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sexta-feira, 25 de junho de 2021

O SUPRAPESSOAL NA ARTE


Imagem via Canvas


"(...)o psicólogo porém deve adotar uma posição oposta em relação à obra de arte. Com relação à obra de arte é supérfluo investigar o condicionamento prévio a que estão sujeitas todas as pessoas em geral. E preciso perguntar pelo sentido da obra. O condicionamento prévio só interessa na medida em que facilitar a melhor compreensão do sentido. A causalidade pessoal tem tanto ou tão pouco a ver com a obra de arte, quanto o solo tem a ver com a planta que dele brota."

"(...)A insistência no pessoal, surgida da pergunta sobre a causalidade pessoal, é totalmente inadequada em relação à obra de arte, já que ela não é um ser humano mas algo suprapessoal. E uma coisa e não uma personalidade e, por isso, não pode ser julgado por um critério pessoal. A verdadeira obra de arte tem inclusive um sentido especial no facto de poder se libertar das estreitezas e dificuldades insuperáveis de tudo o que seja pessoal, elevando-se para além do efémero do apenas pessoal.(...)"

(...) Uma obra de arte, porém, não é apenas um produto ou derivado, mas uma reorganização criativa justamente daquelas condições das quais uma psicologia causalista queria derivá-la. A planta não é um simples produto do solo, mas um processo em si, vivo e criador, cuja essência nada tem a ver com as características do solo. Assim, a obra de arte deverá ser considerada uma realização criativa, aproveitando livremente todas as condições prévias. Seu sentido e sua arte específica lhe são inerentes e não 'se baseiam em suas condições prévias externas; aliás, poderíamos até falar de um ser que utiliza o homem e suas disposições pessoais apenas como solo nutritivo, cujas forças ordena conforme suas próprias leis, configurando-se a si mesma de acordo com o que pretende ser."

Carl Gustav Jung - "O Espírito na Arte e na Ciência"
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"
Não é a pessoa do artista, não é o pessoal que se deve levar em conta, não são as questões neuróticas, inerentes a maioria das pessoas, que deve se dar importância. Mas, sim o sentido da mesma, o que ela elicia ou emana dela mesmo, seu sentido para quem a recebe. Tudo o que você tenta apreender da pessoa do artista, através da sua obra, é apenas projeção, ou seja, ilusão. O que você vê, diz de você e não do artista em si - é uma miragem, um reflexo de si mesmo. Assim como aquilo que dentro de cada um determina o que é arte, também diz sobre nós mesmos, assim é toda opinião sobre a pessoa do artista. Quando estamos falando de opinião, estamos falando de uma realidade que desconhecemos e usando apenas dos parâmetros que somente em nós, há.

E para o psicólogo, o processo criativo é o que é importante, como este se manifesta na pessoa do artista. Compreender o processo criativo do artista, é fundamental para acompanha-lo em seu processo."

Kátia de Souza - 25/06/2021

quinta-feira, 10 de junho de 2021

somos U[m]nicos

Na imagem: arte de Alexander Sviridov

✨Sim, é exatamente isso, eu vou... e vou por ali
por onde os cantos entoam um segredo por desvelar-se 
ou por compor-se naquilo que ainda "vem a ser"
e não importam mais os gemidos e sequer o eco no espaço 
por onde flagra-se os olhos espantados por ver a arte inacabada

ela vai, sim ela... a arte que em si mesmo já é o que precisa, 
se precisa, ser alguma coisa

sigo seu rastro, no faro que hoje me aproprio
e ouço o ranger de dentes como que ativados para roer-se mesmo, 
para saber-se, mas desvelar-se junto àquela 
que não veio ao mundo para brincar de ser o que não é 
e atender as expectativas de toda gente

ela brilha no breu porque tem intimidade com o mesmo, 
não se esqueceu que sua essência vem desse abraço, 
vem do dorso que lhe sustenta - a mãe esquecida
não apenas esta de braços mansos e acolhedores 
dos cartões em datas comemorativas, 
esta que também é o olhar ardendo nossas entranhas 
por guardar em si, o mistério de sempre saber 
o que se passa por dentro de nós

por isso, ela vai... 
ela já sabe a que veio e eu lhe farejo entre passos
ela se permitiu vir ao mundo assim mesmo,
em meio a tudo que não lhe era agradável 
porque sabia que não podia renovar pela manutenção do já estabelecido, 
afinal, ela é a representação da criação

