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segunda-feira, 14 de junho de 2021

O sono de Psique

Arte de Alphonse Mucha

🦋Reencontrar a beleza primordial, eis um grande desafio. Ir ao Hades (inferno), trazer um pouco de beleza, para que seja restituída aquela que pelas tarefas a ela designadas, desgastou-se durante o processo. Novamente, os instintos ali se encontram cumprindo a sua parte de unificação, levam Psique a abrir a caixa e a faz "morrer/dormir" para o que "era" ou o que já foi. Num sono que mais inspira a morte daquilo que um dia, a mesma representou (a mais bela), esta então, é desperta por Eros com sua seta. E somente assim, reencontra-se com seu amado e se torna imortal. Permitindo sucumbir aquilo que antes acreditava-se ou era considerado divino para reencontrar-se com a divindade em si mesma. Permitir ou dar permissão, é quando se disponibiliza a reconhecer seus ciclos, suas faces e aceita as transformações que ocorrem em cada processo.🦋


🌹Kátia de Souza - 14/06/2021___

🔎Texto protegido em seus direitos autorais:
T7278667 - Lei 6.910 (direitos autorais)
Arte na imagem via Wanda Patricia Perez Araujo

terça-feira, 16 de junho de 2020

"Mitologia Ocidental: Dissolução e Transformação" por ALAN W WATTS (trecho)

desconheço o autor da image, via Google
"Mais adequada a ciência do século XX seria uma imagem orgânica do mundo, o mundo como um corpo, um amplo padrão de energia inteligente que tem um novo relacionamento conosco. Não estamos no mundo como súditos de um rei, nem vítimas de um processo cego. Não estamos no mundo de modo algum. Somos o mundo! O mundo é você. Nesse mito orgânico do mundo, cada indivíduo deve ver a si próprio como responsável pelo mundo. Não pode olhar para trás e dizer a seus pais: “Vocês me meteram nisso, miseráveis!" Nos juizados de menores, as crianças que ouviram falar em psicanálise podem dizer: "Não tenho culpa de ser delinquente. Foi minha mãe que me prejudicou e tenho complexo de Édipo." E a imprensa diz: "Não é culpa da criança; temos de cuidar dos pais", e os pais dirão: "Não podemos evitar a neurose; foram nossos pais que nos prejudicaram." O que remete a história do Jardim do Éden, quando o Senhor Deus perguntou a Adão: 'Acaso comeste do fruto da árvore que eu tinha ordenado que não comesses?", e Adão disse: "A mulher que me deste por companheira deu-me do fruto da árvore e comi." E quando o Senhor perguntou a Eva: "Por que fizeste isso?", ela disse: 'A serpente me enganou...", e o Senhor Deus olhou para a serpente e a serpente não disse nada. Ela simplesmente não culpou o outro. Ela sabia a resposta porque o Senhor Deus e a serpente haviam combinado nos bastidores, muito antes que isso acontecesse, que iriam representar essa cena, pois a serpente é a mão esquerda de Deus e "não deixe que a sua mão direita saiba o que a esquerda está fazendo". Como vimos, é um jogo de esconde-esconde. Não vejo a menor possibilidade de haver o que chamo de uma atitude basicamente saudável na vida quando se culpa o outro pelo que acontece. Como se diz no budismo, tudo o que acontece é seu carma, o que significa que é obra sua. Pode parecer um pouco megalomaníaco, como se você dissesse: sou responsável por tudo, como se fosse Deus. Mas só é megalomania se você usar a imagem monárquica de Deus, e é por isso que não se pode dizer no Ocidente: "Eu sou Deus." Se disser, vão enfiá-lo num hospício, porque você está dizendo: "Sou o dono daqui e você deve me adorar como divindade."

