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segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Entre eu e meu filho ...

Imagem via Google - desconheço o autor


Olhei para o meu filho e vi em seus olhos, todas as respostas silenciadas... 

naquele canto entre rodas de plástico, peças de encaixar, aviões minúsculos, bolinhas de gude e gravetos... todos, entre dedos pequenos e inocentes da “utilidade” de cada objeto, em suas nuances “reais”. Inocência que varre de cada um, em detalhes, suas breves significâncias e que jamais alcançamos e ainda lhes dá eternidade nas invenções; que porventura são tão inconvenientes aos hábitos maduros, revisto pelo cômodo olhar que lhe lanço. 

Quem dera pudesse, todo olhar, deixar seu pouso e voar além do ingênuo que concedemos com displicência a todo infante! Seria melhor considerarmos a seriedade de suas aparentes brincadeiras; quem sabe assim teceríamos caminhos com menos fios e nisso, simples tramas. 

Foi nesse exato momento, no fim das recolhidas respostas que ouvi aquela voz delicada a me enlaçar pelo peito e dizer: “mamãe, está tudo bem?” 

Surpresa, não foi ouvi-la novamente, sua voz em abraço, meu filho. Surpresa mesmo foi sentir o quanto de verdade, cabia-lhe em cada palavra em real interesse – saber, se alguém está, realmente, bem.... quanta voz, cabe em cada letra! Que possamos, como você, preenche-las. Mas, nada pude dizer, sorrir, nos foi o bastante, naquele infinito espaço para onde, você, me levou! 

É ... olhei para o meu filho e vi em seus olhos, todas as respostas silenciadas. Mas, estavam lá, todas elas a lhe desenhar cada movimento e me acompanhar em profundo acolhimento! 

(Kátia de Souza) 
18-12-2019




sábado, 28 de dezembro de 2019

Tua face...

Crédito da imagem, na mesma
entre os veios do solo, um eco, do roçar da semente 
pousada entre os grãos do teu corpo 
respiração lenta... é o embalar dos teus braços, mãos 
que acolhe em presença, sob meu olhar, 
cada pequeno gesto não visto 
pouco a pouco, tua pele a recobri-la em mim 
sinto o aconchego, sinto também, no ar, o apagar das luzes 
e o calor do teu ventre a envolver-nos 
sinto, o pulsar do que já não sei ser a parte ou diferente, 
separado ou dividido... é, ouço o pulso a dizer-te em nós 
em pleno silêncio e escuridão ... 

(o que é isso?) 

um sussurro e um farto alívio de asas que pousam 
espalham-se e mostram-nos o caminho 
sinos que rasgam o ar entre frestas e sombreiam o espaço, 
lá vem mais um lugar, desconhecido... luz pelo caminho... 

sinto, o parto iminente a irromper em fruto novo 
tão calmo e forte como ensinastes 
em cada movimento a mim dedicado 
mostrando sem palavras, no silêncio, em nós 
sentido e abarcado em cada gota de alimento 
recolhido em mim, nosso corpo agora 
deixando aos ares os sons, dos primeiros brotos 
choro, lágrimas e sais ao descoberto para ser 
dedos nossos, a apontar a direção 
de mais um instante dessa eterna ”incondição” 
de ser você, o nós que há tempos perdemos 
e de tanto procurar, o lasso ... que nos fez retornar 
o repouso, o descanso... naquilo que pensávamos não ser 
e era tudo o que nunca foi esquecido ... 

... toco-lhe a pele macia, tua face, em mim, semente! 

Kátia de Souza
(28/12/2019) 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

O cão morreu, o homem também: o cão do Carrefour e o homem desumanizado. por Flavio Cordeiro


O homem morre simbolicamente a cada ato de barbárie.

Carlos e Sertanejo: a Dra. Nise acreditava que os cães são a ponte afetiva que humaniza o homem.

A Dra. Nise da Silveira costumava afirmar que os cães eram seus co-terapeutas, ela introduziu os cães no tratamento dos clientes esquizofrênicos do Centro Psiquiátrico Pedro II no Engenho de Dentro, obtendo grande sucesso terapêutico. Segundo ela o cão “nunca provoca frustrações, dá incondicional afeto, sem pedir nada em troca, traz calor e alegria ao frio ambiente hospitalar.” O cão realiza a ponte afetiva que faltava aos internos, isolados do mundo pelos muros do hospital e pela estigmatização da loucura.

É como se a Dra. Nise intuísse desde muito cedo que os cães humanizam o homem ao reavivar seus laços afetivos.

Na biografia da Dra. Nise escrita por Luiz Carlos de Mello (Nise da Silveira: caminhos de uma psiquiatra rebelde — Automática Edições Ltda, 2014) , uma das passagens mais emocionantes é a história de Carlos e do cão Sertanejo. Carlos era um paciente extremamente dissociado, sua expressão verbal era quase ininteligível, no entanto, quando o assunto era os animais, sua fala se tornava irreconhecivelmente fluente, numa clara demonstração do poder transformador do afeto.

Numa certa ocasião Carlos dirigiu-se à Dra. Nise: “Quero dinheiro para despesas de Sertanejo”. A Dra. perguntou espantada: “Que despesas?” Ao que Carlos, resoluto, respondeu: “Água oxigenada, mercurocromo, gase”. Sertanejo havia ferido a pata, Carlos foi à farmácia, fez as compras, trouxe o troco certo do dinheiro e fez um curativo com rara perícia. Sertanejo ajudou Carlos a falar articuladamente, a cruzar os muros do hospital, a fazer compras e dar o troco certo: algo talvez impensável para o Carlos de antes. O cão ajudou Carlos a se expandir como ser humano e o fez através do mais forte dos remédios: o afeto.