nisto, veio mostrar a sua força, que não se traduz por uma qualificação, 
mas é o que é; somente ao criador cabe aquilo que dele nasce e renasce

sim, ela não fica ... ela é também movimento 
porque mesmo que sem se denunciar, fez da ação seu consorte mais íntimo 
e pôde dizer através dos seus gestos, acolhedores ou não, 
a que veio e ao que virá sempre
porque ela, ficando ou indo, é sempre esta 
que jamais se dá ao trabalho de olhar para outro lado 
a não ser para os seus próprios passos

por isso, não fujo ao meu faro, rastreio-a comigo em meus afazeres, 
em minhas dores, em meus aturdimentos, sorriso, bem aventuranças 
e tudo que por mim passa, afinal, sei dela por aí em seus segredos a nos revelar

e quem dera não caber, nisso tudo, 
aquilo que o verbo vem também revelar, 
mas cabe e é dele que sobrevêm todo o resto, 
então, estão ali diluídos, todos os temas, em todas as expressões
e nela, sem dúvida se pode ver, sentir, abrir e expandir 
para qualquer vertente, pois este é seu legado; 
trazer desse outro lado o que ficou sem dizer
ou nasceu naquele instante justamente para começar 
a ser forma, letra em sua original e ainda, substância

nela é, toda forma transportando o que desfez-se antes,
indiscriminou-se para, comendo do fruto, 
ver-se nascer em tantas faces, em mim e também em você

afinal, com ela ou ele, somos U[m]nicos!


🌹Kátia de Souza - 10/06/2021___✍
Na imagem: arte de Alexander Sviridov
🔎Texto protegido em seus direitos autorais:
©T7275533 - Lei 6.910 (direitos autorais)

terça-feira, 8 de junho de 2021

"Bendito é o fruto do vosso ventre"

Na imagem: arte de Andrew Gonzalez

💫Uma poesia, uma tela, uma música, uma dança algo que saia das mãos do artista, é fruto, mas só podemos colhê-la como semente. E nem sempre temos a paciência de deixar que a mesma brote ou floresça dentro de nós. Vamos ali, em meio a terra que a germina com nossa ânsia por sabê-la ou compreendê-la e já a arrancamos de seu sossego e dizemos, com a mesma entre os dedos: "é isso, é aquilo". 

💫Um sentir diante da arte é reviravolta mesmo, mexe por dentro. Aquele que cria sabe que sua arte, seja ela qual for, não veio ao mundo de forma mansa, então, trará ao mundo essa reviravolta por reflexo. Antes, dentro de si, revirou-se o mundo para nascer, explorou milhões de estrelas nesse universo interno para ser, essa centelha. Por isso, acaba-la entre palavras que a restringe a um único broto ou a um único espaço de razão (ego e suas ânsias), é o mesmo que dar contornos ao que é divino crendo-o apenas a partir desse que o contempla. Sim, ele é também isso, mas para além disso, é criação. 

💫Assim como para que germine qualquer semente, a terra ou o solo precisa de quietude para dar espaço às confissões da vida em seus movimentos diversos - "ebulição", "efervescência" - assim também é a arte. É fogo sim, chama viva do "espírito" que em ação presencia esse germinar. No segredo e na escuridão da terra, lá está ela, a vida a alimentar essa semente e fazê-la eclodir do original ao novo broto que desponta. 

💫Tudo está ali em presença e isso rasga a pele de quem compõe, abre, racha ao meio seus segredos mais íntimos, destrói para nascer. E quando nasce, é o filho - "bendito fruto do vosso ventre" - e é tudo o que não se traduz por um único olhar ou uma passageira opinião. E este, também lança-se ao mundo como fruto e deixa-se em semente fecunda, àquele que puro se entrega ou abre-se para em si permitir que também germine. 

💫E nisto, já são outros os movimentos, são outros os segredos e é outra a pele. Não é mais o artista aí, é a semente que em ti foi lançada. Do artista, nem o rastro podemos alcançar. Por isso, deixe ser, para que se possa ver o que disso virá. A arte como semente, é único em você que se permitiu acolher a criação e sabe que em terra fértil, só ha um fim: brotar, florescer e frutificar. Na aridez da razão, só pode sucumbir, qualquer semente. 

💫Habitemos o nosso coração "artista" permitindo que em nós floresça a semente, paremos de interpretar o imensurável e nos rendamos ao fruto que é a obra que a nós chega. Só assim correspondemos a nossa natureza, enquanto criação doando ao mundo, nossa real palavra. Só assim somos co-criadores. Aquilo que nasce do espelho que é o fruto do artista, é somente seu. Cabe a ti colocar ao solo, deixar germinar para que floresça. 