Mas se temos outra imagem de Deus, uma imagem orgânica semelhante ao corpo humano, quem é que manda? A cabeça? O estômago? O coração? Você pode argumentar a favor de cada um. Pode dizer que o estômago é fundamental porque chegou primeiro. É o órgão que distribui vitalidade, alimentando todos os outros órgãos. Portanto, o estômago é primordial. Pode argumentar que a cabeça, um gânglio de nervos no ponto mais alto do canal alimentar, é um acessório do estômago e evoluiu a fim de parasitar o ambiente com mais inteligência para arrumar alguma coisa que alimente o estômago. A cabeça protesta: "Não, está certo que cheguei depois e o estômago já estava lá, mas João Batista chegou antes de Jesus Cristo. Eu, como cabeça, sou o produto mais recente e mais evoluído, e o estômago é meu servo. O estômago é que fica parasitando o ambiente a fim de dar energia para que eu possa me dedicar à filosofia, cultura, religião e arte." As duas argumentações são igualmente válidas ou inválidas. O que importa num organismo é a cooperação, ou como diz Lao-Tzu, "ser ou não ser surgem mutuamente. Longo e curto subentendem um ao outro; difícil e fácil se implicam mutuamente". Da mesma forma, sujeito e objeto, eu e você. Dentro e fora. Todos vêm a ser juntos. Tal como coração e cabeça, cabeça e estômago são recíprocos e há uma cooperação na qual a ordem não deriva da imposição de cima, de um ordenante."

("Mitologia Ocidental: Dissolução e Transformação" por ALAN W WATTS)

domingo, 24 de maio de 2020

Ícaro e a Embriaguez dos Sentidos por Angelita Corrêa Scardua

Dédalo e Ícaro (1869) - Óleo sobre tela de Frederic Leighton

Toda estória tem um começo, a de Ícaro não é diferente. Ícaro era filho de Dédalo, o melhor e mais conhecido dos artesãos e inventores da mitologia grega. Qualquer um que desejasse algo belo, funcional, engenhoso que fosse, deveria buscar as habilidades de Dédalo.

Dédalo, numa época de sua vida, tomou como aprendiz seu sobrinho, Talos. Talos revelou um assombroso talento que, aparentemente, poderia suplantar o de Dédalo. Diz o mito que foi Talos quem inventou o primeiro serrote, a roda do oleiro e imaginou o primeiro par de compassos. Não tardou para que a reputação do jovem aprendiz ultrapassasse os limites da oficina de seu mestre. O sucesso de Talos, a procura crescente por seus serviços, começou a corroer de ciúmes o pobre Dédalo. A insegurança do mestre artesão, sua incapacidade de reconhecer e aceitar a concorrência do sobrinho, levou-o a uma decisão egoísta e cruel, atrair o aprendiz até o até o topo do templo de Atena e empurrá-lo para a morte.

Dédalo tinha um filho, Ícaro, com quem foi banido da cidade de Atenas como punição para o crime contra Talos. O rei de Creta, Minos, apreciava a arte de Dédalo e, por isso, acolheu pai e filho em sua ilha. Antes de tornar-se rei de Creta, Minos disputou o trono com dois irmãos seus, e a incerteza da vitória atormentava-lhe os dias. Foi quando ele teve a idéia de recorrer a Netuno, o deus dos mares. Minos pediu a Netuno que enviasse um sinal confirmando o seu reinado sobre Creta. Netuno, então, fez um trato com o futuro rei: mandaria-lhe como sinal um esplendoroso touro branco que emergiria das ondas, em troca Minos sacrificaria o magnífico touro em honra ao próprio deus Netuno. Acordo feito…e não cumprido. Ao invés de sacrificar o touro sagrado enviado por Netuno, Minos sacrificou um touro comum. É claro que ele não contava com o fato de que a percepção divina era muito mais apurada do que a humana e, é lógico, Netuno logo viu que fora enganado.

Netuno queria vingança, e a vaidade de Dédalo serviu como uma luva para o propósito do deus. A mulher de Minos, Pasífae, foi enfeitiçada por Afrodite a pedido de Netuno. Tomada pela força afrodisíaca da paixão, Pasífae enamorou-se do touro branco de Netuno. Desesperada para concretizar o seu desejo, a rainha recorreu a Dédalo e pediu-lhe que ele fizesse uma vaca oca de madeira, na qual ela pudesse entrar e ser possuída pelo touro sagrado. Dédalo, envaidecido pela confiança que a rainha depositara em seu talento de artífice, aceitou a tarefa. Da cópula entre Pasífae e o touro, nasceu o Minotauro. Quando o filho de Pasífae nasceu, Minos – não sabendo da trama entre sua esposa e Dédalo – pediu ao inventor que construísse uma prisão diferente de todas as outras, um esconderijo para a própria vergonha, uma casa para o Minotauro.