Nessa semana um homem agrediu covardemente o cão “Manchinha” que vagava pelo estacionamento de um supermercado. Bateu-lhe com uma barra de metal.


O cão morreu, o homem também: o homem morre simbolicamente a cada ato de barbárie.

Ao contrário de Carlos, que se expandiu na relação afetiva com Sertanejo, a execução de Manchinha mata o bicho e diminui o homem.

Consegue-se ter uma ideia do grau de humanidade existente em uma sociedade pela forma com que ela trata aqueles de seus membros em condição de maior fragilidade (nossas crianças, nossos velhos, nossos loucos, as minorias vulneráveis à agressividade dos intolerantes, etc.) mas também pela forma como trata os seres não humanos: as florestas, os lagos, os rios e sobretudo os animais.

Certa vez, conhecendo Machu Picchu, nos aproximamos do Vale dos Incas, nesse instante, nosso guia, sabedor do meu interesse por questões históricas e mitológicas, se aproximou de mim e disse: “O senhor está vendo aquele rio ali abaixo? É o rio sagrado dos Incas. Para os Incas ele era considerado um Deus: Willcamayu. Só que agora está poluído e cheio de esgoto. Agora ele não é mais um Deus, ninguém joga cocô em um Deus, não é verdade?” Admirei a grande capacidade de nosso guia de sintetizar o grande adoecimento de nossa época: Quando o homem dessacraliza sua relação com a vida, ele perde sua humanidade.

Quando dessacralizamos a relação com a vida do outro, seja ela a vida dos animais, a vida do planeta, e de outros seres humanos, nos tornamos seres perversos: aqueles para quem o outro, não passa de mero objeto inanimado, que pode ser eliminado, sem qualquer sentimento de culpa, assim que deixar de ser útil, ou quando começar a atrapalhar.

Por que não queimar a floresta, se atrapalha a expansão da soja? Por que não exterminar as reservas indígenas, se elas atrapalham a mineração? Por que não eliminar a minoria étnica ou comportamental, se ela atrapalha a visão de mundo dominante dos mais fortes e poderosos? Por que não quebrar a espinha dorsal de um cão, se ele atrapalha a rotina do estacionamento do Carrefour?

Escutei de Tereza Caribé, Psicóloga Junguiana da Bahia, as seguintes palavras, e não as esqueci:

“Costumamos confundir progresso com civilização, nada mais errado. Pode haver progresso bárbaro: nos tornamos bárbaros sempre que nos desenraizamos, excluímos o outro e nos dessensibilizamos.”

Atacar um animal indefeso com tamanha violência, diz muito sobre como um ser humano pode se dessensibilizar. A reação das pessoas nas redes sociais e na imprensa acende uma chama de esperança, ao mesmo tempo, a resposta dessensibilizada e “econômica” e do Carrefour, disse muito mais do que as poucas linhas do comunicado pretendiam revelar.

Em tempo:

No dia 6 de Janeiro de 1960 a Dra. Nise entrou de férias do hospital. O Administrador do Centro Psiquiátrico, aproveitou-se de sua ausência e retirou, disfarçadamente, numa ambulância, os seis cães co-terapeutas do hospital e levou-os para serem sacrificados no Serviço de Veterinária da Mangueira, sob o pretexto de que a presença dos animais violava as regras sanitárias. Alguns homens não suportam o poder transformador do afeto, talvez porque nunca o tenham recebido na vida.

A Dra. Nise não teve dúvidas: ao tomar conhecimento do fato pediu seu imediato afastamento do serviço, que naquele momento gozava de amplo reconhecimento e notoriedade na sociedade e na imprensa. Ela só voltaria se os cães voltassem junto. Produziu-se um escândalo, os jornais entraram na polêmica: não fazia sentido que um burocrata interferisse num tratamento com visíveis resultados positivos, por pura perseguição. No dia 1º de fevereiro de 1960, a Dra. Nise foi readmitida: ela e os seis cães. Era a vitória do afeto sobre a barbárie.

Vida longa à Manchinha! E que o segurança que cometeu esse ato, possa receber a devida assistência, (para além das punições cabíveis). Ao adotar o linchamento como prática, nós também nos desumanizamos.

Flávio Cordeiro é Psicólogo e psicoterapeuta de orientação junguiana.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Um presente natalino

UM PRESENTE NATALINO

Quando acordar e perceber que já passou da hora que havia programado para acordar, não se lamente, nem mesmo se sua mãe lhe disser que não cumpriu com o planejado ...
Nem mesmo quando você chegar ao trabalho e feliz, mostrar o suporte de canetas novo que comprou e seu amigo, não demonstrar muito entusiasmo ...
Não se entristeça quando ao final do dia, você disser ao seu parceiro(a) que fez um jantar especial e ele disser que está faltando um pouco de sal ...
Não se chateie se acaso ao contar aquela história que te emocionou, alguns apenas enxergarem algo racional e explicável em tudo que disse ...
Não pense nada menos do que está sentindo e é tão grandioso, quando conseguires compor aquela música que nem todos querem ouvir ...

Não, não sinta menos, não coloque olhares emprestados às preciosidades únicas, saídas de tuas mãos. Apenas você sabe e sentiu cada detalhe e passo para concluir o que concluiu e em si.

Nada é pouco ou está faltando, nada é pequeno ou precisa mais quando seu coração se alegra, quando o sorriso nasce num olhar de menina(o) em cada conquista. Por menor que seja, por mais que nada ou ninguém sinta como você sente... você sente!