💫O artista, enquanto criação, não te pede ou pergunta nada, apenas doa de si em fruto, a sua arte. Saboreie e colha da mesma, a semente que em ti, tende a nascer. 


🌹Kátia de Souza - 08/06/2021___✏ 
Na imagem: arte de Andrew Gonzalez 
🔎 Texto protegido em seus direitos autorais:
® T7274352 - Lei 6.910 (direitos autorais)

segunda-feira, 7 de junho de 2021

Criatividade e criação (Marie-Louise von Franz)

The Street Wall Graffiti Girl Art Posters Canvas Art

"Dependendo do processo criativo ou do artista, qualquer "opinião" que venha de dentro ou de fora, acaba partindo, desintegrando ou dissolvendo a criação. Não se sabe da semente, que dirá do broto, para rega-la assim; sem o compromisso do que realmente a mesma precisa. Ela precisa nascer, para saber o que a mesma é!" 
(Kátia de Souza)
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💫A criatividade muitas vezes necessita da proteção da sombra, de ser ignorada. Isso é bastante evidente na tendência natural de muitos artistas e escritores que não mostram suas obras antes de vê-las terminadas. Até então, eles não podem suportar sequer as reações positivas dos outros diante da obra. As reações apaixonadas das pessoas diante de uma pintura, exclamando por exemplo: "Oh! é maravilhoso!", ainda que haja boas intenções, podem destruir inteiramente o claro-escuro, a onda da fantasia mística e escondida que o artista necessita. Somente quando ele tem seu produto acabado ele pode expô-lo à luz da consciência e às reações emocionais das pessoas. Então se você notar uma fantasia inconsciente aparecendo dentro de si, você precisa ser sábio o suficiente para não interpretá-la imediatamente. Não diga que já sabe o que é, forçando-a para o consciente; deixe somente que ela viva lá dentro, na penumbra e carregue-a consigo observando para onde ela vai, ou para o que ela o dirige. Mais tarde, então, você poderá olhar para trás e ver o que você esteve fazendo durante todo o tempo em que cultivava essa fantasia estranha, que o levou a algum objetivo inesperado. Se você estiver fazendo um desenho e tiver a ideia de juntar mais isso ou aquilo, não pense: "Eu li o que isso significa!" Se isso ocorrer, empurre então seu pensamento para longe e se dê mais e mais ao desenho, de tal modo que toda a rede de símbolos possa se expandir em muitas e todas as ramificações antes que você busque o seu sentido essencial.💫

🌹Marie-Louise von Franz___✏
A Interpretação dos Contos de Fada

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terça-feira, 4 de maio de 2021

Sobre as forças criativas

            Marie - Louise von Franz, fala-nos, no texto abaixo, do processo criativo e o que isso significa, considerando a psicologia humana, como isso se dá e o quão difícil é lidar com essa dinâmica da criação ou da "pessoa criativa". A mesma vai falar da pressa ou afobação que normalmente nos assalta ao criarmos, e o quanto conter esse impulso pode "matar" a criatividade ou a criação emergente.


            Quanto a contenção do processo criativo, no sentido de conter na medida "certa, adequada ou equilibrada", penso e sinto que faz-se necessário, à pessoa criativa, ter espaço para expressão, para deixar jorrar com maior liberdade, inicialmente, essas forças que despertaram em nós, até mesmo para que a mesma, viva o seu processo criativo e reconheça como o mesmo se dá, que forças são estas, nele. Cada pessoa criativa possui um ritmo, uma forma de expressão e de irrompimento dessas forças. Não somos todos iguais, temos nossas peculiaridades a serem reconhecidas. E nem sempre isso é tão óbvio quanto parece, sempre é bom lembrar.


            Reconhecendo o seu processo criativo a dinâmica do mesmo em si, a pessoa poderá saber quais recursos usar para uma contenção equilibrada. Não são fatores externos que poderão conter, mas sim, os próprios fatores emergentes nos sinalizarão como fazê-lo, no tom e ou forma precisa, para cada "artista", vamos assim dizer. E considerar os tipos psicológicos e suas devidas funções, nesse processo, sem dúvida, possibilitará à pessoa, lidar melhor com essas forças criativas ou orientar seu paciente.