Dédalo, com a ajuda de seu filho Ícaro, erigiu um intrincado vai e vem de corredores que se entrelaçavam entre paredes intransponíveis, um labirinto à prova de fugas! O Labirinto de Cnossos. Para saciar a fome do Minotauro, o rei Minos mandava capturar jovens atenienses, sete moças e sete rapazes a cada sete anos, que eram servidos como refeição à besta meio homem-meio touro. Porque atenienses? Por vingança, já que o único filho de Minos, Androgeu, havia sido morto pelos atenienses. Com o tempo, a população de Atenas começou a indignar-se com o tributo. Na terceira vez de pagar a “dívida” a Minos, os atenienses enviaram seu mais valoroso guerreiro, Teseu. O oráculo de Delfos avisou a Teseu que ele só conseguiria matar o Minotauro se o amor lhe servisse de guia. E assim foi. Ariadne, filha do rei Minos, foi seduzida por Teseu, apaixonada ela instruiu Teseu a levar com ele um novelo de lã. À medida que Teseu adentrava a morada do Minotauro, ele ia desenrolando o fio do novelo, marcando o caminho percorrido, marcação que poderia reconduzi-lo à entrada/saída do labirinto.

Quando Teseu matou o Minotauro e conseguiu escapar do Labirinto – que supostamente era à prova de fugas –, a fúria do rei Minos voltou-se para Dédalo, o construtor. O fato é que era realmente impossível escapar do labirinto, mas o próprio Dédalo havia sugerido a solução do novelo para a apaixonada Ariadne. Ao que parece, Dédalo não conseguia resistir à tentação de mostrar-se engenhoso, inteligente e tudo o mais. A vaidade, expressa na necessidade de reconhecimento, era o ponto fraco de Dédalo, o que sempre o levava a se corromper. Foi assim, como punição por Minos, que Dédalo e seu jovem filho, Ícaro, se tornaram prisioneiros do labirinto que haviam construído.

No labirinto, Ícaro passava os dias se cuidando, afinal a vaidade era sua herança paterna. Dédalo, por sua vez, estudava, pensava, imaginava uma forma de escapar de Creta. Finalmente, Dédalo concebeu um plano audacioso. Ele construiu dois pares de asas, tecendo as penas e juntando-as com cera. Quando as asas estavam prontas, levou Ícaro para um canto, instruiu-o no uso do artefato e alertou-o sobre os perigos de voar próximo demais ao sol ou ao mar. Um curso médio, o equilíbrio entre o alto e o baixo, essa seria a rota segura para um vôo bem sucedido.

De um rochedo bem alto, pai e filho alçaram vôo. Por muitos quilômetros o jovem Ícaro seguiu seu pai, ateve-se à percepção da jornada que lhe fora passada. Mas Ícaro tinha seus próprios sonhos, acalentava os anseios próprios da juventude e seus sentidos ansiavam por mais de tudo aquilo que ele acabara de descobrir voando. Sentindo-se livre, Ícaro entregou-se ao prazer dos sentidos, embriagou-se de sensações: do toque do vento nos seus cabelos dourados, da visão do azul do mar confundindo-se com o do céu no horizonte, do som do rufar de suas asas, do movimento ascendente do seu corpo, do calor do sol na sua pele…

…O mesmo sol que aquecia a experiência sensorial do jovem Ícaro, acabou por derreter a cera de suas asas, lançando-o no mar. Na água, uma suave ondulação agrupava um punhado de penas, que flutuavam, sinalizando o ponto onde Ícaro caíra. Essa foi a última lembrança que Dédalo levou do seu filho.

Como Ícaro, todos aqueles que desejam a superação correrão riscos. Arriscar-se é um movimento que, do ponto de vista psicológico, assinala o desejo de expandir a própria percepção do mundo e das coisas. Aqueles que buscam explorar os limites dos sentidos, que buscam ver, ouvir, sentir, mais do que os outros, pagarão um preço, sempre! Se o preço será compensatório ou não, depende do quanto o risco foi calculado. A impetuosidade de Ícaro levou-o aonde ninguém mais havia ido, mas a sua imprudência limitou a experiência, minimizando as chances de aproveitar o vôo por mais tempo e de aperfeiçoá-lo. O segredo do sucesso dos grandes criadores – seja um cientista ou um artista, por exemplo – parece residir, em grande parte, na capacidade de correr riscos calculadamente.