Não espere aprovação de ninguém, aprove você a você mesmo, não espere confirmação de ninguém confirme você a você mesmo, não espere acolhimento de ninguém, acolha-se a si mesmo. E todo o resto pode até lhe parecer estranho, mas não serão estranhos os sorrisos em comunhão que ecoar junto ao seu, quando em si, ele, o sorriso, nascer primeiro. Alegre-se com você, você é sim especial, mesmo que ainda não saiba, descubra-se, reencontre-se e verás sentindo o que aqui lhe digo. Isto pois, este, é o presente que o Criador lhe concedeu, de sentir como ninguém mais pode sentir e espalhar ao mundo o que é único e essencial na composição dessa tela imensa chamada vida. Sem você, o Todo, não seria o Todo, então, seja e se expresse como és, seja você! Você é o presente que estava esperando!

... Kátia de Souza ...
(24/12/2018)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

E lá vai ela ...

crédito da imagem, na mesma
colhi as ervas e as pisei até ser seiva
bebi gota gota seu pranto verde
salguei a pele e lavei-a em espumas rasas
junto as pedras de seixo fui água mansa
preparando a vestes que já sopravam entre os troncos
sorvi teu canto em meu peito e entoei teu chamado
em mim o rubro do teu manto em fogo
consumindo todo ar das indiferenças
rodeei as rosas em oferenda num canteiro-broto
já ventando seu perfume inerente
e foi assim que calei o silêncio
rasgando o céu dos meus próprios medos
e chamei-me sua a verter-me em lágrimas
torrentes celestes de nuvens desfeitas
lavando os pés dos mortais caídos
e beijando a fronte das senhoras pálidas
não me permitiu ficar em repouso e voou sem pressa
num até logo sem calma
gargalhando teu verso com aquele olhar , só teu
de eterna... presença

...e lá vai ela em mim, em meu sopro, nos coroar!

(Kátia de Souza)
23-12-2019

domingo, 22 de dezembro de 2019

Consciência na mulher (Emma Jung - citação)


Anima & Animus arte de  Kim Lorentzson
"Sem dúvida, há sacrifícios também para a mulher. Para ela, tornar-se consciente significa a perda de um poder especificamente feminino. Com a sua inconsciência e graças a ela a mulher exerce um efeito mágico sobre o homem, uma magia que lhe confere poder sobre ele. E por sentir isso instintivamente e não querer perder esse poder, ela muitas vezes opõe-se com tenacidade à conscientização, mesmo que o espiritual como tal pareça-lhe altamente desejável. Muitas mulheres mantêm-se por assim dizer artificialmente inconscientes somente para não ter que fazer esse sacrifício. Mas é preciso dizer, no entanto, que nisso muitas vezes a mulher é também corroborada pelo homem, pois muitos homens encontram prazer exatamente na inconsciência da mulher e colocam todos os obstáculos possíveis em seu caminho rumo a uma maior consciência, que parece a eles incômoda e desnecessária." (Emma Jung em "Anima e Animus")

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Emma Jung - Uma contribuição ao problema do Animus(Trecho)

Imagem via
CARL JUNG DEPTH PSYCHOLOGY
Life, Work and Legacy of Carl Jung
Na concepção natural primitiva a alma não é bem uma unidade, e sim um complexo múltiplo indeterminado. E de fato expressa-se nas representações, encontradas entre todos os povos, de espíritos ou almas que habitam as pessoas seja por terem se introduzido antes ou durante o nascimento ou por terem se apoderado do indivíduo em alguma outra ocasião posterior para nele exibir sua atividade. As vezes eles são considerados espíritos dos antepassados ou da tribo, outras, como os assim chamados espíritos da mata que embora pertençam a determinada pessoa, são pensados como habitando animais. Em nossas crenças populares, em mitos e contos de fadas, os gigantes e anões bons e maus, fadas e magos, e freqüentemente também os espíritos dos mortos e às vezes de animais têm um significado semelhante. Estas representações originam-se na experiência direta conhecida de cada um de que às vezes somos tomados por estados e emoções que despertam em nós impulsos, sentimentos, pensamentos e imagens que nos parecem totalmente estranhos. Freqüentemente, tais emoções são diametralmente opostas aos nossos pontos de vista ou intenções, de tal forma que dão a impressão de se tratar de manifestações de um ser com existência própria, diferente de nós. Quando Paulo diz: "O bem que eu quero, este eu não faço, mas o mal que eu não quero, este eu faço" expressando a mesma experiência, ou seja, aquela que às vezes nos faz notar em nós uma vontade estranha, que faz o contrário daquilo que nós queremos ou aprovamos. Não é necessariamente o mal o que faz essa outra vontade, pois ela pode querer o melhor, sendo sentida então como um ser superior dirigente ou inspirador, como espírito protetor ou gênio no sentido do Daimonion socrático. Freqüentemente também não se trata de algo bom ou mau, mas simplesmente de um outro diferente, que surpreendentemente faz se valer por si mesmo, com vontade e opinião próprias, dando a impressão de que se está tomado ou possuído por espíritos estranhos.

A experiência direta que também é concedida a todos, representada pela atividade do sonho e da fantasia, é uma outra fonte dessas representações. Depois que o racionalismo científico esqueceu o significado dessas coisas e a consciência do eu se apossou da totalidade da psique, novamente volta-se a requerer da psicologia médica moderna concepções que têm um parentesco surpreendente com as concepções primitivas mencionadas acima. Na verdade, teve-se que assumir que o eu consciente é apenas um aspecto da psique; pois certas aparições, especialmente na vida anímica anormal, praticamente não podem ser esclarecidas de outra maneira que não seja a existência de regiões da alma externas à consciência do eu, e que não apenas os sonhos, mas muitas outras aparições e sintomas devem ser atribuídos aos conteúdos e atividades aí existentes. Essas áreas da alma externas à consciência são reunidas sob a denominação de "Inconsciente". Pesquisadores como Janet, Flournoy, Breuer, Freud e outros apresentaram provas da existência desse inconsciente psíquico.

