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sábado, 29 de fevereiro de 2020

Minhas asas, teus sopros

Fotografia da arte em 3D do designer de interiores Чехов Евгений
"Fio de Ariadne" - via site 3D Lancer 
por fidelidade e lucidez
desata-se os liames dos atrativos
e abandona-se os palcos a serem invadidos
não sois dada a conivências confessas
e solta-se mesmo, é nas pautas em esboço

aprendiz,

e daqueles que saboreiam o tatear
pouco a pouco 
e o saber no grão, pequenos traços, 

vividos

um legado caminhante
passo a passo, e por isso,
jamais esquecido

na alma tatuado, assinatura única
fio de Ariadne conduzindo a ida
ditando o retorno e o entorno
o que é e há ... no livro da vida

minhas asas, teus sopros!

(Kátia de Souza)
29-02-2020

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

O tamanho certo


Ilustração créditos na imagem
via Pinterest
Talvez tenha levado algum tempo
talvez tenha sido preciso muito abandono e gestos, gritos
todos eles aparentes e treslocados dizendo do seu absurdo
visto sozinho no sozinho que sentiu, abandonado
e quando o silêncio pousou, o gesto calou e os gritos dissolvendo-se
na úmida e quente sensação de descaso
viu-se na desistência uma possibilidade 
de assumir-se e construir o tamanho certo 
e que bem lhe cabe ...

foi nisso que se pousou os braços, 
parou-se no caminho, os pés
e falar, saborear cada palavra em liberdade
desprendendo-se daqueles do contexto e esperado
para assinar o que lhe cabe sem acerto, 
incorreto, vaiado, mas vivido, em si, sentido, 
aceito e aclarado... 

ah! sorriso e alívio em cada poro aclamado!

respirou no ar a delícia de soltar e permitir
não, não mais lutar, somente viver, 
ser sem precisar provar o que é ou sente, 
pois, nada substitui o silêncio que lhe fala alto, 
logo ali em si reconhecido pelo preciso tom da voz
mas a qualquer um... segredado!

(Kátia de Souza)
28-02-2020

Fala-nos do Amor (O profeta - Gibran Khalil Gibran)

          Profeta de Deus em procura do infinito, quantas vezes sondaste as distâncias à espera de teu navio. E agora teu navio chegou, e tu deves partir.

          Profunda é tua nostalgia pela pátria de tuas recordações e a morada de teus maiores desejos; e nosso amor não te quererá prender, nem nossas necessidades te reterão. Uma coisa, porém, pedimos-te: antes de no a deixares, fala-nos e dá-nos algo de tua verdade. E nós a transmitiremos a nossos filhos, e eles a transmitirão aos seus filhos, e ela não perecerá.

          Na tua soledade, vigiaste por nossos dias e, na tua vigília, escutaste os gemidos e os risos de nosso sono. Agora revela-nos a nós próprios, e conta-nos o que te foi revelado, do que existe entre o nascimento e a morte."

          E ele respondeu:

          "Povo de Orphalese, de que poderia falar-vos senão do que está agora se movendo dentro de vossas almas?"

           Então Almitra disse: "Fala-nos do Amor."

           E ele ergueu a fronte e olhou para a multidão; e um silêncio caiu sobre eles, e com uma voz forte, dirigiu-se a eles, dizendo:

           "Quando o amor vos chamar, segui-o.

            Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados; E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe, Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos; E quando ele vos falar, acreditai nele, embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos como o vento devasta o jardim.

           Pois, da mesma forma por que o amor vos coroa, assim ele vos crucifica. E, da mesma forma por que ele contribui para vosso crescimento, ele trabalha para vossa poda. E, da mesma forma por que ele sobe à vossa altura e acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol, assim também ele desce até vossas raízes e as sacode no seu apego à terra.

          Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração. Ele vos debulha para expor a vossa nudez. Ele vos peneira para libertar-vos das palhas. Ele vos mói até a extrema brancura. Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis. Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma no pão místico do banquete divino.

          Todas essas coisas o amor operará em vós, para que conheçais os segredos de vossos corações e, com esse conhecimento, vos convertais no pão místico do banquete divino.

          Todavia, se no vosso temor procurardes somente a paz e o gozo do amor, então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez e abandonásseis a eira do amor, para entrar no mundo sem estações, onde rireis, mas não todos os vossos risos, e chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.

           O amor nada dá senão de si próprio e nada recebe senão de si próprio.O amor não possui e não se deixa possuir. Pois ele basta-se a si mesmo.

           Quando um de vós ama, que não diga: "Deus está no meu coração", mas que diga antes: "Eu estou no coração de Deus".

