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domingo, 24 de novembro de 2019

Dialogando com José Saramago

Imagem via Google e editada por Kátia de Souza
postagem do texto por Suzana de Oliveira Silva
Em que língua se diz
em que lábios se calam
em que voz se falam
esses versos inacabados em todas as letras?

Em que texto ou discurso bem citado
construídos com esmero
estão essas palavras que voam?

Em que água sinuosa em cascata serena
brotam sentimentos
em quais suaves voos cantam todos os saberes
em qual murmúrio estão as árvores frondosas que erguem-se dentro
anciãs de nossa humana condição
que podem traduzir formosas e trazendo em fragrâncias,
perfumes de folhas e flores o que em segredo guardamos na alma
e traduzimos nos olhos de ver que como mãos, se oferece um coração?

Onde, onde está esta língua?!

(Kátia de Souza)
24-11-2019

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Dialogando com Diego Vinícius

postagem realizada por Antonio Costa
Sem alma, qual segurança teríamos? 
Estaríamos a mercê dos "alvitres" da vida
vida esta, que é só alma.

Como, ser ou estar em meio a vida, sem vida?
 
Das velhas seguranças ditadas pelos cartazes, na avenida
carrego o conhecimento
mas eis que passeio pelas vielas
e estreitos becos com seus espectros
vou também por ruas largas bem calçadas
 outras de chão batido e terra úmida,
 ruas as quais não tem placas
 e nem sempre tem vista,
 mas ruas que inspiram as tais avenidas 

 não sou dessas que comunga com a vida 
com seguranças enfeitadas
 sou sim alma, bebo e confeito 
as inseguras belezas, do que sou... vida!

Kátia de Souza
(21-11-2019)



quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Diálogo poético com Guimarães Rosa

Arte de Gustav Klimt

O Sono das Águas
Guimarães Rosa


Há uma hora certa,
no meio da noite,
uma hora morta,
em que a água dorme.
Todas as águas dormem:
no rio,
na lagoa,
no açude,
no brejão,
nos olhos d'água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca,
a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...
Águas claras,
águas barrentas,
sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas,
caudais,
seivas das plantas,
fios brancos,
torrentes.
O orvalho sonha nas placas das folhagens
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem,
nessa hora de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando , a noite toda,
porque a água dos olhos
Essa... nunca tem sono...
......................................

e jamais há de dormir,
as lágrimas, águas doadas
escorridas, molhadas ...

na profunda confiança
de poder desaguar,
aos pés dos olhos,

lavar e levar

dali o que à terra doa
e faz nascer em gotas

gotas do viver, colher, florir ...

e isso... é apenas um instante
desse líquido em graça
doado para dizer do divino, 
... intrínseco ao homem!

(Kátia de Souza)
23/10/2019

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Olhos e gestos puros


"Pra comprovar que nossos conceitos são sempre relativos, lembro de um fato ocorrido em 1991: Eu estava visitando uma aldeia muito pobre no sul da Índia, rodeada por um bando de crianças maltrapilhas. Uma menina se encantou comigo e eu com ela. Então percorremos todo o local de mãos dadas. Quando eu me despedi, a menina fez um gesto para que eu esperasse e correu para um dos casebres. Voltou, em seguida, com uma rosa de plástico à qual estava preso um alfinete e me entregou como se fosse um troféu, os olhos ansiosos pra ver minha reação. Prendi a rosa na minha blusa e ela começou a saltitar de alegria... Sempre me comovo quando lembro disso..."

sc/(Suzete Carvalho)

domingo, 20 de outubro de 2019

Livre voo

Imagem via site zamaye
Hoje deixo que vá, solto, largo 
das fibras que nos detém, mortalhas de cobrir delírios
que não pousou sóis e luz dos lírios 
e nem piscou os cílios desse poema 
e com mãos ao vento, dedos em pétalas às curvas 
nas ondas dos meus cabelos 
concedo-te meus olhos em desdém 
que bailam o verso de asas abertas 
que no ar beija a festa em brinde 
junto aos anjos, meu canto, viva substância e sem 
e àqueles que em branda poesia te deleitas 
deito-me a palavra que mesmo vaga... te satisfaz
e de irreais venturas escolhes tua rima
então suba abaixo, caia acima, deixe-se por toda linha 
por isso, eu brindo essa partida 
que em chegada sorri em inteiro deleite 
de se ver em plena poesia que jamais em ti, retém 
dê meia volta e vem ... 

... solte, largue, voe, sem pautas... quem? 

Estou indo, livre voo ... por ti, amém!

Kátia de Souza
20-10-2019


sábado, 19 de outubro de 2019

O Pavão - Rubem Braga (diálogo)

O Pavão 

Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas. 

Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade. 

Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

Rubem Braga
........................
E quando o olhar transcende as formas, nelas todas, se vê as partes e, estas por sua vez, não diminuem aquilo que em sua exuberância é o todo.
(Kátia de Souza)
19-10-2019

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Diálogo poético com Lina Bo Bardi

Imagem via:
Pamela Tur POA | Morro Reuter, Gramado E Canela/RS
Lina Bo Bardi
Morar

“...um desvio do caminho habitual. O olhar curioso, o desejo do novo foi buscar poesia. Uma olhadela e inesperadamente um portão se abriu, surpresa. O caminho que levava para o alto da casa guardava por onde passava uma beleza inusitada. O olhar alimentou-se de tudo. O caminho feito de recortes de ladrilhos, o verde por todo o redor, o canil, o atelier, a casa do caseiro, a horta, as escadas, as obras de arte, a lareira, as salas e quartos aconchegantes, a cozinha, as paredes transpirando memória, os móveis, a luminosidade, a visibilidade, a circulação, a natureza, as transparências...a transcendência. Um cheiro de infância, o forno...Lembrança de encantamentos de uma intimidade momentaneamente única, subjetiva, mas que pertence a todos, a memória inestimável do Belo.”(Lina Bo Bardi)
.........................
E quando eu pensei estar sozinho(a), vi ao longe, ali por dentro, um sussurro quase inerte, pensativo em milhões de sentimentos. Eram pinturas em telas vivas, a desenhar-se entre a pele e o que eu não sei dizer; revirou-se em cada cômodo o que jamais previa de mim, deixou-me cair em todos os espaços para sentir e percebeu-me a parceria dos muitos nesse pleno que é só vida e vivência, sem mesmo sabermos. Distinguindo-o, eu pude exalar a você em mim, num só perfume, o Belo que jamais deixa de dizer, calando a nossa voz.(Kátia de Souza)
16-10-2019