Mesmo a constatação de que há um inconsciente não basta, pois esse conceito expressa, antes de mais nada, só algo indeterminado e negativo. Por isso o próximo passo foi pesquisar de que modo esse inconsciente foi criado e o que continha. (Emma Jung em ANIMA E ANIMUS - "Uma contribuição ao problema do Animus") (®Psiquê - Alma e Conhecimento )

domingo, 15 de dezembro de 2019

Dependência emocional(alguns aspectos)


desconheço o autor da imagem, via Google
A personalidade dependente é uma condição que envolve certos complexos, se assim posso dizer, de difícil manejo, pois, diante de apenas um sentir à “libertação” de determinadas energias inerentes aos complexos, estes, “re-agem” às suas próprias percepções pré-conscientes de impotência e fragilidade, diante de alguma experiência, a qual é o seu foco. E estas experiências podem ser num relacionamento, pode ser no trabalho ou curso que estejam executando e claro, no seu processo de análise onde continuar com a possibilidade de seguir adiante, ampliando suas ações, é abortada, encerrada quase que simultaneamente, à aproximação da consciência em relação a algum fator ligado a estes complexos. E quando não se abandona a experiência, se manipula a mesma para seguir alimentando a sua ilusão de "ser o que pensa ser, nesta relação".

É como, em dado momento, a pessoa percebesse que tem tudo ali, disponível a si para libertar-se e “ser ela mesma”, mas não sabe o que fazer com aquilo tudo. Não sabe, porque não sente, não vive tudo aquilo que lhe pertence, não coloca em prática e possui dificuldade de sair da zona de conforto. No máximo, busca imitar alguém que ela admira e não busca em si seus próprios recursos para a execução daquilo que lhe é potencial(manipulação inconsciente). E antes disso tudo, não aceita ser “impotente ou em falta”. Em alguns casos, é comum que a pessoa use desse potencial percebido, como algo a ser exibido para o externo, mas nem ela mesma acredita muito nisso e, por isso, afirma e “re-afirma” sempre a mesma coisa relacionada a estes potenciais, até para se convencer do que está dizendo, num movimento infinito de desejo de preenchimento que não chega nunca(manipulação inconsciente). Pois, sempre haverá uma voz interna a soprar-lhe sobre a aceitação da sua “falta” – a falta sempre será o fantasma, a sombra incômoda a cutucar(ver-se e aceitar-se por inteiro e reconhecer aceitando em si o quê lhe integra, deixando para trás aquilo que era apenas desejado como ideal) 

É por essas e outras razões que tomar consciência, primeiramente de suas impotências ou crenças de impotências, de sua auto-estima em declínio e desequilibrada; todas as energias e/ou complexos ligados a dependência, faz diferença, pois, é vivendo, sentindo em si a falta e onde a mesma se sustenta, vivendo e reconhecendo seus aspectos nas sombras da consciência, que poderá saber, pois, assim abrirá espaço, soltando, liberando o que não lhe pertence, mas pertence, possivelmente, a um ideal como crença. É dessa forma que se apropriará de tudo que lhe preenche porque diz respeito a si mesmo e não a crenças e/ou ideais que não condiz consigo e fará isso com naturalidade; verá onde isso tudo, realmente se encaixa, na sua vida – vivendo e não apenas falando, discursando e/ou fingindo para si mesmo, de que é o que não sente/vive que é.
(Kátia de Souza em “Rascunhos e reflexões”) 

Em meio as águas

Imagem flickr
Quero trafegar inteira em cada palavra, dita
quero ser o contrário do previsto e expectativas
e, não há nenhum esforço, para isso...

Afinal,
a maré caminha, não desliza,
não sopra, não desenha em areia morta,
esta, verseja seus ventos de mar 
e balbucia sua meninice de ondas

ser contrário ao expecto, desaloja
e já é sabido das faltas e vazios, 
preenchidos com o ar da frustração
por isso, sou onda que caminha
semeando água, espuma e conchas
para caber o mundo desalojado

não, não é esperado o verso que liga,
a palavra que une, a rima que integra

é uma luta nesses barcos em alto mar
querendo ser no estar à deriva
porém, contrário ao querer do começo
e arrasto as linhas para a palavra que nos condensa e cala
deixo a maré fazer seu porto no horizonte
e dançar sua música essencial,
das idas e vindas que não se separam
para serem movimentos em curvas

nos barcos, todas as tentativas de rios e lagos
e o não desaguar como oceano
porém, o que fazer na força do contrário,
senão, apenas querer a palavra inteira?
pois, este (contrário), não prevê e jamais separa
estilhaçam-se em cacos e gotas, 
tudo que há à sua frente e todo o casco 
mas, volta suave naquelas águas
que sempre foi, seu colo-oceano

Então, desfaz-se toda palavra em forma e que deforma, 
do desejo, diluído, agora
restando-nos apenas as águas e seus reflexos de crepúsculos ...
... inteiros, como o tráfego pela palavra, dita
afinal, sabe-se do caminhar dessas marés, jamais vistas!

(Kátia de Souza - 11/12/2019)

"Vocação" - a voz da alma

Imagem via Google
Assim como a imaginação ativa e os sonhos são atributos inerentes ao ser humano, ou seja, são atributos que nasceu em nós mesmos, natural e espontaneamente, percebido e aplicado pelos alquimistas, povos primitivos e os cientistas contemporâneos, há infinitas outras manifestações dessa psique onde se pode fazer a ligação e possível integração, entre consciente e inconsciente. 