A criatividade para efetivar-se sempre demandará do criador a capacidade de viabilizar aquilo que pensa e sente. O vislumbre, por mais arrojado e original que seja, não é suficiente para dar corpo a um projeto. Desenvolver condições para a experimentação, as tentativas, os erros e os acertos, é parte crucial de qualquer aventura criativa bem sucedida. Ícaro, como muitos de nós, deixou-se seduzir pela possibilidade de algo que ele não conhecia inteiramente. Voar, poderia ser a experiência mais significativa da vida de Ícaro caso ele tivesse sobrevivido para contá-la. A vaidade, a imaturidade e a arrogância de Ícaro não permitiram que ele aceitasse aquela primeira oportunidade de vôo como uma porta para algo que poderia ter sido muito maior.

Algumas vezes, porém, alguns incautos ícaros são necessários para nos mostrar a necessidade de limites, sejam limites internos que devemos aprender a nos impor, sejam limites externos que precisamos aprender a respeitar. Afinal, a criação parece iniciar-se no desejo de superação, desejo esse que só é possível quando reconhecemos que há um limite a ser superado.(Angelita Corrêa Scardua)

sábado, 9 de maio de 2020

Quem é Gaia, a deusa da Terra nas mitologias grega e romana


Gaia é a deusa da Terra ou simplesmente Mãe-Terra nas mitologias gregas e romana. Segundo o poeta Hesíodo, Gaia é a personificação do mundo se formando. É a própria Terra divinizada. Por tudo isso, Gaia é a base de todas as outras coisas que vieram depois dela. Surgida do Caos, ela é a origem de tudo, a fonte de toda a matéria: do céu, das montanhas e dos mares.

Assim, após surgir do nada, Gaia gerou espontaneamente (ou seja, sem fertilização) três filhos: Urano (divindade que representa o Céu), Óreas (as Montanhas) Céu e Ponto (o Mar). Ao menos é isso que diz Hesíodo no poema mitológico Teogonia (ou Genealogia dos Deuses).

Céu e Terra mais tarde se uniram. Sim, por mais estranho que isso possa parecer, Gaia fez de seu filho Urano seu marido. Dessa relação nasceram, por exemplo, os 12 Titãs. É por isso que Gaia também é chamada de Titeia: a mãe dos Titãs.

São vários os filhos de Gaia, e o número costuma variar de acordo com a versão da genealogia dos deuses. Da sua união com Ponto, nasceram Nereu, Fórcis, Taumas, Ceto e Eríbia - todas elas divindades marinhas. Com Tártaro, deus do Mundo Inferior, teve Tífon ou Tufão, gigante que, segundo a crença, era responsável pelos ventos.

Os atributos da Mãe-Terra

Bom, já deu pra perceber que Gaia era bem importante para os gregos, principalmente em Atenas, centro da Grécia Antiga. Prova disso era a existência de festas públicas dedicadas a Gaia.

E toda essa adoração tinha uma razão bastante clara: os vários atributos da deusa da Terra. Além de criadora, ela também era a deusa protetora não apenas dos deuses, mas de todos os mortais. Ah, nem precisa dizer que, se a Mãe Gaia criou tudo, ela gerou a humanidade também.

Como é possível notar, um dos principais atributos de Gaia era a fertilidade. Tanto a fertilidade do solo quanto a fecundidade - a capacidade de gerar filhos. Por isso, Gaia era a deusa que governava os casamentos.

Mas há outro aspecto de Gaia que pouca gente conhece: ela era também uma divindade funerária. Da mesma forma que Gaia gera, dando início a todo o ciclo da vida, ela também tem papel central no encerramento desse ciclo. Segundo o escritor romano Cícero, os gregos adotaram a prática de enterrar os mortos, em vez de cremá-los, para assegurar o retorno ao seio materno. No caso, a Mãe-Terra, Gaia.

A lenda de Gaia e Urano


A Mutilação de Urano por Saturno (Cronos), dos artistas renascentistas Giorgio Vasari e Cristofano Gherardi.


Esta é uma das lendas mais fascinantes da mitologia grega. E também uma das mais horripilantes.

