Mostrando postagens com marcador Imaginação ativa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Imaginação ativa. Mostrar todas as postagens

sábado, 28 de agosto de 2021

Aproximação

Na imagem: arte de Alexandra Dvornikova

🦋Eis-me aqui desobedecendo regras para me aproximar de ti.

🦋Talvez, até porque tenha aprendido contigo não ser doméstica, obediente, mansa à esta doma de fazer "tudo, direito". E o que é este que nada me diz e diz tanto quando em meus ombros carrego o fardo?

🦋Quero desafogar os braços e abrir espaço para caber, teu corpo em mim. Saber-te para além dos dentes à mostra, o olhar ferino e a postura de ataque. Quero saber-te mais.

🦋De onde viestes e pra que esta face sombria, nesse agora? Sinto os véus tão finos e as linhas tênues entre eu e você.

🦋Me falastes de forma tão dura o que é para ser e que ainda não sei. És ferino quando a ti não te olho. Mas, vejo e quero saber.

🦋Tua longa pelagem suspira à mostra daquilo que por ti, nem mesmo saiba, mas me convida a este ritual tão caro... onde as palavras calam, onde caço o que dizer.

🦋"Te falei de mim, te mostrei a cara, te lambi a pele, te fiz crescer. Te dei meu colo, te fiz minha parte, te bebi em goles, num vulto, sem mesmo saber."

🦋E agora o que digo, se não sei quem és? Se não posso te dar o que esperas de mim? Se esperas, é claro! O que posso contigo, em mim acolher?

🦋"Talvez o que queiras, talvez o que saibas, talvez o intento de apenas me ver!"

🦋O que me segreda ou suponho, é o que não cabe num texto e quem sabe, nem mesmo querer. Me vem as palavras, o porto que não cabes e é em mim, morada do que conheço, mas custa-me viver.

🦋"Já vives e não acolhes o que é só teu e em mim é só ser. Supõe-te frágil quando de mim aparte e por isso, teme a totalidade se por ventura, nela, se dissolver."

🦋O que faço agora, te beijo a face? Te deixo ir, te componho em versos, te rendo rimas, te trago ao peito ou espero pra ver?

🦋"Já chegastes aqui, agora fica e deixa ser."


🌹Kátia de Souza - 28/08/2021___✍
Texto protegido em seus direitos autorais
 T7330495 - Lei 6.910

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Simbolismo de Sarasvati por Tales Nunes

desconheço o autor da imagem
via Google
Simbolismo de Sarasvati 
por Tales Nunes 

Sara – “essência”; Sva – “o seu próprio” 

É aquela que nos dá a nossa própria essência, a sabedoria, o conhecimento. 

Sarasvati a forma feminina do criador, Brahma. Sarasvati representa todo o conhecimento e a inteligência que rege todas as coisas. O universo é organizado de uma forma inteligente. Ele é governado por leis. Leis que tornam possível o nascimento do sol todos os dias, que rege os ciclos perfeitos da natureza, que governa o nosso corpo e a nossa mente. Tudo é muito bem organizado. 

Sarasvati aparece nos Vedas na forma do rio Sarasvati e estava associada ao conhecimento. Sarasvati significa também “aquela que flui”, como o rio. O conhecimento tambem é aquele que flui da boca do mestre para o ouvido do discipulo, através das palavras. “Vac” significa “fala”. O rio não tem dono. Se você possui uma propriedade na qual um rio cruza dentro dela, você não pode dizer que aquele rio lhe pertence, as águas do rio que momentanemente cruzam a propriedade podem ser usufruídas por você, com cautela e responsabilidade, sabendo que aquelas águas irão banhar diversas outras pessoas. Assim é o conhecimento. 

Ninguém o possui, ele flui e abençoa aquelas pessoas que se banham nele. 

A água é considerada um elemento purificador. Com a água lavamos tudo, tomamos banho. Da mesma forma, o conhecimento é o elemento mais purificador que existe. Quando se diz que ao mergulhar no Ganges a pessoa adquire a liberação, isso é um símbolo para dizer que quando você mergulha na água do conhecimento, você adquire moksha, porque a ignorância, a impureza, é removida. 

É dito que antes ela Sarasvati esposa de Vishnu, que era casado também com Lakshmi. Elas não se entendiam e constantemente brigavam por ciúmes. Vishnu, então, após uma discussão entre as deusas, deu Sarasvati para Brahma. A historinha é para ilustrar a nos chamar a atenção de que devemos ter muito cuidado, porque onde existe demasiada atenção na riqueza material, a sabedoria pode ir embora. E onde existe sabedoria, a riqueza não é tão valorizada. 


Iconografia 

Sarasvati usa um sari branco e está sentada em um lótus branco que representa a pureza, ou seja, uma mente sáttivica. A mente equilibrada e tranquila é o solo fértil para que o conhecimento frutifique. Então de fato o conhecimento nos conduz a perceber aquilo que realmente somos. O conhecimento, portanto, remove a impurezas, a ignorância. 

Numa das mãos a deusa carrega os Vedas, simbolizando todo o conhecimento; noutra traz um japa mala, simbolizando a meditação; segura também uma vina, representando a arte e a música. A vina é dito que é um instrumento muito difícil de se tocar e por isso representa também a disciplina, necessária no caminho do autoconhecimento. O som produzido pela vina simboliza o escutar dos ensinamentos. A música e principalmente o som da vina é algo capaz de nos levar ao estado de plenitude, assim como o ensinamento, que nos revela que somos a plenitude que tanto buscamos. 

Sarasvati está montada em um cisne que representa a discriminação, o veiculo pelo qual o conhecimento chega é a discriminação. O cisne é branco e representa aquilo que é único, Brahman. Sempre associado a ela há um pavão. O pavão tem uma multiplicidade de cores que representa a criação. O conhecimento é a base de toda essa criação que é tão bela e variada. Sarasvati representa o conhecimento da criação. 

O lótus no qual ela está sentada representa próprio caminho espiritual da pessoa realizada. O lótus ergue-se da dualidade, do lodo, em busca do sol, o conhecimento. Quando o alcança, desabrocha. Mesmo tendo desabrochado, permanece na lama, na dualidade, contudo, é intocato por ela, pois as pétalas de sua flor são impermeáveis. Assim é o sábio que buscou o conhecimento e nele obteve a compreensão da unidade. Ele permanece no mundo, na dualidade, mas sempre com a visão não-dual em mente. 

Todas as deidades estão adornadas com ouro em abundância, que simboliza a unidade indepedente da forma. Ou seja, independente da forma, pode ser um brinco, um colar, uma coroa, uma pedra, o ouro continua sendo ouro. 

sábado, 19 de outubro de 2019

O Pavão - Rubem Braga (diálogo)

O Pavão 

Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas. 

Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade. 

Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

Rubem Braga
........................
E quando o olhar transcende as formas, nelas todas, se vê as partes e, estas por sua vez, não diminuem aquilo que em sua exuberância é o todo.
(Kátia de Souza)
19-10-2019