Vejo isso em minha prática com algumas pessoas que estão comigo, nessa jornada de ampliação da consciência. E posso citar aqui um exemplo: Uma pessoa, a qual acompanho, já há alguns anos, tem aptidões naturais para a música, mas não vem usando essas aptidões habitualmente. Porém, após buscarmos algumas técnicas, algo que fosse a porta para esta pessoa iniciar sua jornada de forma mais profunda, eis que em sincronia, a mesma viu-se diante de lembranças e certas imagens, ao ouvir uma música de seu gosto pessoal. E a partir daí estabelecemos a técnica ou o meio pelo qual, estamos acessando esse material que vem chegando, naturalmente, à consciência - através da música. E a partir disso, estamos "explorando" e tornando consciente, com música e em diversas situações, esse material valioso, inconsciente. Veja que quem nos concedeu a porta, não foi algo consciente e presente na rotina da pessoa e sim, algo inconsciente, pois, a música é algo inerente a esta pessoa, porém, não é um hábito comum, propriamente, até o momento.

O que quero mostrar aqui é que temos as habilidades ou potenciais em nós que nos favorece a ampliação do que somos e nos concede uma vida mais plena, conscientemente falando, pois, a partir disso conseguimos lidar com aquilo que nos surge, nesta vida, de forma mais integral e ampla.

Vejam, a minha habilidade de lidar com a imaginação ativa e a interpretação dos sonhos, nasceu de forma natural e espontânea e com a prática e estudos, sem dúvida, tudo fica mais fácil e claro para manejar esse material todo que em nós, é. Assim como, nessa experiência com a música, está sendo muito mais tranquilo à pessoa lidar com seus conteúdos e complexos, diante da vida, suas experiências e convivência. Então, para mim, sinto que sempre será a pessoa que mostrará o caminho de como lidar com a psique(o ser) ali a sua frente. Não é a técnica pré-estabelecida que se encaixa naquilo que o paciente está trazendo, quando este, pretende atingir níveis mais profundos da sua alma, mas sim, ele mesmo é que mostra esse caminho. 

A própria psique envolvida no processo de ampliação é que nos mostra o caminho e se estivermos atentos a isso, tudo flui naturalmente, onde a pessoa cria a partir de si mesmo o meio de intervenção nessa psique. E nisso vejo o que Jung afirma em sua prática também: "(...) assim, o que o médico faz é menos uma questão de tratamento do que de desenvolvimento das possibilidades criadoras latentes no próprio paciente".

Portanto, a minha habilidade com imaginação ativa, bem como, a interpretação dos sonhos e a habilidade dessa pessoa em acessar a si mesmo em integralidade, através da música, não é um privilégio nosso, mas sim, uma "vocação". E essa "vocação" é presente em todos nós. É como uma voz que sussurra baixinho em nós ou até alto, mas não ouvimos por estarmos focados ou colocando a frente, outras "prioridades" de nossa psique; é um chamado a nós, inerente, natural e espontâneo que sempre está ali, no que somos e se manifesta quando estamos prontos para ouvir, quando nos dispomos ao mesmo, quando ouvimos o mesmo ou quando deixamos de priorizar as investidas desse centro "egóico", unicamente, e integramo-nos como mais - "um oceano de possibilidades". 

E vejam de onde vem e o que significa a palavra "vocação": "Vocação" é um substantivo feminino que vem do latim "VOCARE" que significa chamar e está relacionado a "vocatione" que quer dizer convite, apelo, chamado e em sua raiz encontramos "vox”, “vocis” - voz. E aqui, sinto que temos o importante a ser considerado: o chamado de nossa alma, a vocação que nos é inerente, o nosso talento, o ser que somos, nossa assinatura vindo se manifestar, através de habilidades ou condições concretas, trazendo nisso, a porta para que nos auto-conheçamos de forma natural e espontânea. Essa porta, não apenas nos favorece a auto-consciência, a ampliação da consciência, mas possibilita todo o respeito e sacralidade que sinto ser necessário ao abordarmos a nós mesmos, enquanto, seres infinitamente amplos e com um campo vasto ainda em nós desconhecido, não apenas de material reprimido ou recalcado, aspectos sombrios e complexos os mais diversos, mas também de inúmeros potenciais criativos que nos favorece a elaboração de tudo que experienciamos, como humanos.

Somos um oceano ou horizonte, muitas vezes, sentidos como inatingíveis, mas nessa infinitude em nós, há algo de extremamente generoso que se coloca a disposição da nossa consciência. E quando nos colocamos disponíveis a isso, ao desconhecido, da mesma forma amorosa, entramos na sintonia do saber e apreender a nós mesmos. É assim que escutamos a nós mesmos, ouvimos nossa voz, a voz do ser que somos e este é o chamado em realidade, a qual todos, sem exceção estão sujeitos, se assim se dispuserem.

Natural e espontaneamente, saiba qual é a sua vocação, o que a sua alma está dizendo sobre você mesmo, sinta-se, invista em si. Certamente, precisará passar por alguns passos até que esta voz sinta-se a vontade em se mostrar tão claramente, mas ela o fará quando sentir que em si é, esse comprometimento de ouvir-se, tão honesta e verdadeiramente. Permita-se! 