           E não imagineis que possais dirigir o curso do amor, pois o amor, se vos achar dignos, determinará ele próprio o vosso curso.

           O amor não tem outro desejo, senão o de atingir sua plenitude. Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos, sejam estes vossos desejos: De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho que canta sua melodia para a noite; De conhecerdes a dor de sentir a ternura demasiada; De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor; E de sangrardes de boa vontade e com alegria; De acordardes na aurora com o coração alado e agradecerdes por um novo dia de amor; De descansardes ao meio-dia, e meditardes sobre o êxtase do amor; De voltardes para casa à noite com gratidão; E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado, e nos lábios uma canção de bem-aventurança."(Gibran Khalil Gibran - em "O profeta"

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Agora é a hora

O Relógio Astronômico de Praga
criadores: Mikuláš de Kadaň, Johannes Sindel
Via Wikipédia
Agora é a hora,
já não há mais pano suficiente para se cobrir a pele
a nudez é iminente e a cara lavada não tem mais disfarce
mostrou suas nódoas poeirentas,
empapadas em suor de esforço, jamais necessário
mas, foi ..
Afinal, há hora pra tudo e nesse agora
é ela, a hora de ver e assumir
admitir o inadmissível começo de tudo em nós
vestidos a caráter para todas as convenções
deixando por baixo a pele e suas ranhuras de apertos
e todos os gemidos na garganta agora engolindo a seco
pois, é hora ...chegou,
nem mesmo o barulho dos trincos
nos fará recuar para novamente tapar esses buracos
é, negros...
que apesar de obscuros expulsam constelações
inteiras, mas nunca se soube disso
mas, está lá, no côncavo, o nosso grito
de securas, amarguras e lonjuras por onde andamos
e pé ante pé, agora chegamos ...
estamos aqui, e agora .... bem, agora
é hora de assumir e precisar no marco certo
desse ponteiro que dispara a largada...
é, é hora... e sem mais pretextos!

(Kátia de Souza)
26-02-2020

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Quando se busca a si mesmo...

Imagem via Google
desconheço a autoria
Quando se busca a si mesmo... 

          Na verdade não sinto que buscamos nada, mas, é algo natural em nós, vamos nos conduzindo, inevitavelmente a isso. 
A vida nos conduz ao ser que realmente somos, assim sinto. 

          Antes de nos colocar ao mundo como somos, há uma indiscriminação com o mesmo, estamos misturados nele, sem saber efetivamente quem somos; misturados com as coisas e as pessoas, as circunstâncias e os eventos em nossas vidas. Mas, a vida vai nos impulsionando para a discriminação de nosso ser, para aquilo que realmente, somos. Precisamos, inicialmente, nos ver indiscriminados para então, nos discriminar e assim, nos colocar no mundo como seres íntegros, inteiros e ver, nos relacionar com esse todo, realmente que é o mundo. Buscamos uma vida mais plena e somente através da consciência sobre tudo isso em nós, iniciando pela consciência dessa indiscriminação, é que isso se fará.

          Nessa discriminação do todo(ser o que se é), inclui-se observar e perceber quando não, se debater, antes de tudo, com a indiferenciação. Não apenas a sua própria indiferenciação (reconhecendo-a, tomando consciência disso), sua mistura com as coisas e as pessoas, o mundo, não. É também o debater-se com o que é indiferenciado fora, externo a nós e nisso, inclui nossas relações, não há como ser de outra forma. Às vezes, para sabermos mais e melhor sobre nós mesmos, precisamos desses espelhos.

          Na diferenciação ou discriminação, nós vamos descolando da tela, vamos sendo arrancados da pele desse corpo amorfo que é, às vezes, o mundo para nos sentirmos mais nós mesmos ou nos sentirmos de forma mais verdadeira. E isso, gera sem dúvida conflitos, debate e incompreensões dentro de nós e ao nosso redor - espelhamos o que nos é por dentro. E por isso, pode acontecer os olhares estranhos, em relação a nós. Sim, exatamente isso - assim como nos estranhamos por dentro, nos estranham por fora - então teremos a nós olhares desconfiados, como se estivéssemos sendo arrogantes, pretensiosos ou totalmente insanos, em alguns momentos. E acredito que passamos por estas situações sim; somos em muitos momentos arrogantes, pretensiosos e até insanos, se isso existe. Mas, chega um momento, que não é mais assim, já é algo distanciado, diferente, desgrudado, não é mais o que era. Nós começamos a ver tudo isso, mas isso já não tem tanto sentido ou faz diferença porque passamos a entender e compreender o porquê disso e quem assim pensa; sabemos que eles possuem seus motivos em pensarem assim. É assim que os olhares mudam e muitos passam a não mais nos ver, nos tornamos invisíveis a estes – amigos se afastam, relações se partem, você passa a não existir para eles e eles começam a ir embora para você e muitos, você já não vê, não enxerga também – talvez seja isso que chamam de “estar em outra frequência”. Outros olhares ainda nos enxergam mas, nos veem como distantes, egoístas e individualista, estes, são aqueles que de alguma forma estavam meio grudados(indiscriminados conosco), pele a pele, e na discriminação, pronto, dói de todos os lados e em todos os envolvidos, inclusive em nós também. É preciso esse movimento todo, até porque estamos nos tornando mais verdadeiros e se houver qualquer aproximação novamente, destes que se foram, assim virão ou nós iremos até eles, mas a partir da discriminação com o todo, será espelhado com a verdade que resgatamos em nós, os seres reais que somos, portanto, relações também, mais verdadeiras e reais.