            E quanto ao conter demais e a "ideia/criação" morrer, Marie -Louise von Franz, irá falar, posteriormente, sobre o aspecto sombrio do processo criativo que está ligado, diretamente, ao que ela chamou de "forças diabólicas" e por isso, forças destrutivas. E esse aspecto destrutivo, não é somente relacionado a "morte" da criação em si, mas também dessa destrutividade, também poder se expressar na vida do artista de diversas formas, caso o mesmo não saiba lidar com consciência com seu processo criativo. Mas, sobre os aspectos sombrios da criatividade, postarei a explanação de von Franz, num outro momento.


Kátia de Souza - 04/05/2021

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            "(...) pessoalmente, cheguei à constatação de que um dos maiores problemas em qualquer tipo de criação é ser capaz de administrar adequadamente o tempo da ânsia criativa. Quando a gente se sente nas malhas de um processo criativo, geralmente nos deixamos ser arrastados por isso e nos tornamos afobados, querendo despejar tudo par fora imediatamente. Há aquela avalanche interna de ideias e temos medo de, no começar a escrever, não conseguir registra-las rápido o suficiente, a fim de não perde-las novamente de vista. Se a pessoa criativa é do tipo intuitivo, isso é particularmente difícil porque a mão que escreve ou pinta não consegue acompanhar o fluxo de ideias com a rapidez suficiente. Isso não acontece só com a criação verbal; a mesma coisa aparece também nas artes plásticas. Alguém vê um quadro ou uma peça na pedra e o que ela deve parecer, quer tira-la da pedra rapidamente, ou coloca-la no papel ou na tela, temendo perder a visão interior daquela coisa, pois se esfriar e perder o frescor, essa pessoa está perdida! Não pode traze-la de volta à tona em sua mente, uma segunda vez. Logo, precisa forja-la, cria-la, no momento em que está quente, quando se encontra à sua frente, oferecendo-se à você. Ao mesmo tempo, é precisamente essa sensação do que deve ser feito, enquanto está insistindo por dentro, que conduz muito facilmente a pessoa a criar com afobação, seja escrevendo de qualquer jeito, ou achando às pressas alguma maneira de expressão artística e, com isso, naturalmente, ela arruína completamente a obra. Aí é preciso refazê-la duas ou três vezes, tirando os excessos, limpando, mas às vezes o estrago é de tal ordem que não é mais possível trazê-la de volta. Dessa maneira, essa sensação de explosão precipitada é um dos perigos e dificuldades da maioria dos impulsos criativos.


            No campo científico, existe o mesmo perigo, sob a forma de se atirar a conclusões e generalizações. Um aspecto parece que se encaixa bem com as coisas e então você o generaliza: tudo é a mesma ideia. Isso dá origem a teorias muito monomaníacas nas quais uma ideia é martelada em cada objeto e, se o objeto não acolhe essa investida, então você força e engana, porque tem de encaixar. Isso é uma criatividade afobada. Na história da ciência, por exemplo, a maioria das ideias equivocadas nas quis a humanidade já esteve emaranhada, algumas vezes por séculos, foi causada por uma concepção (em si correta) que era tão apressadamente generalizada que, daí em diante, bloqueou outras investigações. A pessoa fica tão emocionalmente preenchida com uma nova descoberta que esse perigo de matar tudo aplicando-o de forma muito descuidada e apressada é um dos maiores riscos que corre a atividade criativa. E é muito difícil disciplina-la. Por exemplo, Jung escrevia seus livros muito devagar, à mão. Se olharmos os manuscritos, vermos que são poucas as correções. Ele não conseguia escrever mais que uma página ou duas por hora, porque tomava muito cuidado, parando depois de cada sentença. Observei durante muitos anos esse procedimento e jurei que faria o mesmo, pois, acho que é a única forma certa, mas não consegui até hoje, assim agir. Para mim é uma luta de vida ou morte segurar Dona Pressa. Vocês podem rir de mim, não me importo, mas tentem por si mesmos antes de rirem demais! O impulso criativo é tão poderoso e se apodera emocionalmente da pessoa com tanta força que ela tem, ao mesmo tempo, de conter suas emoções, o que, naturalmente, pode surtir o efeito oposto e impor um ritmo lento demais. Se você contiver demais sua impaciência a ideia desaparecerá e perderá a flama da intuição original e morrerá."


Marie - Louise von Franz - Mitos de Criação
Psiquê - Alma e Conhecimento - Kátia de Souza