(Kátia de Souza em "Um esboço de um novo tempo")

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Visita inesperada

Tenho a vontade calada e realizada em meio as aventuras de um sonho... tuas mãos, pousadas naquele apoio que me parecia um "quê" a mais à sua honrosa presença, além da imponente postura; mas, para que não me enebriasse com os ideais de meus quereres, surgiu entre sorrisos leves, a voz doce e humilde daqueles que sabem sobre as reais preciosidades da vida. Você ali em olhos mansos e até tímidos, palavras que soltas, pousavam em meus ouvidos como honra; o saber traz consigo o poder de nos fazer calar, por isso, assim permaneci e nem mesmo sonhando no sono, consegui manter meus olhos fechados; me permiti abri-los para ver bem onde estávamos. Eu, a sua frente e você, volteando por aquele espaço tão íntimo, o qual jamais pensei em receber-te. Honra minha, sorrisos também, meus, olhos em lacrimosa sensação e mutismo; apenas a alma aclarada, exposta e amando cada segundo em respiração. Talvez, não seja fácil descrever tudo aquilo, mas vai aí meus sentires todos, aos teus acolhedores momentos em meio aos passos dados e todo aquele oceano, nascido de tuas mãos. 
(Kàtia de Souza - 13-12-2019)

"C. G. Jung: – Vida e Obra." por Nise da Silveira(trecho)

"Carl Gustav Jung nasceu a 26 de julho de 1875, em Kesswil, aldeia pertencente ao cantão da Turgovia, Suíça. Seu pai, Paul Achilles Jung, ai exercia as funções de pastor protestante. O menino Carl Gustav tinha quatro anos quando o pai foi transferido para Klein Huningen, nos arredores de Basiléia. Foi em Basiléia onde Jung fez todos os seus estudos, inclusive o curso médico. Esta cidade era, na época, um dos mais importantes centros culturais da Europa, basta lembrar que Nietzsche deu cursos memoráveis na Universidade de Basiléia no período 1869-1879 e que o historiador filósofo Jacob Burckhardt ocupava, por estes tempos, uma cátedra nessa mesma Universidade. Também ecoava ainda naqueles dias a fama do reformador da Faculdade de Medicina de Basiléia, Carl Gustav Jung, avô paterno do futuro psicólogo, que recebeu o nome de seu ancestral ilustre. Rumores corriam de que o velho C. G. Jung fosse filho ilegítimo de Goethe. Nada ficou provado neste sentido, mas comentava-se que tanto seus traços fisionômicos quanto seu inexcedível encanto pessoal o assemelhavam ao autor do Fausto. No seu livro de MEMÓRIAS, Jung não esconde as restrições que fazia ao pai. Desde muito cedo, ele viu no pastor o homem estagnado numa condição medíocre, a quem faltaram forças para seguir sua linha própria de desenvolvimento; o homem que não enfrentava as dúvidas religiosas que o atormentavam, segundo parecia ao filho. O pastor temia as experiências religiosas imediatas, agarrava-se à fé, amparava-se na Bíblia e nos dogmas. Jung nunca poderia aceitar tal atitude. Sentia-se muito mais afim com sua mãe. Menino ainda, descobriu que existiam nela duas.personalidades. Uma convencional, correspondente à esposa de um pastor, que exigia do filho boas maneiras e fazia-lhe recomendações impertinentes sobre o modo de usar o lenço ou coisas semelhantes. E outra, investida de estranha autoridade, misteriosa, dotada de algo que às vezes lhe infundia medo. Quando esta segunda personalidade emergia, o menino Carl Gustav percebia a voz de sua mãe que soava mais grave e mais profunda.


É curioso assinalar que nas Memórias de Jung não se encontre referência a nenhum período de fervor religioso vinculado ao protestantismo, nem mesmo na infância. A ideia de Deus, entretanto, fascinava-o intensamente. E o mais singular é que as cogitações do filho do pastor não giravam em torno da figura de Cristo, tema fundamental dos ensinamentos protestantes. Ele comparava o que lhe diziam com aquilo que via em torno de si. Impressionava-se com os “imerecidos sofrimentos do homem e dos animais" e isso levava-o a imaginar que Deus houvesse mesmo intencionalmente criado um mundo repleto de contradições. O menino pensava e sentia Deus como uma poderosa força avassaladora que trazia consigo bem-aventurança mas também desespero e terror. Guardava secretos esses pensamentos. A quem poderia comunicá-los se eram tão diferentes de tudo quanto se dizia na igreja ou em casa, nas conversações do pai com seus amigos também pastores? Vinha-lhe então o sentimento de que algo muito profundo o separava dos demais."


Trecho de "C. G. Jung: – Vida e Obra." por Nise da Silveira

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Em acolhimento

Imagem via pxhere
Vamos trocando a pele e desgastando os olhos 
e como se estivéssemos mais abertos, cara nua 
a viva carne se expõe, 
se mostra sem mais determinações 
de quando e onde ... 

Apenas vem deitar-se junto, aquelas faces todas 
reunindo-as em seu ventre, aninhando-as como crias 
todas elas, em permuta, todas elas sem mais... alegorias 

regidas nesse suprir-se ... em acolhimento 

Nada mais é pressa e tudo ali, é pouso 
da jornada em latente expressão 
expondo-se na face, desta, 
que tens os olhos fixos nos horizonte! 

(Kátia de Souza) 
09/12/2019

sábado, 7 de dezembro de 2019

Pétala anônima

Imagem via Google
permiti às mãos, tocar 
tua pele em superfície; 
tua face em úmida escala

permitiu-me ver em ondas suaves, 
teus movimentos em nós, calados

estou a margem sentindo teus caminhos
e me levas por toda parte
quando me deixo em ti soprar

sou anônima em teu doce colo
sou pétala em fluidez, a navegar

assisto-nos em pequenas cenas
refletida em teu corpo imenso 

toda voz que em ti percorre, cala-se
e em nós escorre, teu versar inteiro
segredando teu sutil guiar

sussurras em presente sono

sou anônima em teu doce colo
sou pétala em fluidez, a navegar

és sublime, és mistério
são meus olhos, em ti, pousar!

