelo fogo, a sua pele ficou translúcida e a luz se filtra através de sua carne efêmera. Que magnífica lição para os velhos:somente os corpos gastos pelo fogo do amor podem se tornar transparentes.

O amor prefere a luz das velas. Talvez porque seja isto tudo o que desejamos de uma pessoa amada: que ela seja uma luz suave que nos ajude a suportar o terror da noite. Sob a luz do amor que ilumina modesta e pacientemente, o escuro já não assusta tanto. É noite de paz!

Não deixe que as suas velas se apaguem! A escuridão é solitária e triste! Vamos! Toque-as novamente com a chama do amor! 

Rubem Alves
Texto acima extraído do livro ” As melhores Crônicas de Rubem Alves”
 

sábado, 9 de novembro de 2019

Estranhamente humano

desconheço o autor da imagem
O abandono das coisas conhecidas é algo tão, estranhamente humano e ao mesmo tempo tão irreal que prefere-se muito, outros e mais outros conflitos, lutas sem fim do quê o absurdo silêncio do fim de tudo. Aquele silêncio insosso do nada, a serenidade apaziguada da felicidade em nada ter com quê se "pré-ocupar." E a estes muros há que se ultrapassar? Só quem sabe é quem viu além das pedras ou através das rachaduras. Eu mesma, não sei. Só sei que estou aqui e ali, sussurrando entre as paredes do quarto, toda essa humanidade ou loucuras de algumas letras que sem justificativa alguma, resolveram pousar para se verem livres de tanta confusão. É como diria Clarice Lispector: "Às vezes começa-se a brincar de pensar, e eis que inesperadamente o brinquedo é que começa a brincar conosco. Não é bom. É apenas frutífero."
(Kátia de Souza)
09-11-2019