Como já dissemos, Urano é filho e marido de Gaia. Dessa união (bastante fértil, aliás), surgem, além dos 12 Titãs, seis criaturas monstruosas: três Ciclopes, que eram gigantes imortais que tinham apenas um olho no meio da testa, e três Hecatônquiros, gigantes que possuíam cem mãos e cinquenta cabeças.

Urano não gostou do que viu. Logo de cara, detestou seus filhos, a ponto de não querer vê-los em liberdade. Sabe o que pai desnaturado fez? Conforme as crianças nasciam, ele as encarcerava no ventre materno - nas entranhas da Terra.

Outra versão do mito diz que o cárcere para o qual Urano enviava seus filhos era o Tártaro - o Mundo Inferior ou os quintos dos Infernos. Seja como for, o destino das pobres criaturas era a reclusão no interior da Terra. E, como é de se esperar, isso gerou algumas reações.

A primeira delas foi o ódio dos filhos e, evidentemente, da mãe. Diante de tamanha crueldade, Gaia clamou a seus filhos por ajuda. E só foi atendida pelo último filho a nascer: Cronos, o Titã do tempo. O deus romano equivalente a Cronos é Saturno.

Como diz o provérbio: a vingança tarda, mas não falha. E o ódio acumulado contra as atitudes de Urano uma hora transformou-se em reação. Gaia forneceu a seu filho Cronos uma foice. E foi com essa foice que Cronos mutilou (mais especificamente, castrou) seu próprio pai no momento em que este, na calada da noite, tentava seduzir Gaia.

Nascimento dos Gigantes, das Erínias e da deusa Afrodite

O golpe foi certeiro. O sangue jorrou do ferimento e caiu sobre Gaia, fertilizando-a mais uma vez. Assim nasceram os Gigantes, seres colossais e indomáveis. Também nasceram as Erínias, divindades que personificavam a vingança. Além das Melíades, as ninfas do freixo.

Algumas gotas de sangue caíram no mar. Da espuma gerada por uma onda nasceu Afrodite, deusa do amor e da beleza. Diz a lenda que Cronos, após mutilar seu pai, atirou a foice no mar. Onde a arma caiu surgiu a ilha de Corfu, próxima à costa noroeste da Grécia. De acordo com a Teogonia de Hesíodo, é nesse momento que se inicia o reinado de Cronos.


terça-feira, 19 de novembro de 2019

O mito das Plêiades (por Lucinda Riley)

The_Pleiades_(Elihu_Vedder)
Por muitos milênios, as Sete Irmãs, imortalizadas no famoso agrupamento de estrelas chamado Plêiades, provocaram assombro e fascínio mundo afora e foram tema de mitos e lendas em quase todas as culturas do planeta. Histórias sobre as Sete Irmãs foram transmitidas oralmente e pela poesia, arte, música e arquitetura de gregos, aborígenes, chineses, índios norte-americanos, egípcios, persas, indianos e polinésios, para citar apenas alguns povos. 

Entre as primeiras estrelas a serem mencionadas na literatura, as Plêiades aparecem em anais chineses produzidos por volta de 2.350 a.C. As primeiras referências na literatura europeia estão em um poema de Hesíodo, escrito em 1.000 a.C., e nas Odisseia e Ilíada, de Homero. 

Para saber aonde ir, a humanidade sempre ergueu os olhos para a constelação das Plêiades. Marinheiros confiavam nessas estrelas para navegar e agricultores para saber quando semear e ceifar suas colheitas. A tribo Zuni, do Novo México, por exemplo, as chamava de “estrelas de semente”. Quando o agrupamento sumia, na primavera, isso queria dizer que estava na hora de semear. Outras culturas acreditavam que as estrelas haviam fecundado o planeta e eram as sete mães originais da Terra. 

Na minha série(autora do livro “As sete Irmãs”), a história das irmãs está baseada sobretudo na mitologia grega, mas há muitas outras lendas sobre elas em todas as partes do mundo: 


Mitologia grega 

As Plêiades eram sete irmãs: Maia, Alcíone, Astérope, Celeno, Taígeta, Electra e Mérope. Eram filhas de Atlas, um titã condenado por Zeus a sustentar o céu, e de Pleione, filha do titã Oceano e protetora dos marinheiros. 