Kátia de Souza
(07-12-2019)

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Todas as noites

Desconheço a autoria da imagem - via Google
Todas as noites adentro e bebo do teu cálice sagrado onde forja-me no molde escolhido por nossas próprias mãos e em asas me submeto a todos os movimentos. Permitiu-me, neste espaço, eu, adentrar e o que me é disforme, contrair-se em limites, os mais diversos; o ilimitado delimitado nos contornos, eis a forja, eis o molde, eis as asas desde o princípio. E aqui estou, mesmo diante das infinitas possibilidades de molduras, acalentei em meu peito tais limites para ser de ti a voz. E não sou única nesse solo em círculo eterno, eis que as vozes ecoam pelos ares e alimentam-te em todas as nuances, flamejando unicidade entre os mais diversos silêncios. Não haverá um ínfimo instante onde não se veja de ti a presença, mas nunca se pronunciará o teu nome por completo em moldes fechados, pois, és o que não se sabe, mas nisso todo o teu saber. 

(Kátia de Souza)
04-12-2019

Crônica por Rubem Alves

"A vida é como a vela: para iluminar é preciso queimar. A vela que ilumina é uma vela alegre. A luz é alegre. Mas a vela que ilumina é uma vela que morre. É preciso morrer para iluminar. Há uma tristeza na luz da vela. Razão porque ela, a vela, ao iluminar, chora. Chora lágrimas quentes que escorrem da sua chama. Há velas felizes cuja chama só se apaga quando toda a cera foi derretida. Mas há velas cuja chama é subitamente apagada por um golpe de vento… " (Rubem Alves em "Quarto de Badulaques" - A vela)
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O Natal está chegando. Fico com medo. Medo da loucura.

Natal é o tempo em que as pessoas ficam perturbadas. Cantam Noite de Paz. Mas seus corpos e almas estão em guerra, possuídos pela agitação e pela pressa. Quando o Deus-Menino nasce, o Diabo se põe a correr.

Valho-me das minhas velas para exorcizar a loucura. Por um ano inteiro eu as deixei esquecidas no escuro de um armário. Um sopro meu as fizera adormecer. E assim ficaram, como a Bela Adormecida, à espera da chama que as faria acordar. Parecem mortas. Mas sei que o toque do fogo as fará viver de novo. Aguardam a ressurreição. Como são humanas! Parecem-se conosco. Também os nossos corpos endurecidos podem arder de novo. Para isto basta que sejam tocados pela magia do fogo!

Preciso delas, das minhas velas. Suas chamas fiéis me tranqüilizam.

“Quer ficar calmo?”, perguntava o velho Bachelard. “Respira suavemente diante da chama leve que faz sossegadamente seu trabalho de luz.”

Tão diferentes das lâmpadas! Seria possível, por acaso, amar uma lâmpada? Que emoções mansas podem nascer de sua luz forte e indiferente? Quem as chamaria de minha lâmpada? Todas as lâmpadas são iguais. Ao morrerem queimadas nenhuma tristeza provocam. Só o incômodo de terem de ser trocadas por outras. 

As velas são diferentes. Choram enquanto iluminam. Suas lágrimas nascidas do fogo transbordam e escorrem pelo seu corpo. Choram por saber que para brilhar é preciso morrer. 

Não é possível contemplar uma vela no seu trabalho de luz sem sentir um pouco de tristeza. Sua chama modesta, modulada por indecisões e tremores, faz-me voltar sobre mim mesmo. Também sou assim. Minha chama vacila ao ser tocada pelo vento. Por isto posso chamá-la de minha vela. Somos feitos de uma mesma substância. Temos um destino comum.

As velas contam estórias diferentes. Cada uma tem um nome que é só seu. Uma delas, eu a coloquei no gargalo de uma garrafa de vinho vazia. Suas lágrimas coloridas escorreram pelo vidro e se endureceram. Não há lenço que as enxugue. Ficaram ali como lembranças de momentos passados que aconteceram à sua luz e à sua intimidade. Presenças de uma ausência, um tempo perdido cristalizado… Meu olhar atento passeia sobre as suas rugas. Noto que há cores diferentes. Aquela garrafa vazia já segurou muitas velas que se foram. Há lágrimas verdes, vermelhas e amarelas que se misturam e se recobrem num mesmo tecido de cera. Gerações que se consumiram no mesmo destino de brilhar mansamente. Procuro a vela que deveria estar ali para ser acordada. Percebo que ela não mais existe. Foi se consumindo, consumindo, até que seu último pedaço se derreteu. Não derramou nenhuma lágrima. Simplesmente caiu dentro da garrafa e desapareceu. Percebo o formato feminino da garrafa: é um útero, com sua abertura vaginal apontando o alto, como torre de uma catedral.

Pensei que talvez a vela me estivesse dizendo que morrer é como um nascer às avessas: voltar ao ventre materno. Fiquei comovido, porque, de fato, uma luz que luzia em momentos passados deixou de luzir. Mergulhou no vazio. Aquela vela não mais se acenderá. Resta apenas a memória dos seus momentos de luz. Penso no que deverei fazer. Deixarei a garrafa assim como está, com suas lágrimas coloridas, e o vazio? Ou colocarei ali uma outra vela? Não. A beleza daquela garrafa se deve justamente ao testemunho das sucessivas gerações que deixaram suas vidas gravadas no vidro. É preciso que a chama continue a brilhar. Quando uma vela se acaba outra deve tomar o seu lugar. 

