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sábado, 26 de junho de 2021

ESTUDOS "BÍBLIA E PSIQUE"


🦋Referindo-me ao que Jung diz aí na imagem, eu só tenho a agradecer mesmo a Psicologia e mais especificamente, a Psicologia Profunda trazida por Carl Gustav Jung no que tange aos temas - religião, fé, espiritualidade. Estes temas nos rondam, sempre. E a mim, desde a infância com inúmeros questionamentos. E ainda de uma forma ou de outra, acredito que esse Deus das religiões pregadas atualmente, não é o "Deus" que sinto real e manifesto por aí e por aqui. E talvez, nunca tenha sentido que fosse, desde antes. Então, venho cada vez mais, através da Psicologia Profunda reencontrando sentido para muito do que sinto e vivo, enquanto espiritualidade. E também, encontrando sentido para muito do que na própria Bíblia, questionei tão avidamente e ainda questiono.

🦋E antes de dar continuidade ao que sinto e penso, é importante dizer que Jung fala em psicologia, referindo-se a psicologia humana (psique - alma). E quando eu menciono aí em cima, cito Psicologia com letra maiúscula e estou me referindo a ciência mesmo e nisto, também subentende-se a psicologia com letra minúscula (psique humana). Em tempos onde meia palavra não basta para entender, vale sempre uma explicação. Psicologia (ciência) porque estudo a mesma e psicologia (psique-alma) porque vivo, sou humana.

🦋Sempre tive uma atração imensa pela Bíblia, sempre achei a mesma poética e misteriosa e nisso, meus olhos brilhavam na busca por decifra-la. De certo que essa busca e mistério descritos aqui, é apenas reflexo de algo que sempre soprou internamente, na minha trajetória. Portanto, diz respeito a mim e por isso, por viver em mim tudo isso, concordo com Jung - não há outro caminho a não ser a psicologia, o estudo e a vivência da alma. Ou seja, uma espiritualidade vivida, experienciada e não apenas sustentada por discursos e palavras pregadas, através de ideias superficiais e compreendidas em seu sentido literal e objetivo. E como toda minha trajetória foi permeada pelo cristianismo (família evangélica), não há como fugir dessa trajetória e para mim, seria até mesmo um desrespeito com minha herança familiar, se assim posso dizer. Apesar de não ter seguido os passos da família, esse tema sempre esteve presente e como disse acima, sempre como uma incógnita a ser compreendida. Por isso, faço hoje, dos estudos de temas relacionados a alma e portanto, Jung e Junguianos, uma ferramenta para reencontrar respostas ou vivências que me possibilitem sentido para esses aspectos da vida humana - espiritualidade.

🦋E hoje encontro essa obra de Edinger (Bíblia e Psique) que não veio, nesse momento por acaso, e a qual me dedico a estudar com todo empenho, pois, tem sido um alento, para os dias atuais. Afinal, diante de uma fé distorcida e uma obra (a Bíblia) tão mal compreendida em seus ensinamentos e ainda passados adiante de forma enganosa, onde a conveniência e o subjugo é o que permeia, requer de nós esse empenho, mesmo. E isso só reforça o que ouvimos por aí: olhemos para dentro!

🦋Que possamos rever tudo que somos, "façamos nosso dever de casa" reencontrando-nos e ressignificando tudo o que até o momento estamos construindo; vejamos sentindo, nossa trajetória e o que a mesma nos sopra, pois, está aí, talvez as portas de saída - se precisamos dela - ou algumas respostas para tanta angústia e fragilidade emocional, dos tempos atuais.

🦋Aos poucos e o que sentir que é importante, trarei aqui, nas postagens, um pouco desses estudos e reflexões. E concomitantemente, estou estudando de novo, a "Bíblia" e "Psicologia e religião", de Jung. Sigamos! ❤


🌹Kátia de Souza - 09/05/2021 (reeditado em 26/06/2021)___ ✍
🔎Texto na imagem e reflexão acima, a partir do estudo do livro "Bíblia e Psique de Edward F. Edinger"

sexta-feira, 25 de junho de 2021

MOISÉS E IAHWEH: o êxodo

 
Na imagem escultura de Michelangelo (Wikipédia)

🦋O encontro entre Moisés e Iahweh é um dos maiores dramas de individuação da psique ocidental. Como agente mediador entre Iahweh e Israel, Moisés realiza a redenção de seus povo da escravidão egípcia e lidera a ação na realização do seu destino.