Após cruzarem por acaso com o caçador Órion, as Plêiades e sua mãe passaram a ser perseguidas por ele. Para protegê-las das incansáveis investidas amorosas de Órion, Zeus as transformou em pombas e as colocou no céu, entre as estrelas. Além disso, três delas – Taigete, Maia e Electra – tiveram filhos com o deus. 

Por sua associação com a água, sejam mares, chuva, granizo, neve, gelo ou geada, as Sete Irmãs também são conhecidas como “Jovens d’Água” ou “Donzelas do Gelo”. As lendas gregas muitas vezes se referem a elas como “Oceânides”. Algumas fontes afirmam que o nome “Plêiades” vem da antiga palavra grega plein, que significa “navegar”. 

Maia – A mais velha das irmãs, conhecida pela beleza fora do normal e por sua vida solitária. A história conta que, apesar de muito bela, Maia era tímida e frágil, preferindo se isolar e morar sozinha nas cavernas. Em latim, Maia quer dizer “mãe” e, em outras traduções, também significa “enfermeira” ou “grande”. Era considerada pelos romanos a deusa da primavera, por isso nosso quinto mês se chama “maio”. Em determinado momento, sua estrela brilhou mais do que as outras. No entanto, a estrela da irmã seguinte, Alcíone, hoje brilha mais, e alguns dizem que isso simboliza a rivalidade entre as duas irmãs no passado. 

Alcyone  – Na mitologia grega, Alcíone, a segunda irmã, era conhecida como a líder. Na época idílica, quando o mundo era repleto de alegria, prosperidade e tranquilidade, ela protegia o mar Mediterrâneo, tornando-o calmo e seguro para os marinheiros. Em outro mito, casou-se com Céix, rei da Tessália, filho de uma estrela matutina, com quem formou um casal dedicado até o dia em que os dois enganaram Zeus e Hera, fazendo-se passar por eles. Enfurecido, Zeus esperou o casal se separar e lançou uma tempestade sobre o mar, fazendo a embarcação de Céix virar e este morrer afogado. 

Asterope – Astérope em grego significa “estrela” e é tradicionalmente retratada como uma das mais fracas entre as irmãs, talvez por ser uma das que brilham menos do que as outras. Com Ares, deus da guerra, teve um filho chamado Enomau. Em algumas versões do mito, Enomau é marido de Astérope e rei de Pisa. Com ele, ela teria quatro filhos. 

Celaeno  – Celeno em geral é traduzido como “melão” ou “obscura”. Assim como Astérope, Celeno brilha menos do que as outras estrelas do agrupamento, supostamente por ter sido atingida certa vez por um raio lançado por Téon, o Jovem. Apesar disso, teve muitos filhos, entre eles Deucalião com o titã Prometeu, e Lico, Nicteu, Eurípilo com Poseidon, deus do mar. 

Taígeta  – Nos mitos, Taígeta, assim como Maia, valorizava a própria independência e vivia sozinha nas montanhas. Zeus também tentou seduzi-la, mas, antes que conseguisse alcançá-la, ela correu para os braços de Artemis, que a transformou em gazela para lhe permitir escapar das garras de Zeus. Hércules também tentou seduzi-la. 

Electra – Conhecida como a terceira mais brilhante das estrelas, Electra teve quatro filhos, entre eles Dárdano, que mais tarde fundaria a antiga cidade de Troia. Algumas fontes alegam que Electra, e não Mérope, é a “Plêiade perdida” depois que ela desapareceu após a queda de Troia e a morte de Dárdano. 

Merope (a Irmã Perdida) – Mérope é mais geralmente aceita como a “Plêiade perdida”, pois foi a última estrela a ser identificada pelos astrônomos e é a mais fraca do grupo, invisível a olho nu. Algumas lendas sugerem que Mérope se perdeu ao ter escondido o rosto de vergonha por ter desposado um mortal, o rei Sísifo. Outros dizem que Mérope escondeu o rosto de vergonha pelo fato de o marido ser um criminoso, cuja punição era empurrar uma pesada pedra morro acima, até a fronteira do firmamento. Nesse aspecto, há semelhanças com Atlas, pai de Mérope, que sustentava o peso do mundo nos ombros. 

Artigo de Lucinda Riley  - autora do livro "As setes irmãs" e aqui apenas destaquei o que ela pesquisou sobre os aspectos do mito, propriamente e não sobre o livro da autora. (Kátia de Souza)