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Quando se busca a si mesmo...
Na verdade não sinto que buscamos nada, mas, é algo natural em nós, vamos nos conduzindo, inevitavelmente a isso. A vida nos conduz ao ser que realmente somos, assim sinto.
Antes de nos colocar ao mundo como somos, há uma indiscriminação com o mesmo, estamos misturados nele, sem saber efetivamente quem somos; misturados com as coisas e as pessoas, as circunstâncias e os eventos em nossas vidas. Mas, a vida vai nos impulsionando para a discriminação de nosso ser, para aquilo que realmente, somos. Precisamos, inicialmente, nos ver indiscriminados para então, nos discriminar e assim, nos colocar no mundo como seres íntegros, inteiros e ver, nos relacionar com esse todo, realmente que é o mundo. Buscamos uma vida mais plena e somente através da consciência sobre tudo isso em nós, iniciando pela consciência dessa indiscriminação, é que isso se fará.
Nessa discriminação do todo(ser o que se é), inclui-se observar e perceber quando não, se debater, antes de tudo, com a indiferenciação. Não apenas a sua própria indiferenciação (reconhecendo-a, tomando consciência disso), sua mistura com as coisas e as pessoas, o mundo, não. É também o debater-se com o que é indiferenciado fora, externo a nós e nisso, inclui nossas relações, não há como ser de outra forma. Às vezes, para sabermos mais e melhor sobre nós mesmos, precisamos desses espelhos.
Na diferenciação ou discriminação, nós vamos descolando da tela, vamos sendo arrancados da pele desse corpo amorfo que é, às vezes, o mundo para nos sentirmos mais nós mesmos ou nos sentirmos de forma mais verdadeira. E isso, gera sem dúvida conflitos, debate e incompreensões dentro de nós e ao nosso redor - espelhamos o que nos é por dentro. E por isso, pode acontecer os olhares estranhos, em relação a nós. Sim, exatamente isso - assim como nos estranhamos por dentro, nos estranham por fora - então teremos a nós olhares desconfiados, como se estivéssemos sendo arrogantes, pretensiosos ou totalmente insanos, em alguns momentos. E acredito que passamos por estas situações sim; somos em muitos momentos arrogantes, pretensiosos e até insanos, se isso existe. Mas, chega um momento, que não é mais assim, já é algo distanciado, diferente, desgrudado, não é mais o que era. Nós começamos a ver tudo isso, mas isso já não tem tanto sentido ou faz diferença porque passamos a entender e compreender o porquê disso e quem assim pensa; sabemos que eles possuem seus motivos em pensarem assim. É assim que os olhares mudam e muitos passam a não mais nos ver, nos tornamos invisíveis a estes – amigos se afastam, relações se partem, você passa a não existir para eles e eles começam a ir embora para você e muitos, você já não vê, não enxerga também – talvez seja isso que chamam de “estar em outra frequência”. Outros olhares ainda nos enxergam mas, nos veem como distantes, egoístas e individualista, estes, são aqueles que de alguma forma estavam meio grudados(indiscriminados conosco), pele a pele, e na discriminação, pronto, dói de todos os lados e em todos os envolvidos, inclusive em nós também. É preciso esse movimento todo, até porque estamos nos tornando mais verdadeiros e se houver qualquer aproximação novamente, destes que se foram, assim virão ou nós iremos até eles, mas a partir da discriminação com o todo, será espelhado com a verdade que resgatamos em nós, os seres reais que somos, portanto, relações também, mais verdadeiras e reais.
Quem se discrimina diz e sabe, claramente, o que quer, como quer por todos os poros, transborda de si aquilo que é, é natural. E no processo, conforme isso vai ficando claro, já vamos nos apropriando do nosso “querer” e isso já começa a fazer a diferença para nós e para todos ao nosso redor. Agora, aquele que ainda é indiscriminado no mundo, não sabe o que quer, não sabe discriminar, mistura os seus desejos e os desejos do mundo; não é que não queiramos saber, quando estamos inconscientes e/ou indiscriminados, mas não sabemos porque está realmente, misturado e pensa-se desejar algo que não é verdadeiramente, o que se deseja. É meio confuso mesmo, por isso, viver é algo que nos é inevitável, a vida vai nos levar a este ponto e quando chegarmos lá, saberemos percebendo tudo.
Na indiscriminação, não se sabe o que se quer, apenas repete o que o mundo diz querer e por isso, não sabe se expressar claramente, não manifesta claramente; o querer, fica omitido, em meio a esta confusão toda da indiscriminação. E quando se descobre o que realmente quer, pronto, já não sabe mais se sempre quis ou se apareceu naquele momento. Nada é claro, tudo é confuso, nada é muito seguro, tudo é inseguro e fragmentado. E para conter toda essa insegurança, é comum nos casos de indiscriminação(inconsciência) usarmos dos recursos que possuímos, e o que se possui, ainda é imaturo (egoico) e nisso, agimos manipulando a situação, para sempre justificar aquilo que pensamos querer ou se descobriu querer. Tudo fica fragmentado, partido, dividido, nada é inteiro, tudo é polarizado e nada muito claro, tudo é confuso e a vida perde o sentido em muitos momentos, podendo nos levar a depressão – contudo isso, não é muito consciente também, por isso, se mantém essa postura. O mundo e nós, viramos um só, no sentido de mistura indiscriminada, não há identidade própria, não se sabe existindo ou sendo e nisso, se perde a si e esse todo (mundo) porque não se reconhece a si e assim, não se reconhece o todo(mundo) – está tudo junto; aquilo que se quer ou pensa ser o melhor para si, também tem que ser o que o mundo quer e o melhor para o mundo; não há diferenciação, como a mãe e o bebê. E ainda há níveis de consciência a se considerar, alguns mais outros menos misturados, mas assim é.
Aquele que disso se desloca, se discrimina, certamente, será visto com olhares estranhos e se distanciará e muito desse mundo que estava grudado e indiscriminado, inicialmente. E poderá ser tido e até sentir-se individualista e egoísta, até que se conclua o curso, levando-o a si mesmo. E após, isso, perceber-se nesse todo, mas agora, inteiro. Sabe-se agora inteiro e, portanto, sabe quem é quem e que nem sempre aquilo que sente e vê é o mesmo que o outro sente e vê. Agora é possível relacionar-se e ao mesmo tempo ver as semelhanças, as diferenças e lidar com as mesmas de forma inteira e mais clara. Agora existe realmente o todo porque primeiramente, o todo se fez dentro e nisso, se espelha fora.
É difícil falar de algo onde nos encontramos em processo, mas é bom falar de algo que se vive, portanto, que possamos nos entregar sim, mais e mais a nós mesmos, e custe o que custar. Só assim se poderá harmonizar-se com esse mundo de forma mais legítima e se tivermos que desarmonizar também, nos desarmonizaremos, sem dúvida, mas será de forma muito mais consciente e também legítima. Enfim, acho que é mais ou menos isso. Reflitamos e sintamos o quanto de nós é, nesse agora, realmente verdadeiro.
Kátia de Souza
24-02-2020