🦋Com o auxílio da psicologia profunda essa estória sagrada que pertence à história coletiva dos judeus pode agora ser compreendida como aplicável à experiência do indivíduo singular. A estória começa em Êxodo 1:

🦋"Levantou-se sobre o Egito um novo rei, que não conhecia José. Ele disse à sua gente: "Eis que o povo dos filhos de Israel tornou-se mais numeroso e mais poderoso do que nós. Vinde, tomemos sábias medidas para impedir que ele cresça; pois do contrário, em caso de guerra, aumentará o número dos nossos adversários e combaterá contra nós, para depois sair do país." Portanto, impuseram a Israel inspetores de obra para torna-lhes dura a vida com os trabalhos que lhe exigiam. Foi assim que ele construiu para o faraó as cidades armazéns de Pitora e de Ramsés. Mas, quanto mais os oprimiam, tanto mais se multiplicavam e cresciam; e os egípcios obrigavam os filhos de Israel ao trabalho, e tornavam-lhes amarga a vida com duros trabalhos: a preparação da argila, a fabricação de tijolos, vários trabalhos nos campos, e toda espécie de trabalhos aos quais os obrigavam." (Ex 1.8-14)

🦋Isso descreve o estado psicológico do indivíduo que está para ser atingida pelo imperativo da individuação. O Egito sob o faraó representa certo estágio de desenvolvimento psicológico no qual o ego, em identificação com a função superior, está centrado no princípio de poder e controle obstinado. Os israelitas significam o "outro", um ponto de vista novo e diferente que emerge do inconsciente e que requer atenção. Esse novo fato, aliado com a função inferior, está se multiplicando num modo que ameaça o status quo. Por esse motivo são instituídas medidas repressivas: todas as crianças recém-nascidas de sexo masculino devem ser mortas. Esse ato de repressão contra o conteúdo inconsciente que emerge provoca reação do inconsciente: o nascimento do herói.


🦋O herói é figura situada a meio caminho entre o ego e o si-mesmo. Ele pode talvez ser mais bem definido como personificação do impulso para a individuação. A estória do nascimento de Moisés segue rigorosamente o modelo característico do mito do nascimento do herói. Os aspectos principais desse mito são:


1) o nascimento ocorre em circunstâncias adversas;
2) as autoridades procuram mata-lo;
3) o recém-nascido é exposto ou abandonado, frequentemente na água;
4) ele é salvo em geral por pessoas humildes.


🦋Todos esses aspectos se aplicam ao mito do nascimento de Moisés e se referem psicologicamente às vicissitudes que cercam o nascimento do impulso para a individuação. A autoridade estabelecida (interna e externa) sempre se opõe. O indivíduo fica então exposto à experiência de exílio ou alienação e recebe auxílio apenas dos aspectos "humildes" da psique que estão abertos à dimensão transpessoal.


🌹Edward F. Edinger - "Bíblia e Psique - simbolismo da individuação no Antigo Testamento"___✍

quarta-feira, 16 de junho de 2021

JACÓ E ESAÚ em Bíblia e Psique (Edward F. Edinger)

A nossas raízes no que diz respeito a relação que estabelecemos com nossa espiritualidade, está sustentada, também, nesses compromissos que se relacionam a história de Jacó e Esaú. Uma perfeição inatingível e uma identificação com o divino que apenas nos leva à negação de algo substancial à nossa integridade. E enquanto não reconhecermos e integrarmos esses movimentos íntimos em nós, estaremos girando nessa roda interminável de conflitos violentos e destrutivos, seja individual ou coletivamente. Sendo que estes impulsos destrutivos, estarão agindo de forma livre (inconsciente), através de uma possessão ou de um complexo que nos toma e nos imprime a missão de destruir e não de construir ou criar, o realmente, novo. Apenas sentindo o estudo ou refletindo, mas ainda acolhendo e buscando a lúcida compreensão. (Kátia de Souza)

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🦋"A estória de Jacó e Esaú indica que o ego destinado à individuação nasceu como gêmeos. Outros exemplos da mesma imagem arquetípica são Rômulo e Remo e os dióscuros, Castor e Pólux. Essa divisão em dois tem dois aspectos: ego e sombra, e ego e si-mesmo. Ambos os aspectos aparecem nas relações de Jacó e Esaú."
 