          Quem se discrimina diz e sabe, claramente, o que quer, como quer por todos os poros, transborda de si aquilo que é, é natural. E no processo, conforme isso vai ficando claro, já vamos nos apropriando do nosso “querer” e isso já começa a fazer a diferença para nós e para todos ao nosso redor. Agora, aquele que ainda é indiscriminado no mundo, não sabe o que quer, não sabe discriminar, mistura os seus desejos e os desejos do mundo; não é que não queiramos saber, quando estamos inconscientes e/ou indiscriminados, mas não sabemos porque está realmente, misturado e pensa-se desejar algo que não é verdadeiramente, o que se deseja. É meio confuso mesmo, por isso, viver é algo que nos é inevitável, a vida vai nos levar a este ponto e quando chegarmos lá, saberemos percebendo tudo.

          Na indiscriminação, não se sabe o que se quer, apenas repete o que o mundo diz querer e por isso, não sabe se expressar claramente, não manifesta claramente; o querer, fica omitido, em meio a esta confusão toda da indiscriminação. E quando se descobre o que realmente quer, pronto, já não sabe mais se sempre quis ou se apareceu naquele momento. Nada é claro, tudo é confuso, nada é muito seguro, tudo é inseguro e fragmentado. E para conter toda essa insegurança, é comum nos casos de indiscriminação(inconsciência) usarmos dos recursos que possuímos, e o que se possui, ainda é imaturo (egoico) e nisso, agimos manipulando a situação, para sempre justificar aquilo que pensamos querer ou se descobriu querer. Tudo fica fragmentado, partido, dividido, nada é inteiro, tudo é polarizado e nada muito claro, tudo é confuso e a vida perde o sentido em muitos momentos, podendo nos levar a depressão – contudo isso, não é muito consciente também, por isso, se mantém essa postura. O mundo e nós, viramos um só, no sentido de mistura indiscriminada, não há identidade própria, não se sabe existindo ou sendo e nisso, se perde a si e esse todo (mundo) porque não se reconhece a si e assim, não se reconhece o todo(mundo) – está tudo junto; aquilo que se quer ou pensa ser o melhor para si, também tem que ser o que o mundo quer e o melhor para o mundo; não há diferenciação, como a mãe e o bebê. E ainda há níveis de consciência a se considerar, alguns mais outros menos misturados, mas assim é.

          Aquele que disso se desloca, se discrimina, certamente, será visto com olhares estranhos e se distanciará e muito desse mundo que estava grudado e indiscriminado, inicialmente. E poderá ser tido e até sentir-se individualista e egoísta, até que se conclua o curso, levando-o a si mesmo. E após, isso, perceber-se nesse todo, mas agora, inteiro. Sabe-se agora inteiro e, portanto, sabe quem é quem e que nem sempre aquilo que sente e vê é o mesmo que o outro sente e vê. Agora é possível relacionar-se e ao mesmo tempo ver as semelhanças, as diferenças e lidar com as mesmas de forma inteira e mais clara. Agora existe realmente o todo porque primeiramente, o todo se fez dentro e nisso, se espelha fora.

          É difícil falar de algo onde nos encontramos em processo, mas é bom falar de algo que se vive, portanto, que possamos nos entregar sim, mais e mais a nós mesmos, e custe o que custar. Só assim se poderá harmonizar-se com esse mundo de forma mais legítima e se tivermos que desarmonizar também, nos desarmonizaremos, sem dúvida, mas será de forma muito mais consciente e também legítima. Enfim, acho que é mais ou menos isso. Reflitamos e sintamos o quanto de nós é, nesse agora, realmente verdadeiro.