Outra vela tem vergonha de chorar. Escondeu-se dentro de um copo metálico que não deixa transbordar as suas lágrimas. Chora silenciosamente, sem alarde. Impedidas de transbordar, as lágrimas se transformam num lago interior plano e luminoso de cera derretida, onde a chama se reflete. O choro tem este poder:pode tornar a luz ainda mais luminosa. A vela se recusa a abrir mão da sua dor: guarda as suas lágrimas, mantém-nas presas ao seu corpo, abraça-as, reconhece-as como parte de si mesma. Assim fazem os poetas… Sua luz é modesta: escondida pelo metal, furta-se ao olhar. Mas a sua carne de cera está cheia de um delicioso perfume de canela. Quando ela chora, o ar se enche de beleza. Penso que esta vela, talvez, tenha sido feita para os que não podem ver. Sua luz perfumada tranqüiliza até mesmo aqueles que têm os seus olhos fechados.

Tomo nas mãos uma outra vela. É quase tão grossa como uma garrafa. Em sua cera ocre um artista gravou, em alto relevo, folhas e flores. Mesmo apagada ela é bela. Mãos sensíveis que a toquem podem sentir os seus desenhos. A chama fraca foi derretendo o seu corpo, bebendo a sua carne. A chama brilha de dentro do vazio que o fogo abriu. A pele esculpida, longe demais do calor, sobreviveu intacta. Contemplada de longe, dá uma impressão de solidez e permanência. Mas basta que se acenda a chama para que se perceba a sua fragilidade. De tão gasta pelo fogo, a sua pele ficou translúcida e a luz se filtra através de sua carne efêmera. Que magnífica lição para os velhos:somente os corpos gastos pelo fogo do amor podem se tornar transparentes.

O amor prefere a luz das velas. Talvez porque seja isto tudo o que desejamos de uma pessoa amada: que ela seja uma luz suave que nos ajude a suportar o terror da noite. Sob a luz do amor que ilumina modesta e pacientemente, o escuro já não assusta tanto. É noite de paz!

Não deixe que as suas velas se apaguem! A escuridão é solitária e triste! Vamos! Toque-as novamente com a chama do amor! 

Rubem Alves
Texto acima extraído do livro ” As melhores Crônicas de Rubem Alves”
 

domingo, 1 de dezembro de 2019

Pelas ruas ...

Este grafite foi pintado em Antuérpia por Calaisien Vyrüs / © Vyrüs
Ando por aí e sinto ruas ...

Perdão, mas a mim, é inevitável, quando vejo, já estou lambendo o asfalto, cheirando a terra, tocando o chão ...

E quando chove então...

É uma verdadeira inundação que transborda; Mas, isto, é outro caso.

Vim, para dizer que nas ruas vejo espelhos; reflexos encontrados em quadros inesperados.

E se não quer cansar teus olhos e nem os cotovelos de encostar nas janelas onde pousam teus sentidos, é melhor parar de ler, pois, esse escrito possui quilômetros, além do previsto que não vejo agora enquanto escrevo ...

então, parou?

Suspirado o espaço vago dos momentos,
ido os olhos que não se estendem além das causas importantes,
vamos lá com todos os poetas a tiracolo
vamos tirar todas as significâncias das palavras
para vasculhar o que de cúmulo há em tanto dizer, sem sentido

Alguns, nesse tráfego sem placas, dizem ou diriam
que é pura identificação, porta aberta a uma dor não vista ou curada
outros diriam: lágrimas de emoção;
vítima do abismo da vida procurando um algoz, projeção
e assim, conceituando avenidas de ideias prontas;
E há aqueles que dizem dos apegos às emoções infantilizadas;
“estórias”, contos de fadas desajustados na psique da moçada

Sensibilidade ... é, é esse o jeito de dizer onde me espalho delimitada
onde desenho para ser aclarada nas loucas danças que invento
pois, como não há refração mais coerente, vejo “sensibilidade”
sim, o “mais bom” de todos os termos nesse passeio de ruas espelhadas

dói porque é dor
chora-se porque é lágrima
ri-se porque é boca, dentes, lábios, “palavras-som” ecoadas
ou ainda
dói porque alarga
chora-se porque é vazante
ri-se porque não cala
é vida indigente, delirante, valsante, amante, ensimesmada

quais destes todos, significantes paralelos
poderiam dizer do real, quando neste, morre todos os significados?

Perguntas em poemas é mancada!

Mas, nas ruas não há truculências sem rimas apaziguadas
e quem dera pudesse todas as letras se calarem
mas na real, ele, diz é assim mesmo,
para não deixar dúvidas ou respostas penduradas
e no poema confunde, aclara, dilacera, rima, desrima,
prevê e desvê, para te fazer ir e não ficar;

Percebe tudo aí, movendo-se sem parada?

Então, quem dera pudesse ser loucura, mas não, não é
é você em mim, gritando: “somos um em vida”
chamando por ser somente sentido no estreitar das ruas
quando sem saída se vê e adormece contemplando o crepúsculo
daquele fim que ficou, sem palavras! 

seria pretensão findar o que aberto é por natureza
ruas são infindáveis linhas formando teias e nelas todos os pontos
trançados e bem tramados com seus reflexos ausentes
e há os presentes, também... e como há!
Agora, o importante mesmo, é que estamos todos lá
você não? bem, talvez eu tenha me enganado, 
mas te vi enquanto dormia na rua de chão estrelado!

(Kátia de Souza)
01-12-2019