🦋"Embora no início de Israel esses opostos devessem estar separados, no fim eles deveriam ser unidos. Por esse motivo um comentário rabínico diz "o Messias filho de Davi não virá antes que as lágrimas de Esaú deixem de correr."

🦋Conforme previsto por Iahweh (Gn 25,23) e com conivência de sua mãe Rebeca, Jacó roubou o direito de primogenitura e a benção paterna que pertencia a Esaú. Existe um crime no início da história de Israel. As implicações psicológicas desse crime primordial foram claramente elaboradas num estudo excelente de Myron Gubitz. A ideia básica é que o ego estabelece sua existência única e autônoma através de uma negação e dissociação da sombra. Isso, porém, acarreta um alto preço a ser pago. Conforme Gubitz, Amalec, o neto de Esaú, torna-se a incorporação da sombra dissociada na psique judaica coletiva como uma consequência do crime cometido contra Esaú. Os amalecitas guerreram contra Israel e, em resposta, Moisés anunciou que "Iahweh guerreará contra Amalec de geração em geração" (Ex 17,16). O crime não reconhecido contra Esaú estabeleceu uma culpa dissociada e um complexo de vingança que põe os descendentes de Jacó em antagonismo permanente contra os descendentes de Esaú.

🦋"O crime não reconhecido contra Esaú estabeleceu uma culpa dissociada e um complexo de vingança que põe os descendentes de Jacó em antagonismo permanente contra os descendentes de Esaú. Segundo Gubitz:

🦋"Em termos psicológicos a ansiedade a respeito de violência ou destruição iminente (em caso extremo a paranoia) geralmente está ligada a profundo sentimento de culpa. Frequentemente, também, essa culpa é o outro lado de uma inflação psíquica, de uma superioridade com um arquétipo poderoso. Na história mítica do povo judaico ambos os fatores podem ser rastreados na ruptura entre Jacó e Esaú, e posteriormente, através dos tempos, na ramificação mítica de Amalec. A culpa na psique judaica coletiva é o preço inevitável pago pelo roubo que Jacó-Israel fez do direito de primogenitura de Esaú, por sua fraudulenta aquisição da benção paterna, e por sua rejeição consciente dos aspectos e valores incorporados por Esaú. Nos termos da forma de consciência básica da cultura judaico-cristã isso pode ter sido um passo à frente, um movimento para longe do que é puramente terrestre, irracional e politeístico, em direção a um plano de espiritualidade e moralidade. Mas, como Herman Hesse nota em "O jogo das contas de vidro:

🦋Entre as angústias inerentes a uma vocação genuína, estas são as mais amargas. Quem recebeu o chamado, recebe, ao aceita-lo, não só um dom e uma ordem, mas também algo semelhante a uma culpa."

🦋O que distinguia os israelitas de outros povos num estágio primitivo era seu compromisso com a exclusividade do monoteísmo, sua identificação com Iahweh e sua meta de perfeição psíquica inevitável de tal compromisso perfeccionista - de qualquer compromisso inadequado com uma meta que é por definição inatingível - é uma estrutura de culpa completamente ramificada. Esforçando-se avidamente para atingir o brilho de uma espiritualidade transcendente, a pessoa se torna culpada por desprezar a base terrestre que dá origem e alimentação a toda a vida. Ao sentir-se a si próprio como o representante humano de Deus na terra, o indivíduo também toma sobre seus próprios ombros o fardo das falhas da humanidade e, ao mesmo tempo, também a culpa pela incapacidade humana de corresponder ao ideal divino de perfeição. Possuído por um arquétipo imensamente poderoso, e por causa disso apartado do resto da humanidade como o Escolhido de Deus, o indivíduo deve ter a percepção inconsciente de que foi desprezado por seus irmãos de sangue, pois estar apartado também significa expor-se como alvo para enormes projeções negativas e todas as energias destrutivas que elas podem desencadear."


🌹Em Bíblia e Psique de Edward Edinger citando:
Myron B. Gubitz, "Amalek: The Eternal Adversary, p.57"___✍
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