Kátia de Souza
24-02-2020

Duas músicas e um só passo

Fotografia do Ballet Bolshoi
"Alisa Aslanova"via Pinterest
Eu queria ter ouvido a música que relativizava as coisas e não aquela que soprou em meu ouvido de certezas infinitas. É, mas não era apenas uma música, eram duas tocando em alto e bom som, a ponto de uma abafar o que na outra se dizia. É, as coisas são assim, enquanto uns escutam samba, outros se aconchegam nos clássicos. E tudo bem, tudo é música. Mas, quando se tem que tocar o clássico para quem ouve samba... Ah! Esse é um desafio daqueles! E dizer e provar que o clássico não é a única música ouvida?! Ah isso é coisa de maluco. Mas, enfim, são assim os nossos passos. Se eu tivesse ouvido a relatividade das coisas, certamente, teria dançado a música, mesmo desajeitada, e sairia do palco mesmo que a plateia ainda ali estivesse, assistindo tudo; não nasci feita de orgulhos que me destroem, então, prefiro nascer de novo que morrer e fingir estar vivo. Mas, só ouvi certezas, então, agora, que conheço o que relativiza, fico aqui, no desajeito das coisas e buscando a saída nos camarins, para quem sabe ao protagonista, apenas, somente a ele, ser o uivo acalorado da plateia e seus aplausos. Afinal, a plateia é quem sabe das coisas. Nos camarins apenas uma música que se calou pensando ter sido ouvida, mas foi tudo imaginação. Crias infantes de certas loucuras que não tem espaço em meio a tanta sanidade. É hora de fechar as cortinas e trocar as vestes. Mas, ainda não se ouve o barulho do destrancar das portas, única música que o silêncio, agora, nos permite!

(Kátia de Souza)
24-02-2020

Palavra é coisa séria

Imagem via Google
desconheço a autoria
Eu cresci pequena, fui diminuindo até não caber mais naquele punhado de espaço. Sei lá, a medida que tudo foi crescendo, eu vi tudo sumir de mim e todo o barulho calar; os lábios já não me obedeciam, selavam suaves, um no outro, suas ausências. Sim, me calei até ficar rouca e nada pude fazer quanto a isso, pois, a fala fica embaçada diante daquilo que não tem encaixe; mesmo que você vasculhe todos os espaços para se encaixar, não, não dá, é outra língua a se falar e o seu idioma é seu, não dá para ser outro. Palavra é coisa séria, quando estas saem de lugares sagrados, pousam em santos espaços, inevitavelmente é assim. E se não são reconhecidos, estes espaços, ah, já era porque também não serão vistas, as palavras. Então, elas partem, deixam seus aromas como sementes, mas somente as mãos que delas se perfumam, é que podem semea-las. E quando vão, avisam que foram, essa é a notícia mais esquisita que podemos receber, mas é assim; já foi e não há mesmo como voltar, resta-nos apenas o silêncio a cuidar. Aquele, talvez, das esperas e de olhares distantes, mas na verdade, só é um jeito, estranho de ficar como quem não está, apenas é e não há como ser outro!
(Kátia de Souza)
24-02-2020

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Encontro

Imagem via Google
desconheço a autoria
Todo saber foi para lá do insano em nós 
E as portas iam se abrindo tão devagar 
E também em tempo preciso a que aos olhos era possível 
Esperar não seria da nossa índole 
Mas nem sempre há de se ter um corte na pele 
Pela voz e daquele jeito onde as almas gritam
E ouvimos no calar da música lá fora, conosco

Ouvimos no silêncio de nossa aridez 
E beijamos a face das palavras 
que pronunciadas eram tão iguais, 
iguais as mãos que se davam 
naquele espaço onde os passos ficam marcados 
e é inevitável ao sol deixar tudo claro 
e pensar que tamanho privilégio é soprado a todos 
quão bem aventurados somos 
e nessa alegria ...navegamos! 

(Kátia de Souza) 
23-02-2020 



Tua dança

Imagem via Google
desconheço a autoria
Agora compreendo a tua dança sobre mim, 
Sobre meu corpo, pele 
e apertando, contraindo-se para sair 
desse pequenino contorno que lhe concedi 
entre versos que não te dizem ou espelham, 
deformam-te e nisso, sinto o versejar do teu silêncio 
Enquanto o irreal se cala para conceder-lhe o canto 

Vaga criança minha por entre as frestas do teu saber 
Tua existência é toda minha submissão 
Que se converge para dentro e em ti somando-nos 
Sabendo-nos e elevando-nos ao que não é dito 
Calado e segredado, é essa nossa permissão 
Para então, vivermos a plena confiança 
E nesses mares em ondas navegar, não apenas águas 
Mas sóis imensos onde ativos criamos, toda a paisagem 

Lindo é poder em ti calar 
Entre tantos momentos sufocantes de sentidos!
(Kátia de Souza)
23-02-2020

Vendo a si mesmo


Imagem via Google
desconheço a autoria
Tenho pinturas guardadas 
Em cofres abertos sem trancas 
Deixo-as expostas aos meus olhos 
E nelas desenho meu passo inconstante 
Meu barco incoerente de querer voar 
Passos em céus com gotas de plumas 
Tudo assim, junto e distorcendo-se 
No retorcer-se com esse mundo sem encaixe 
Vendo-se a si mesmo , 
olhos que se declamam neles mesmos 
Em palavras ao relento 
Banhadas de estrelas e ares diversos 
Estações que as recobrem 
Com todo o seu gélido ou árido contentamento 
Completude esta, incompreensível 
E prenha de tanto e tudo além do verbo 
e nele todo o ser! 

(Kátia de Souza) 
23-02-2020

O deserto - Carl Gustav Jung em "O Livro Vermelho"


O deserto

[IH iii(r)]
Cap IV

          Sexta noite. Minha alma leva-me ao deserto, ao deserto de meu próprio si-mesmo. Não pensava que meu si-mesmo fosse um deserto, um deserto seco e quente, poeirento e sem bebida. A viagem conduz através da areia quente, vadeando lentamente, sem objetivo visível de esperança. Como é horrível  este deserto! Parece-me que o caminho leva bem mais longe das pessoas. Ando meu caminho passo a passo e não sei quanto tempo vai durar minha viagem.

          Por que é um deserto meu si-mesmo? Será que vivi por demais fora de mim, nas pessoas e nas coisas? Por que evitei meu si-mesmo? Eu não me era caro? Mas eu evitei o lugar de minha alma. Eu era meus pensamentos, depois que não era mais as coisas e as outras pessoas. Mas eu era o meu si-mesmo, colocado diante de meus pensamentos. Eu devo também elevar-me acima de meus pensamentos ao encontro de meu próprio si-mesmo. Para lá vai minha viagem e, por isso, ela conduz para longe das pessoas e das coisas, à solidão. Isto é solidão, estar consigo mesmo? Solidão só quando o si-mesmo é um deserto? Devo abrir o jardim encantado do deserto? O que me leva para o deserto e o que devo fazer lá? Existe uma ilusão de que não posso mais confiar ao meu pensamento? Verdadeira é apenas a vida, e tão só a vida que me leva ao deserto, realmente não meu pensar que gostaria de voltar para as pessoas, para as coisas, pois lhe é sinistro estar no deserto. Minha alma, o que devo fazer aqui? Mas a minha alma falou-me e disse: "Espera". Eu escuto a terrível palavra. Ao deserto pertence a dor.

          Pelo fato de eu dar à minha alma tudo o que podia dar, cheguei ao lugar da alma e descobri que este lugar era um deserto quente, seco e estéril. Nenhuma cultura do espírito é suficiente para fazer de tua alma um jardim. Eu cuidei de meu espírito, do espírito dessa época em mim, mas não daquele espírito da profundeza, que se volta para as coisas da alma, do mundo da alma. A alma tem seu mundo que lhe é próprio. Nele só entra o si-mesmo ou a pessoa que se tornou totalmente seu si-mesmo das coisas e das pessoas, mas foi precisamente assim que me tornei presa fácil de meus pensamentos, sim eu me transformei totalmente em meus pensamentos. 

          Também de meus pensamentos tive de me separar, desviando deles meu desejo veemente. E imediatamente percebi que meu si-mesmo se transformava em deserto, onde somente brilhava o sol dos desejos não satisfeitos. Eu fora vencido pela esterilidade infinita desse deserto. E como poderia lá florescer alguma coisa, se faltava a força criadora do desejo? Onde existe esta força criadora do desejo, ali brota do chão a semente que lhe é própria. Mas não te esqueças de esperar. Não viste como tua força criadora se voltou para o mundo como debaixo dela e através dela se movimentaram as coisas mortas, como cresceram e floresceram e como teus pensamentos fluíram em ricas torrentes? Se tua força criadora se voltar agora para o lugar da alma, verás como tua alma vai reverdecer e como seu campo produzirá frutos maravilhosos.

          Ninguém pode furtar-se ao esperar, e a maioria não conseguirá suportar esse tormento, mas se lançarão outra vez com gula sobre as coisas, pessoas e pensamentos, cujos escravos se tornarão a partir desse momento. Pois então ficou claro que esta pessoa é incapaz de perseverar além das coisas, pessoas e pensamentos e, por isso, tornam-se seus senhores, e ela se tornará seu bufão., pois, não pode ficar sem eles, nem mesmo o tempo necessário para que sua alma se tenha tornado um campo produtivo. Também aquele cuja alma é um jardim precisa das coisas, pessoas e pensamentos, mas ele é seu amigo e não seu escravo e bufão.

          Todo o futuro já existia na imagem para encontrar sua alma, os antigos iam para o deserto. Isto é uma imagem. Os antigos viviam seus símbolos, pois para eles o mundo ainda não se tornara real. Por isso iam para solidão do deserto, para ensinar-nos que o lugar da alma é deserto, solitário. Lá encontravam a plenitude das visões, os frutos do deserto, as flores maravilhosas e singulares da alma. Pensa diligentemente nas imagens que os antigos nos legaram. Elas mostram o caminho daquele que vem. Olha para trás para a ruína dos ricos, para o crescimento e a morte, para o deserto e os mosteiros. São as imagens daquele que vem. Tudo está predito. Mas quem sabe interpretá-lo?

          Se dizes que o lugar da alma não existe, então ela não existe. Mas, se dizes que ele existe, então ele existe. Observa o que diziam os antigos na imagem a palavra é ato criador. Os antigos diziam: no princípio era a palavra. Considera isto e medita nele.

          As palavras que oscilam entre a tolice e o sentido supremo são as mais antigas e as mais verdadeiras.


Carl Gustav Jung em "O Livro Vermelho" - Liber Novus

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

O prato principal


Imagem via google
desconheço a autoria
Eram asas em olvido o prato servido 
Na antessala silenciada como entrada 
Somente o susto aturdindo acústico 
Todos os ouvidos da pele, antes, suprimidos 
Deixando o deleite sem enfeite 
Para o próximo passo ou prato ainda casto 
Estava tudo lá, no retrato como cardápio 
No batente da porta rente ao corredor 
Listado o dia marcado e o que viria 
Da janela, somente o piso, reluzia 
E nas paredes rubras só penumbra 
E o sorver de cada recanto, retirando os mantos 
névoas, teias, areia dos olhos, abrolhos 
Para no jardim vislumbrar em círculo, as pétalas 
do dia onde o sol oferece e aquece 
No cálice e em companhia 
o que principia, original... ele recobrado 
e mesmo atordoado... o prato principal! 

(Kátia de Souza) 
20-02-2020

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Benzimento

Arte de Sandro José Da Silva "As lavadeiras"
Não tarda o dia em que te vêm trazer, lágrimas
e colocar-te em branco, os dias e a fel, as noites;

mas, mas mesmo assim, não há de secar a fonte da alegria,
dos risos frouxos, da ingênua calmaria 
mesmo em dias de líderes televisivos e mundiais;

pois, sois mais, querida criança, sois mais 
e nada te abate quando a tuas renascidas manhãs, te vestem;

não, não permita que seque quarando qualquer sentimento teu,
lava-o com água doce e banha-o, cada ano, no mar
e nos braços da mãe senhora;
assim, põe úmido qualquer pensamento que possa te invadir
e nesse charco, cose todo o saber embutido nas gotas sagradas
desenhadas por sabe lá quem, mas foi ...

é assim que batizas toda a face e bendiz as ruas
que lavadas por teus choros, antes sem sentido,
desnudando cada esquina, haverá luz, cor pra todo lado
e cinza, preto, branco pra compor, no contraste, esta festa
e sem querer evitar ou deixar pra lá, nada...

...do fel permita que ele queime toda a língua,
sature-a, até não mais sabe-lo e disso, trará o mel, 
escondido em ti e das minúsculas criaturas que falam sussurrado,
silêncio maroto, jamais denunciado em tempo amargo,
mas estão lá, todas elas, a adoçar todo o passo
que se encoraja a ver-se e jamais se opor!

(Kátia de Souza)
10-02-2020

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Caminhos (Ensaios de um Novo Tempo)

desconheço a autoria da imagem
          É interessante o quanto cabe de nós quando há espaço. Mas, fico me perguntando se estes espaços todos, não são, em muitos momentos, fita isolante. Sim, pois a corrente não passa, após adesão consentida. Aderir-se aos espaços que nos são concedidos, deixando-nos claros, feito luminária incandescente, é como abrir as portas de um templo, daqueles bem antigos, conhecem? Sim, como é bom ter olhos claros na incandescência da noite; propagam-se as luzes e as sombras e todo o resto de nós. É um mar de quinquilharias aquilo tudo e no meio do tintilar das peças, diante do toque, preciosas raridades. E no chão, a cada passo... o ranger do assoalho, nem sempre ajustado a segura crença de que estamos firmes, mas estamos lá, feito crianças que nem sabe direito como funciona aquilo tudo e desmonta o brinquedo e mesmo sem saber, diverte-se em cada manejo dos dedos a reinventar–se. E enquanto isso, nos bastidores dos espaços nossos, ouve-se rumores, vozes distantes, lembrando-nos que sempre podemos voltar, deixar que a corrente passe e a energia volte. Enquanto lá dentro, magnetizados às formas e cenários, sem precisão alguma, vamos deixando que as paredes se desfaçam e as rotas se confundam, é dessa forma que retornamos; atravessando a fita isolante e permitindo ativa condução de novos caminhos. E como se o quebra-cabeça faltasse uma peça, permanecemos ali, não mais cativos de nós, mas estranhos tão comuns em meio a tantos iguais. É, é muito espaço a caminhar por aí e cabe, cabe muito, muito mais. Ir e vir, é o movimento que também nos cabe, através, daquele par de asas que a nós todos, é inerente. 


(Kátia de Souza em ®Ensaios de um Novo Tempo)
09-02-2020

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Sombra ... (Ensaios de um Novo Tempo)

Imagem via Pinterest (desconheço a autoria)
          Quando não tememos a nossa própria escuridão ou pelo menos começamos admitindo-a em nós, podemos, encarar o mundo com mais coragem. Afinal, sei dos ideais, agora, sei da efemeridade das palavras e comportamentos, e nisto, estou ali, mesmo que calada ou apenas observando, mas estou, nenhuma grade é corrente, estou livre em mim... aclarada, lúcida, sendo quem sou... 

          Mesmo que todas as palavras me falte, mesmo que não tenha rosto, corpo, marca alguma que me denuncie a existência, mesmo que tudo desapareça e somente meus olhos, além de qualquer outra perspectiva, se estes veem, então eu vivo e estou ali, sendo... e isso, ninguém, ninguém há de ser... somente eu posso ser o que sou...

          Quando negligenciamos a nós mesmos, isto cega, e nos põe no pódio mais baixo da vida e nos faz sentir como se jamais fôssemos qualquer coisa, tudo é efêmero, perde o gosto, em algum momento... nada satisfaz, e ser este humano íntegro, completo toma uma distância inconcebível e somente aos outros, é concedido tal direito, assim pensa a cegueira; isto e muito mais que não cabe em palavra alguma ou que eu possa descrever... estive cega de mim, mas pude, em tempo acordar, por isso sei ...

          Ser-se, requer coragem de saber-se e saber-se, requer coragem de abrir mão daquilo que não te pertence e te convenceram que é seu, e só nisto te pensas humano, grande, forte, vivo e existindo... sem isso, o que és, realmente? Nada te preenche, o silêncio e o vazio te toma e encolhido fica em meio a escura percepção que te enlaça e ao mesmo tempo te chama, mas não te reconheces ali, não é mesmo? Pois, tens que brilhar e ser o que te disseram para ser. Sinto, pelos teus olhos, mas meus pés e mãos possuem ardor, fogo que queima e chama por vida, então, já fui, mas nunca me despedi tão claramente, por isso, se puder acorde, porque já não estou mais, minha voz, é para os meus próprios ouvidos em pretensa expressão de um Amor, inconcebível!

(Kátia de Souza em Ensaios de um Novo Tempo)
08/02/2020

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

O teu nome


desconheço o autor da imagem - via Pinterest
Descoberto o lugar por onde avanço,
vejo-o cerne e barco
sinto-o sem estradas longínquas ou horizontes distantes
não sei das necessidades ou mesmo desejos
só sei que é pulso, ritmo e corda
silente e aquietado olhar
serena e firme presença
vagueia por cada letra, gesto ou movimento
e mesmo no disfarce das máscaras,
imprecisas vestimentas,
eis você, em todos estes, nossos tempos
Estás ali, sussurrada, soprada
nas delicadezas infinitas
e também em sutilezas de aparência fugaz
Não tens pudor diante das moradas
onde te abrigas, és vida
e por ela, nela, se realiza
Quando fores para distantes espaços
por entre os pensares humanos
deixa pelo caminho teu rastro
para que saibam, sempre... o teu nome!

(Kátia de Souza)
07-02-2020

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

O que é maior...?

desconheço o autor da imagem
O que é maior do que quando em meus braços, não cabem apenas um ramo de flor, mas todo um jardim pairando sob meus olhos?

O que é maior do que a experiência de se ter em si, a capacidade de sentir e não nomear esses sentimentos para não limita-los com símbolos que não ecoam suas notas verdadeiras, por aí?

O que é maior do que amar sem precisar dizer ou confessar, apenas ser nesse amor todo o sorriso incontido e expresso em milhões de gestos?

O que é maior do que o silêncio apaziguador que jamais espera, é intensamente, a segura certeza em si mesmo de saber da alegria em ser o gesto libertador de todo ser - companheiros de sua jornada?

O que é maior do que ver a expressão livre, manifestar-se e mesmo que o contrariando, não deixa de ser belo o ser que se manifesta?

O que é maior do que se soltar em si mesmo entre todas as contrariedades, concordâncias, questionamentos, seguranças, medos e coragens tantas, vivendo, literalmente, todas essas oferecidas experiências, pela vida?

O que é maior do que poder calar ou dizer sem precisar estar certo, correto ou ditando regras a ninguém e mesmo que assim o faça, poder mudar de diretriz a qualquer momento?

O que é maior do que ser o que se é, bem, mas bem, humano?

É... talvez eu não tenha visto a grandeza disso tudo, talvez me escape que não caiba na humanidade tudo isso e mais um pouco. Mas, o que é maior do que ver à sua frente, infinitas possibilidades de viver ainda o que ainda não sabe?

E por fim, o que é maior do que uma interrogação que se cala para dar lugar a exclamação que trás a revelação do que em si é, a única verdade?

O que é maior...? 

(Kátia de Souza - 04/02/2020)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Naquele lugar ...

Créditos da imagem, na mesma
Há um “descontexto” naquele lugar; tudo se desloca tão preciso e organizadamente, calculável; dito como vozes que sabem lá vem ele (aquele lugar) novamente, a ditar seus caminhos. E no vácuo que se sente além nas palavras, interroga-se: “ - onde estou, pra onde vou e o que é este lugar?” 

Silêncio .... Vazio.... Oco momento, tão próprio, tão lindo a nos dizer... 

Mas, onde estão os ouvidos, para onde foi o vaso que sustenta as colocações benditas daquela língua? Foi-se, não há escuta, é só palavrório e falácia incontida. É bem assim, tudo a se entender sem saber-se nada, e nisto, a rígida proporção de todo conhecer, sem vida!

(Kátia de Souza)
03-02-2020

Obra caleidoscópica (Ensaios de um Novo Tempo por Kátia de Souza)

Imagem de Mariola Glajcar
            Quanto mais me espanto com os descobrimentos, mais nua fico diante da obra caleidoscópica que se converge, diverge e se agiganta para todas as direções. Não é coisa de sã consciência tudo isso; é mágica encontrada em pura sensação de arte que se entorta toda para sair das longínquas estações onde se encontra; deforma-se em tantas coisas, mas se apresenta de acordo com sua ponte animada e na voz do autor. Diga-se de passagem, Criador. E não tem jeito, destapou-se a laje do porão, lá vem ela desinibida sem medida ou proporção; deságua leitosa, abundante e vaza a quem quiser sua grata presença. E antes de se destampar qualquer coisa ali, pode-se sentir as batidas na porta e cabe-nos sim, a decisão de abrir ou não. Contudo, sou das loucuras humanas, decidida e inacabada, permito e sempre destampo, abro onde ouço a sua canção. E depois de aberta, não há medida que lhe contenha, ganha vida além das estradas, contextos ou direções. Tudo é somente ela, somente seu existir, importa. Então, cabe-nos apenas sorver suas cores e deixar que o mundo se perfume de seus odores. Não, não tenho mais pudor diante dela, somente ele(o pudor) vem quando encobre-se novamente sua saída, mas tudo bem, são compostos necessários para o alimento de toda a substância que nua e desavergonhada, ela, se sobrepõe a qualquer entendimento. 

(Kátia de Souza em esboços para "Ensaios de um Novo Tempo")
03-02-2020

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Sem direções

desconheço o autor da imagem
Pensei ser de antes o sopro do agora 
E não me enganei 
Estavam ali, todos os tempos nos espaços constantes 

Pensei calada a voz nua e clara 
Quando na língua aportada, percebi 
Declamando os versos de cada letra 
E o som de cada vão 
Sonoros sempre, melodias de ver 
E gostos de tocar sem ver 
Expirei e inspirei todas as cores 
Não, sequer pensei ... 

Tudo é em cada compasso um olhar 
E um toque de asas plenas 
Quando se quer além desse querer 
Pois, cansa desejar nessa trama de nomes 

Tudo fica em movimento em seu lugar 
Num barco a navegar 
Cada vez mais distante e tão próximo de tudo 

Por isso, abandono placas, cartazes e linhas 
Que amarram num enredo desonesto 

Não, não me cabe mais tanta letra 
Somente quero o suspiro sussurrado da palavra 
Sentida há tanto ... 

Esse reencontro ...tão vasto sem direções!!!
(Kátia de Souza)
01-02-2020